A técnica em Heráclito e a ciência em Parmênides a partir de Aristóteles.

Diferente dos demais animais, o homem cria as condições de sua própria existência através de uma técnica manipulatória sobre natureza. A clareira humana aberta vitoriosamente em meio à “Physis” chamou-se “nomos”, ser cujos atributos essenciais são o próprio homem, a sua capacidade de modificar a natureza, e a natureza modificada por ele. Conquanto dispusesse ativamente das técnicas necessárias à sobrevivência, bem como da capacidade praticá-las, o homem habitaria o “nomos”; seria ele mesmo a “norma”.

Todavia, o “nomos”, laicizado, reificado e relativizado na “polis”, cindiu-se internamente aos moldes da cisão que outrora ele mesmo significou em relação à “Physis”. Praticar a “técnica da sobrevivência”, paradoxalmente, passou a representar certa baixeza, tal qual a do animal sobrevivendo em meio às contingências da natureza. A partir dessa sofisticada percepção, a superioridade humana passou a residir não mais na capacidade técnica de consumir a chama da sabedoria roubada de Zeus, mas na contemplação científica que preserva-lhe eternamente o ser.

A ciência representava uma dupla vitória do homem: sobre a natureza e sobre o próprio “nomos”. Ao sobrelevar-se teoricamente em relação à sobrelevação técnica que o sacou da nudez primordial, o homem experimenta, inteligivelmente, o distanciamento máximo em relação à “Physis”; e parcial em relação ao “nomos”. A teoria igualou os homens aos seus deuses, ou seja, àqueles que sabem e podem contemplar o eterno e o perfeito a despeito absoluto de qualquer imperfeição ou contingência. Entrementes, longe de ser a devolução da chama furtada de Zeus à esfera divina, a teoria é, antes, o modo humano de não consumi-la contingentemente e de redimir-se de sua manipulação vitoriosa sobre a natureza.

A diferença entre técnica e teoria foi cientificamente estabelecida por Aristóteles. Para ele, a técnica tem como objeto essencial o contingente e o transitório, ou seja, aquilo que não é, mas que deve ser de determinado modo para atender aos vis fins humanos. Já a teoria, segundo o filósofo, volta-se exclusiva e substancialmente ao que é, ao que sempre foi e sempre será, pela necessidade intrínseca de ser. Segundo Aristóteles, o objeto da ciência é mais elevado porquanto eterno e universalmente válido, enquanto o da técnica é mais baixo porque em função do particular, do transitório e do contingentemente humano.

É possível relacionar a categorização aristotélica com o pensamento de dois pensadores pré-socráticos: Heráclito de Éfeso e Parmênides de Eleia. Heráclito filosofou no sentido de evidencia o devir constituinte da realidade, afirmando que tudo é movimento e fluxo constante, sendo seu “ser” o devir “devindo-se” eternamente. Já Parmênides afirma o contrário, que só há o “ser”, que ele é Uno, imutável e eterno, e qualquer particularização sua e é apenas um erro, uma “doxa”, isto é, uma falta de ciência acerca dele. Logo, contrapondo os conceitos de técnica e ciência aristotélicos às teorias do efésio e do eleata, podemos ver que a técnica, em sua móvel contingência essencial, tem como objeto o devir heraclíteo cujo ser permanece alhures e eternamente inconcluso; e a ciência, na sua contemplação da substancial verdade imóvel, trata, na realidade, do ser parmenídico, ou seja, daquilo que é; que sempre foi e sempre será; do que é estático porque perfeito.

Heráclito, ao dizer que o ser é o devir, ou seja, que só há o movimento, nega a possibilidade de uma ciência aos moldes da descrita por Aristóteles, visto que, para aquele, não há o eterno a ser contemplado em imobilidade alguma. Ainda que o efésio afirme a existência de um ser – qual seja, o devir – este não pode ser tomado contemplativamente porquanto apenas um espectro impossível do que de fato se dá à contemplação, isto é, a eterna mudança. Se em Heráclito a ciência aristotélica é carente de objeto, através do pensador adentramos na agitada oficina do devir, cujo produto técnico é o universo em mutação.

Contrariado, Parmênides afirma que só há o uno, o eterno e o imóvel. O eleata, portanto, faz do universo inteiro “o” objeto da ciência aristotélica. Pois se há apenas o ser, conquanto para o pensador de Eléia qualquer transitoriedade e mobilidade é já um erro, só há lugar para a ciência. De acordo com “telos” universal pressuposto pelo eleata a técnica aristotélica é imprópria e desnecessária, visto que atada ao particular e ao transitório. Por outro lado, a imobilidade e a eternidade do ser parmenídico é a antevisão daquilo que Aristóteles apropriou categoricamente como o objeto essencial da teoria e da ciência.

O homem iniciou nu a sua jornada na natureza. Em seguida “tecnicizou-se”, vestindo-se “poiética” e culturalmente com o linho do “nomos”. Então, com a ajuda de Aristóteles, despiu-se dessa toga técnica para melhor contemplá-la, livre e teoricamente, fazendo dela um objeto científico livre de contingências. A sobrelevação aristotélica do modo teórico-científico em relação ao pratico-técnico, longe de alienar materialmente o homem da “Physis”, foi, contudo, a forma intelectual dessa alienação. Fugindo da caótica natureza, passando pela oficina técnica do devir heraclíteo, e finalmente repousando no macroscópico e eterno ser científico parmenídico, o homem, por conseguinte, busca uma redenção em relação ao logro prometeico que, de partida, legou à humanidade uma dívida insanável para com Zeus.

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