Do niilismo ao ceticismo em um laboratório

Este Laboratório Filosófico chamava-se “Sensacioniilista” devido à intuição de não haver verdade ou sentido último algum a ser descoberto ou conhecido, princípio fundamental do niilismo. Porém, na vida deste “blog”, e nos muitos textos que iam sendo escritos, tornou-se claro que a visão desta filosofia acerca da verdade era outra: ela existe sim, só não é alcançável. Ora, a doutrina que afirma essa relação de incerteza absoluta em relação à verdade é o ceticismo. Portanto, é a partir da consciente impossibilidade de ter certeza acerca dos objetos aqui investigados que esta filosofia vem laborando. Entretanto, a que preço?

Caso esta filosofia tivesse permanecido niilista, ou seja, descrente de qualquer verdade e crente de que só há o nada (nihil, em latim), os seus produtos seriam, inescapavelmente, apenas invenções a partir do vazio. Desse ponto de vista, o resultado de todas as filosofias, bem como o de todas as ciências, seria, por conseguinte, nada além de quimeras com as quais o mundo é criado e preenchido. O lado positivo no niilismo é a extrema liberdade que ele abre à mente humana, porquanto não havendo verdade a ser encontrada, tampouco há erros espreitando-nos. Logo, a partir do nada inconteste tudo é obra; tudo é criação; todos somos artistas a inventar mundos.

Todavia, uma vez em terreno cético, esta filosofia é cônscia de uma verdade subjacente, porém inalcançável, em torno da qual centrifuga sem nunca tocá-la. No ceticismo os movimentos filosóficos e científicos permanecem sem conquistar a verdade, tal como no niilismo. Entretanto, para um cético, a verdade existe, só que como um objeto impossível, cuja indisponibilidade, não obstante, pode tanto desestimular qualquer investigação, tal como ocorreu ao cético Pirro, quanto ser uma mola propulsora no sentido de uma aproximação em relação à verdade. Apesar de as certezas absolutas permanecem alhures tanto no niilismo como no ceticismo, neste ao menos há a verdade, portanto um universo válido e verdadeiro.

As duas posturas filosóficas, contudo, padecem de contradição intrínseca. Ao afirmar que não há verdade alguma, o niilista afirma uma verdade pretensamente válida. Ora, como pode uma verdade existir àquele que diz que verdades não existem? Dessa forma, o niilista só pode sustentar-se afirmando nada, caso contrário será um dogmático de uma única verdade insustentável. Da mesma maneira o cético, ao dizer que as verdades existem, porém que elas são inacessíveis, confessa ter acesso a uma verdade no mesmo discurso que pressupõe a impossibilidade desse acesso. Por conseguinte, o ceticismo e o niilismo só podem ser se não colocarem os seus fundamentos, pois caso o façam, autodestruir-se-ão.

Podemos ver que há horizontes de impossibilidade tanto no niilismo como no ceticismo. Para fugir dessas contradições a opção imediata é ser dogmático, ou seja, tomar como verdade incontestável aquilo em que se acredita desde que o conteúdo dessa crença nunca seja questionado. O problema do dogmatismo é que ele é fundamentalista a ponto de sustentar as religiões e Papais-noéis; logo, pretere a verdade em prol da mentira que coloca em seu lugar. Uma filosofia que se preze deve fugir do dogmatismo assim como a sabedoria foge da ignorância, porquanto em relação à verdade, mais vale a sua inexistência niilista ou a sua inalcançabilidade cética que a presença dogmática de uma quimera intocável no seu lugar.

Caso exista a verdade, como pensam os céticos, ela é tão resistente quanto “o real”, ou seja, aquilo que sempre escapa, e sempre escapará, a todas tentativas de apreensão. Todos os investimentos contra o real fracassam, resultando nos distanciamentos em relação a ele chamados de realidades, isto é, versões pessoais cuja função sintomática é mentir um real provável sobre um impossível. Todavia, as realidades são a nossa forma de existir dentro do real, ainda que elas não sejam a verdade, mas apenas as nossas aproximações frustradas em relação a ele. Dessa forma, o ceticismo está para a verdade assim como as nossas realidades estão para o real: aqueles sempre aquém destes, porém relacionados em função de uma impossibilidade.

Mas se a verdade de fato não existir, como afirmam os niilistas, sequer o real existe, ou do contrário ele teria de ser falso. No entanto, o real falso não é outra coisa que o irreal, isto é, o que não existe verdadeiramente. O niilismo, ao forçar a barra para que só exista o nada, colateralmente impede a existência de qualquer coisa, inclusive a sua própria. Já a garantia cética da subjacência da verdade não nega chão à sua busca, ainda que não o revele. Logo, a migração desta filosofia desde o niilismo até o ceticismo foi do nada em direção a algo, ainda que esse algo esteja tão distante dela quanto prega o próprio ceticismo. De inventora, esta filosofia passou a errante. Porém, é errando que se acerta! E essa crença, apesar de dogmática, é o combustível mínimo ao atual ceticismo advindo neste laboratório.

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