Represente o Estado!

Aristóteles dizia ser a qualidade do Estado a qualidade do estado individual de cada um dos seus cidadãos. A nossa visão atual de Estado vai à contramão da do filósofo, pois, hoje, exigimos primeiramente do Estado que ele tenha as qualidades de que seus indivíduos carecem para, posteriormente, agraciá-los com o que os falta. É como se os grãos exigissem do castelo-de-areia a condição de suas existências enquanto grãos. Todavia, abstraindo a forma do “castelo”, há somente os grãos eles mesmos; e, por conseguinte, abstraindo essa coisa chamada de Estado, há somente pessoas em suas qualidades individuais.

O Estado é menos isso de grande que vemos sobre todos e mais o chão imediato pisoteado por todos. No ônibus, o Estado é o condutor; no hospital, o médico; na escola, o professor; na estrada, o motorista; e por aí vai. Para o cego que deseja atravessar a rua, a qualidade do Estado é a ajuda que ele recebe ou não dos que estão imediatamente à sua volta. Portanto, a qualidade do Estado é, sobremaneira, a qualidades das nossas ações dentro dele, muito menos que o inverso disso.

Entretanto, fazemos do Estado a tela na qual projetamos tanto os nossos desejos quanto a nossa incapacidade de atendê-los e, inclusive, a responsabilidade por tais desejos desatendidos. Psicanaliticamente, os conceitos de “transferência” e “projeção” dizem respeito ao transferir a outro aquilo de si de que o sujeito deseja alienar-se. Logo, o cidadão, ao projetar no Estado a responsabilidade pela sua ventura individual, não faz outra coisa que covardemente exigir que outrem seja e faça aquilo que ele mesmo não consegue ser nem fazer.

O preço de uma projeção, ou seja, o seu sintoma, contudo, é a não revolução da situação do sujeito projetor, pois, uma vez suas questões alhures, não está mais ao seu alcance resolvê-las. Da mesma forma, ao esperar que o Estado resolva as necessidades nascidas no indivíduo, este se aliena do controle de si próprio. Doravante há a sobrelevação do sujeito cidadão e dos seus desejos insatisfeitos em relação a um Estado necessariamente insatisfatório, pois enquanto os grãos não se bastarem a si mesmos, tampouco o castelo de areia o fará. Resta, por fim, a perversa representação de um Estado absolutamente responsável pelo destino dos seus cidadãos.

Hoje, o Brasil está dividido entre dois presidenciáveis, e essa divisão reforça justamente o caráter representativo da nossa democracia tão criticado pelas ruas manifestantes do histórico junho retrasado. Os gritos de “ninguém me representa” que ecoaram através daquelas nuvens lacrimogêneas encontram seu devir derradeiro no crédito que os cidadãos recolocam nos seus candidatos escolhidos, nos pretensos futuros representantes.

Porém, antes de dizer que, a contragosto, somos obrigados a ser representados, há de se aventar a hipótese de que, imediatamente, sermos nós os que mais precisam da representatividade que tanto criticamos. Sequer enxergamos o Estado como a obra imediata da qualidade dos seus cidadãos; logo, não assumimos a responsabilidade por ele. Assim, o Estado permanece sintomaticamente representado como o responsável-mor pela bem-aventurança de suas partes conquanto elas permaneçam alienadas das responsabilidades que são suas.

No final das contas, o jogo político brasileiro segue como o empurra-empurra no qual a regra egoísta é algo do tipo: você, Estado, é o responsável pela nossa felicidade; ou, você, Estado, é o responsável pela nossa miséria. O que faríamos se não tivéssemos uma instituição a quem atribuir a responsabilidade pela nossa condição? Acabaríamos tendo de responsabilizarmo-nos por isso. Entretanto, desse modo, seríamos nós os corruptos, os mal-investidores, os que criam e mantém a desigualdade, etc.

Teríamos culhão para tal? Certamente não, visto que estamos nos digladiando em torno de um novo representante pelo Brasil. Seja a Dilma ou o Aécio, um dos dois representará e será responsável pelas venturas de cada um dos duzentos milhões de brasileiros. Chega a ser injusto, porquanto nenhum deles dará conta de fazer um país de qualidade melhor que as qualidades de suas partes. Entrementes, a pertinência da representatividade encontra seu ser na possibilidade de sempre responsabilizarmos alguém que não nós mesmos pelos acidentes de percurso que somos.

Enquanto não vestirmos o Estado na sua imediatez, isto é, no evento essencialmente contemporâneo que ele é através de nós todos, precisaremos de representantes que o vista. Diante da sobrevivente representatividade, o alardeado “ninguém me representa” do junho histórico parece menos um grito revolucionário desejoso do fim da representatividade e mais um lamento reacionário que, para assumir-se propriamente, deveria ser dado da seguinte forma: “ninguém me representa, por quê?”; ou, “represente-me já! Preciso de alguém em quem projetar a minha incapacidade de fazer um país melhor”.

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