Tempo fílmico. Tempo seriado.

Os quarenta minutos de um episódio ,dos muitos seriados que populam os nossos écrans residenciais, apropriam-se bem mais à pressa e à atribulação da vida contemporânea que as tradicionais duas horas de duração de um filme. Hoje, a demanda por consumo e por realização exige, histericamente, que façamos acontecer muito mais coisas em um par de horas do que apenas um único filme. O que significa, contudo, a redução do tempo dedicado ao lazer ficcional que pretere o tempo fílmico em benefício do tempo seriado?

Se “o cinema trata a Ideia à maneira de uma visitação ou de uma passagem”, como apontou Alain Badiou, nesse quesito os seriados o superam substancialmente, pois a ficção em série pressupõe, além da visita apontada pelo filósofo, a constante revisita, geralmente semanal, ao longo de meses e de anos até. Em vez da delongada relação com um filme que não obstante finda, no mais tardar, em duas horas, temos a frivolidade de uma relação seriada com a ficção, episodicamente reduzida e entregue em domicílio; todavia, ao preço de uma fidelidade em longo prazo. Badiou disse que, em relação ao cinema, “eis o homem doravante entregue ao capricho de um encontro”; porém, essa afirmação realiza-se maximamente na relação de reencontros que o homem tem com as suas séries.

O que, por conseguinte, encontramos no episódio de um seriado que não em um filme? Ora, no filme há um encontro com o desconhecido, por certo, porém único e fechado. Da mesma forma, no seriado há o encontro com o desconhecido, só que, além disso, há o reencontro com um universo já conhecido; e é isso que o seriado oferece mais que o filme. No entanto, se o seriado ganha do filme por oferecer simultaneamente um encontro e um reencontro, por outro lado o filme ganha por ser um encontro inédito, dado que no seriado tudo o que se dá a conhecer é sobremaneira predeterminado pelo já conhecido.

Os seriados, portanto, por mais que introduzam algo novo dentro da série, não escapam de certa imitação de si mesmos; enquanto o cinema, segundo Badiou, “é a arte menos mimética” de todas, justamente por não ter relação extrínseca fora o seu acontecimento. O ser do filme é absolutamente contemporâneo à sua exibição; já o do seriado é ao mesmo tempo contemporâneo e necessariamente extemporâneo à sua: deve ser, de uma só vez, um acontecimento inédito, uma subsequência do que já aconteceu e também algo que deverá “re-acontecer” para que se trate de uma série. A extemporaneidade e a abertura são essenciais aos seriados, porém, o seu calcanhar de Aquiles.

Na série norte-americana “The Newsroom”, da HBO, um fictício canal de notícias encaminhava-se à comprovação e à divulgação do uso de gás sarin em civis paquistaneses por parte da marinha americana. Naqueles mesmos dias de agosto de 2013, na “vida real”, a ONU denunciava a morte massiva de cidadãos sírios, nos arredores de Damasco, pelo uso do mesmo gás, de autoria ainda desconhecida. “The Newsroom” foi interrompida imediatamente, por três semanas. Quando retornou ao ar, aqueles jornalistas, e o editor chefe do canal de notícias, estavam sendo demitidos e processados, na ficção, pela falsificação de provas e de testemunhos acerca da marinha americana.

O que se vê a partir de “The Newsroom” é que os seriados, intercalando o curto tempo de suas exibições episódicas com sete dias de afastamento, e isso ao longo de meses, estão sujeitos às externalidades mais do que os filmes. Por mais que “Independence Day” fosse uma das pré-visualizações do ataque às Torres Gêmeas, o filme não poderia ser modificado ou interditado. Isso porque, conforme intuiu Badiou, “o filme já arranca o romanesco de si mesmo por uma antecipação teatral”. Já o seriado, inversamente, na prorrogação teatral que é, tende à ópera em cuja música coexistem os movimentos que levaram a ela, a sua atualidade e o fantasma do seu além. Nesse “gap” substancial dos seriados, portanto, podem ser incluídas, e até mesmo inventadas, quaisquer inconveniências.

