Tempo mítico. Tempo histórico.

A ideia de tempo linear, ou seja, a linha que leva irreversivelmente do passado ao futuro, é demasiado recente em relação ao tempo cíclico-mítico, chão humano por mais de setenta mil anos. Porém, há exatos dois mil e quatorze anos, perambulou peripatético pelo mundo um sujeito, de apelido cristo, cuja boa nova era a viagem linear que começa aqui no mundo e segue em direção ao céu eterno. Devido a isso o cristianismo é dito o responsável pela quebra do tempo mítico e pela instauração do tempo histórico que nos acompanha até hoje.

Aristóteles, trezentos anos antes de cristo, afirmava ser o tempo cíclico, e que até a mais evoluída sociedade estava condenada a ruir e a retornar ao seu primórdio, para então recomeçar a sua ventura, “ad aeternum”. Entretanto, aquele mesmo Aristóteles que enxergava o tempo como inescapavelmente cíclico, por conta de uma invenção sua, pode ter sido o responsável pela bancarrota da temporalidade que ele mesmo via reinar absoluta no mundo sublunar. Ora, trata-se da sua lógica, eternizada no clássico tratado “Organon”, que visava fazer das argumentações científicas o percurso inescapável em direção à verdade.

A lógica aristotélica buscava encontrar e produzir um encadeamento inequívoco entre as afirmações e as conclusões decorrentes delas, eliminando, portanto, o devir errante das ideias humanas e viabilizando à errância uma correção em direção à eternidade superior e verdadeira. Ao colocar a premissa maior “Todo homem é mortal”, e a premissa menor “Sócrates é homem”, o filósofo fez decorrer, logica e irrefutavelmente, que “Sócrates é mortal”. Diante dessa silogística excelente não havia mais necessidade de retornar às premissas para sustentar a conclusão.

A ciência, estruturada logicamente por Aristóteles, tinha como inimigo diametral o mito. Este, pois, legava verdades aos homens sem justificá-las através de lógica alguma, dado que, para o mito, as suas justificações eram sempre imemoriais e inespeculáveis. A forma mítica, portanto, obrigava os homens a circularem – miticamente – em torno de verdades que se justificavam precisamente na sua impossibilidade de justificação. Já a forma lógica fazia da verdade e de suas causas um Big Bang arquetípico cuja precedência inexistente não interferia no seu próprio devir em direção ao futuro.

Diante da lógica introduzida por Aristóteles, ou seja, da essencialidade de concluir apenas a partir de premissas verdadeiras, o mito – e o tempo que é só seu – não mais se sustentou. Doravante, apenas a linearidade lógica e a sua temporalidade própria foram caminhos às ideias humanas, porquanto no mito se está atado a um circuito repetitivo em torno de uma pretensa verdade sem nunca alcançá-la. Desse modo o tempo mítico perdeu a hora e foi substituído pelo lógico tempo histórico. Inclusive o ciclo inescapável que o filósofo atribuiu às mais evoluídas sociedades deixou de ‘ser’ mítico para ‘devir’ cronológico. Nada, nunca mais, retornou ao seu princípio.

O tempo cronológico – positivo por excelência – lida com a existência ao modo de enfileirá-la temporalmente em um curso irreversível que a afasta historicamente do seu princípio. O que era tradição tornou-se evolução. Entretanto, se o tempo histórico não passar de uma ficcional tragédia lógica aristotélica – tornada ópera pelo cristianismo – estamos apenas brincamos de evolução dentro na roda gigante do mito. Não seria, por ventura, a crise ecológica atual, e a possibilidade do fim do nosso mundo a certeza primeira de Aristóteles de que o tempo é, de fato, um mito inescapável? E não seriam, por conseguinte, os próprios conceitos de História e evolução os erros lógicos responsáveis pela decadência que vemos anunciada na natureza, vítima deste empreendimento lógico-histórico-evolutivo?

A lógica encarnou “cronos” de imediato para afastar-se do seu princípio, pois a verdade de suas conclusões – necessariamente dependentes da verdade das suas premissas – se especulada cientificamente, é tão verdadeira quanto um princípio mítico. Aliás, o mito ainda é mais verdadeiro porque, embora utilizando-se de entretenimentos alegóricos extemporâneos, conta sempre do exato agora; do agora que foi sempre e sempre será, ou seja, do que é incontestável. Já o linear tempo histórico, na séria empresa de não esquecer-se de nada, esquece-se do nada que lhe antecede, padecendo assim de sustentabilidade. Pode ser que a linha histórica criada pelo homem seja apenas a reta fictícia projetada por ele mesmo no perfeito, gigante e inabarcável ciclo mítico da existência.

Aristóteles, ao afirmar que em verdade tudo volta miticamente ao seu início, e ao mesmo tempo introduzir a verdade enquanto expressão lógica, não escapa de entrar em contradição: ou a errância mítica é a verdade, ou a verdade é lógica-histórica. Talvez os sintomas dessa contradição tenham sido desbarates tais como o cristianismo e o fim da natureza. Entretanto, em um universal ciclo mítico tudo tem lugar, inclusive as narrativas históricas e as suas míticas decadências. Aristóteles, sobre o mito, provavelmente estava certo; todavia, o fim do mundo pode ser a história lógica do seu erro.

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