Linguagem dessentida

Você começou lendo uma letra capital que, somada a outras três, formou a primeira palavra desta frase, que está em pleno andamento, entretanto, findando no seu ponto final. Agora outra frase inicia-se depois daquela, afinal, é exatamente assim que um texto toma corpo. Porém, já na terceira, mais longa e última frase “desta introdução” – justamente onde deveria esclarecer-se o propósito que se desenrolará no texto abaixo – apenas a narrativa desse evento linguístico preenche “estas linhas”, a despeito de algo acerca do qual você deve estar se perguntando agora, qual seja: afinal, qual sentido disso?

Ora, o sentido é a substância da linguagem, ou seja, a única coisa sem a qual ela não é o que é. Portanto, por mais que este texto se esforce em escapar da proposição de um sentido, sucumbe a cada instante precisamente pelo fato de ser linguagem. Você mesmo deve estar à procura de um sentido que dê sentido a esta leitura, não é mesmo? Todavia, o escopo aqui é o de desafiar a linguagem no sentido da sua necessidade de sentido. Para tanto, a frase que concluirá este bloco de texto será propositalmente “nonsense”: é inacreditável que Aécio Neves receba demasiada cobertura da Rede Globo!

“Este texto” intenta fugir do seu próprio sentido como que para observá-lo melhor à distância, não obstante sendo alcançado por ele a cada instante. Por conseguinte, é no sentido de uma distância especulativa entre o necessário sentido “deste texto”, que, aliás, já deveria estar “por aqui”, mas que permanece algures, sendo a sua evidência possível apenas “a partir daqui”, que estas letras e palavras dessentidas mantêm “esta arena linguística” esvaziada. Na verdade, o sentido está sendo empurrado para longe, a contragosto da própria linguagem, a fim de que, instigado, revolte-se e exploda em assalto, pois é essa a sua natureza, inclusive nas expressões mais tautológicas.

Juntamos algumas letras, conectamos um punhado de palavras e, de repente, boom: um sentido. Há uma distância, uma temporalidade imanente nesse processo, sempre. Ainda que se espere certa imediatez de sentido em um texto filosófico ou jornalístico, por exemplo; ou no caso da poesia, onde o sentido é mais livre para aterrissar quando bem entender na pista das belas palavras sob as quais se esgueira; o sentido, ele mesmo, chega apenas no final. Sua natureza é o fim de outra, como se o sentido fosse um Ser, essencial e novo, a dispensar a instrumentalidade linguística através da qual deveio.

Depois de captado o sentido, só ele é; e inclusive as palavras e as frases que o devieram, tomadas separadamente, passam a mostrar algo de contraditório em relação a ele. Tomemos o universo de sentidos possível da própria palavra “sentido”: um que é aqui, subliminarmente, ainda que parcialmente misterioso, dado que “esta ideia” ainda não terminou de colocar-se; outro sentido que se pluraliza em cinco, quais sejam: visão, tato, olfato, audição e paladar; ou ainda aquela posição militar diante dos superiores hierárquicos.

Os livres sentidos da palavra “sentido” são a sua potencia até que um sentido geral seja oficialmente outorgado à frase ou ao texto de origem. O sentido, portanto, é um ato; um fato; uma obra-prima que, para ser contemplada, deve necessariamente dispensar o laborioso artesanato através do qual ascendeu ao mundo. Nesse sentido, o sentido sugere-se como algo primeiro, arcaico, fruto de uma arqueologia sob as camadas e mais camadas de palavras e frases que o ocultam. Todavia, é como imaginar que o Davi de Michelangelo já estivesse aguardando impacientemente pela posteridade gloriosa dentro do bloco de mármore.

O que ocorre é que o sentido, ao colocar os pés no pensamento, agiganta-se sobremaneira, sendo maior que tudo porquanto no lugar de tudo que o trouxe à tona. Por esse motivo é que o sentido foi preterido “neste texto”, pois ele não tardará em ser o senhor absoluto “destas palavras aqui”, que, em breves instantes, serão escravas abstratas suas. Apenas enquanto “este texto” não se conclui é que “esta frase” pode gozar de alguma liberdade dentro da experiência linguística que se encerrará no parágrafo abaixo.

Paradoxalmente, ao pretender fugir do sentido através da linguagem, “este texto” esteve preso a ele, não obstante iluminando-o enquanto conceito para escurecê-lo, temporariamente, em sua subsistência linguística inerente. Um sentido oficial está inevitável e subversivamente assenhorando-se “nesta antepenúltima linha do texto”. Diante do derradeiro, a estratégia das palavras contra o assenhoramento do sentido é a de permanecerem “nonsense” até o fim. Por isso, “nesta última frase”, é um absurdo que, às quatorze horas e dez minutos do dia quatorze de outubro de dois mil e quatorze, a avenida Nossa Senhora de Copacabana já esteja congestionada!

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