Badiou disse que “falar de um filme é sempre falar de uma reminiscência”, ou seja, de uma memória. Já de um seriado, falar de memória não é tudo, pois os episódios vindouros são tão imemoriais quanto o futuro. Nas séries podemos nos dar ao luxo do esquecimento, pois elas sempre retrazem à tona o que é necessário que nos lembremos. Essa memória de que o seriado se utiliza, por conseguinte, é temporária, como a RAM dos computadores, ou seja, sem conteúdo cativo. Os filmes, por outro lado, apesar de também “performarem-se” por duas horas em modo RAM, repousam ditosamente no HD das nossas lembranças. No entanto, a obsolescência programada da contemporaneidade prioriza o temporário em detrimento do perene a partir da “maneira RAM” com que estamos nos colocamos diante do lazer ficcional.

De acordo com Claude Lévi-Strauss, “a repetição é essencial para a expressão simbólica [pois] coincide intuitivamente com seu objeto sem jamais confundir-se com ele”. Essa colocação do antropólogo parece fazer dos seriados uma fábrica simbólica bem mais potente que os filmes, dado que aqueles repetem-se muito mais do que estes. Essa “repetição”, parte fundamental dos seriados, contudo, reconduz-nos à obsolescência programada cujo propósito é fazer com que consumamos muitas vezes a mesma coisa, porém, como se ela fosse outra, diferente e com novas tonalidades a cada “reconsumo”. Apesar de ser o devir desconhecido da série que nos conduz ao episódio, é também um universo dado que nos reconduz a ele.

De certa forma, o que acontece em cada um dos episódios de uma série é completamente dispensável, aliás, é feito para que seja assim, porquanto o produto deve seguir sendo consumido mesmo na falta de uma de suas partes. Oposto a isso, o filme guarda uma essencialidade inalienável em cada uma de suas partes, podendo ser ontologicamente visto enquanto o “ser” se comparado ao necessário “devir” do seriado. As partes do filme são absolutamente necessárias a ele, já as do seriado, não. Logo, ao migrarmos do tempo fílmico ao tempo seriado passamos a habitar em um solo constituído de frívolas efemeridades. Os seriados de que mais gostamos são-nos gostáveis por algo nada específico, isto é, por um gostar que se relaciona superficial e descompromissadamente com o seu objeto.

A força de um filme, para Badiou, está justamente em “imaginar, no intervalo de tempo de uma passagem, a impureza de qualquer ideia”. A partir dessa colocação podemos inferir que, no filme, as impurezas da sua ideia são extrínsecas a ele; e mais, intrínsecas a quem o assiste, ou seja, àquele que emenda subjetivamente as suas passagens. O ser do filme, apesar de espraiar-se em duas horas de pleno devir, não se corrompe por este, nem pelo espaço que abre entre as suas passagens a toda sorte de imaginação. No seriado, os “intervalos de tempos de uma passagem” funcionam, por um lado, como os de um filme, porém, por outro, o modo intervalar de seu devir episódico guarda não alguma impureza substancial a ser imaginada, mas a pura essência do espirito do seriado. É como se a pureza do seriado estivesse na sua natureza intervalar, onde nada há a ser imaginado; e a sua impureza, ao contrário, no acidente que cada episódio é em relação ao o corpo maior da trama.

Sendo assim, no filme, os impuros somos nós, e não ele; e no seriado, o impuro é ele mesmo, não nós. O despojamento oferecido pelos quarenta minutos seriados, contraposto ao engajamento com as duas horas fílmicas, serve melhor à fluidez atribulada da contemporaneidade. Todavia, “a duração fílmica […] é a visitação de uma imobilidade subjetiva”, diz Badiou, sugerindo para que pensemos as ficções não como “lugares objetivos” a serem visitados, por determinado período de tempo, mas enquanto a viagem ao intrinsecamente subjetivo em nós, ao extemporâneo, àquilo que permanece imóvel mesmo na velocidade contemporânea, qual seja, a vontade de escapar da realidade ficção-adentro.

Anúncios

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s