“Grande Outro” laboratorial

Quem adentra voluntariamente em um livro de filosofia já é, de certa forma, algo filosófico, ainda que em sua forma negativa, ou seja, em sua carência. Propor-se à leitura de um filósofo é colocar-se nessa relação através de um acorde de sentidos que harmoniza as disparidades que “po-pulam” no mundo. Já aquele que, de repente, é interpelado pela filosofia tem mais motivos para questionar o seu cabimento. A filosofia, portanto, encontra seu desafio máximo diante dos que não a querem, dos que não a buscam nem lhe atribuem propósito.

Tomemos, então, como o atalho filosófico máximo a leitura de um filósofo por outro; e como desvio absoluto, ainda que pareça absurdo, o não-filósofo que não é lido pelos outros não-filósofos. Todavia, desta última relação poderia sobrevir alguma filosofia? Nesta incerta experiência este “blog” encontra o seu propósito, pois, aqui, um não-filósofo – ainda que filosofando – busca fazer dos múltiplos seres da vida objetos a serem revistos, filosoficamente, em suas efemeridades perenes; e isso justamente em uma plataforma imediatamente superficial não-filosófica.

Filosofando no Facebook a impropriedade possível da minha filosofia confronta-se não com a rigidez acadêmica necessária aos verdadeiros filósofos, o que a acachaparia, mas com a impropriedade própria do meio na qual ela se propõe; pois, talvez, esta filosofia seja própria, no mais das vezes, justamente pelo fato de não ser lida por ninguém. Entretanto, mesmo que não seja lida por filósofos nem por não-filósofos, todos estes são o “grande Outro” abstrato para quem “essa filosofia” se escreve.

Lacan cunhou o conceito “grande Outro” para abarcar, teoricamente, tudo aquilo que não o indivíduo que o determina sobremaneira. Para o psicanalista, o país desse “Outro” tem suas fronteiras na Cultura e no discurso familiar, e cuja população são os entes da linguagem e os seus desdobramentos; porquanto a linguagem tanto nos antecede através do nome próprio que recebemos do mundo, quanto nos sucede nas percepções que imediatamente receberemos desse, ou expressaremos a esse mesmo mundo.

O “grande Outro”, a princípio, apresenta-se coercitivamente determinante, e a própria advertência wittgensteiniana de que “os limites da minha linguagem são os limites do meu mundo” corrobora com essa asfixiante determinação. Porém, esse “Outro” capital pode – e deve – ser encarado de outras formas. Se para Aristóteles “o ser se diz de várias maneiras”, o ser do “grande Outro” também deve, necessariamente, colocar-se de vários modos, inclusive uns que contradigam esse primeiro escopo condicionante.

Por conseguinte, no extremo oposto da limitação linguística wittgensteiniana está a absoluta liberdade que, não obstante, só a linguagem concede, dado que só através dela eu posso dizer desse “grande Outro” os desbarates que bem desejar. O “grande Outro”, portanto, é ao mesmo tempo um buraco-negro cuja gravidade dispõem em torno de si o mundo todo para melhor engoli-lo, como também um tabu eficiente no sentido de interditar o mundo que nos afronta, gerando assim um espaço sagrado, livre do pecado, no qual o “pequeno Eu” encontra liberdade e propriedade.

Então, enquanto eu digito “estas palavras”, esse “grande Outro” – encarnado por você que lê “isso aqui” – está, abstrata e instrumentalmente, apropriando-as. Todavia, não no sentido de que elas sejam apropriadas especificamente a você, pois, caso isso fosse tentado, fatalmente essa filosofia erraria o alvo. O que o “grande Outro” deste Laboratório Filosófico na verdade produz – ao colocar-se imediatamente atrás da minha nuca – é fazer com que esta filosofia não se dirija a alguém determinado nem a todas as pessoas, mas aos acidentes de leitura que decorrem do acidente que esta leitura mesma já é.

Logo, se você está lendo “estas palavras”, é tanto o “grande Outro” abstrato da vez quanto a máxima aproximação em relação ao “pequeno Eu” concreto que busca a sua validade universal. É precisamente por eu não saber quem você é; nem quando ou onde você lê esta filosofia; ainda que você não a leia; que “esta filosofia” é desta forma. Ou seja, é baseado na indeterminação máxima acerca de quem por ventura adentre nesse Laboratório Filosófico que ele se autodetermina.

O fato de “isto” não estar sendo escrito especificamente para você, persistente e generoso leitor, é o mesmo motivo que faz “disto” outra coisa que não uma carta pessoal. E, conquanto este texto não seja o meu diário, tampouco se dirige, ou serve só a mim. Estariam “estas letras” fatidicamente órfãs por destinarem-se não a mim nem a você, especificamente, mas a um interstício impessoal e universal propositalmente fantasiado de um tal “grande Outro” absolutamente abstrato? Eu permaneço aqui, concretamente, portanto, ao menos, há um pai solteiro. Você leu “isto aqui”? Se sim, somos dois; por conseguinte, muito brigado.

Se somos dois aqui, eu e você, isto é, o que escreve e o que lê, e se isto está funcionando conforme esperado, juntos damos concretude à abstração desse “grande Outro” que primeiramente possibilitou a este “pequeno Eu” estender o braço em direção ao “pequeno Eu” que é você. Revolucionamos assim, aqui e agora, o conceito lacaniano, pois o “grande Outro” do psicanalista se diz em um único, vertical e inescapável sentido. Por conseguinte, se você lê “estas três palavras”, e concorda com elas, apesar delas três nada dizerem de específico, somos nós que determinamos e limitamos o “grande Outro” que, entretanto, deveria nos condicionar e limitar.

Aceitando que o ser se diz conforme Aristóteles, isto é, de várias maneiras, o ser do “grande Outro” também deve ser múltiplo. Não por ser constituído de múltiplas partes, mas pelo fato de poder ser tomado de tantas “maneiras” quantas forem as suas partes. Por consequência, o “grande Outro” que autoriza este laboratório é, decididamente, ao mesmo tempo eu, você, nós dois, nenhum de nós, todos os outros, e inclusive ninguém. Caso se endereçasse especificamente, essa pretensa filosofia deveria jogar no lixo as suas próprias pretensões, porquanto esquecida da universalidade pressuposta à própria Filosofia.

Então, o “grande Outro”, para não ser tão culturalmente condicionante como queria Lacan, nem tão linguisticamente delimitante como sugeria Wittgenstein, deve ser colocado a serviço, vez ou outra, do “pequeno Eu” escravo seu. Neste Laboratório Filosófico o “grande Outro” trabalha junto deste “pequeno Eu” que filosofa. Porém, não no sentido de restringi-lo verticalmente, mas na medida em que sussurra advertências extremas, tais como: “Isso é demasiadamente pessoal” ou “Isso é impalpavelmente genérico”. À frente desse funcional e abstrato “Outro” coloca-se o concreto “Eu” a quem pertence o absoluto poder do “sim” sobre todas as palavras e ideias que se aventuram filosóficas neste laboratório.

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