Uma semínima no desacorde político

Na segunda-feira pós primeiro turno das eleições, afirmei, jocosamente, que eu estava sofrendo de “depressão pós-voto” diante do resultado das urnas. Engolindo a seco os Bolsonaros, Alckmins e Romários, dado que vontades de maiorias, portanto, legítimos; e entaladas na garganta as opções fluminenses ao governo do estado, a saber, Pezão e Crivella – O.M.G.! -, voltei-me para o único horizonte no qual residia ainda alguma possibilidade menos funesta: a disputa presidencial entre Dilma e Aécio.

Minha tendência política forçou-me, inicialmente, a ver as opções presidenciáveis através de uma lente maniqueísta, infelizmente, sendo-me uma opção boa e a outra má. Lancei-me à defesa da minha escolha, tentando fazer com que os meus interlocutores peessedebistas vissem a histórica performance oligárquica do partido pelo qual optaram e, ao mesmo tempo, dizendo-os dos benefícios trazidos à “terra brasilis” pelos doze anos de governo petista.

Porém, depois de três dias de troca de dados com os meus adversários concidadãos – que no final das contas era um embate de crenças -, comigo colocando os desfeitos peessedebistas e os feitos petistas contra aqueles que votarão no Aécio e, democraticamente, dando ouvidos aos discursos avessos ao meu, não obstante plenos de desfeitos petistas e feitos peessedebistas dignos de nota, cheguei a um empasse frustrante: não adiantava debater. Pois, nem eu nem eles, por mais dados que trocássemos, arredávamos o pé das nossas escolhas; inclusive agarrando-nos, eu e eles, cada vez mais às nossas ideias à medida que éramos confrontados com suas opostas.

Cheguei ao meu limite retórico quando um parente que teve a sua empresa, travada nos anos FHC, exitosamente expandida no governo Lula-Dilma, sendo ele, hoje, rico, sustentando o seu “Fora PT”. As minhas contrapartidas argumentativas eram-lhe combustíveis, a ponto de eu perceber que, quanto menos lhe opusesse, menos aguerrido ao “Fora PT” ele estaria. Cheguei à conclusão de que a melhor coisa a ser feita, nesse e em outros casos similares, era deixar os meus oponentes silenciosamente com suas verdades; e eu, por conseguinte, com as minhas; pois a tentativa de equilibrar tais verdades apenas as polarizava mais.

Metodicamente deprimi meu ímpeto repressor e, deixando de exprimir as minhas verdades contra às dos outros, encarnei a impossibilidade retórica de conciliar tal oposição. Ademais, a tentativa de harmonizá-los acabava por gerar um contraste cada vez mais irremediável. Portanto, hoje, o meu esforço é o de colocar as minhas convicções pessoais e as dos meus oponentes a digladiarem-se não em arena pública, mas no solipsismo do grão cidadão que eu sou. Assim, internalizando a guerra que estava travando externamente, intento diminuir tanto os radicalismos em torno das minhas convicções quanto os dos outros em função das suas.

Silenciar o alarde das minhas ideias é modo mais eficiente para visualizar a sua condizência com a realidade – melhor do que repetidas histericamente diante do espelho invertido dos interlocutores oponentes. Da mesma forma, creio ser o silêncio dos meus oponentes o melhor lugar para eles estarem a sós com as suas convicções. De fato, eles merecem ter o governo que desejam, pois, assim, não só conjecturariam acerca de suas verdades como as viveriam na carne.

Melhor do que adverte-los acerca de um novo governo do PSDB, porquanto tanto a verdade quanto a previsão do futuro me escapam definitivamente, é possibilitá-los à realidade que desejam e defendem, pois, talvez, em quatro anos poderiam concordar comigo. Inversamente, não posso deixar de assumir que eu precisaria viver os quatro anos de seguimento petista que defendo para recolocar-me diante dos meus oponentes com a propriedade à qual me aferro no presente.

Entretanto, mesmo intuindo que a melhor coisa aos peessedebistas seria viverem o seu PSDB até percebê-lo da mesma forma que eu o percebo, o silêncio é o máximo que posso oferecer-lhes. Já a voz do meu desejo, a ser politicamente expressa no meu voto, encaminha-me, inalienavelmente, a uma experiência oposta, porém, de mesmo caráter, em cuja conclusão futura reside a verdade das ideias presentemente sustentadas tanto pelos petistas quanto pelos peessedebistas.

Os dois lados dessa disputa adorariam ser os donos da verdade, por conseguinte do futuro. Por isso, impertinentemente, tentam antecipá-los retoricamente – e só retoricamente isso é possível –, já que no diálogo toda previsão cai por terra, reforçando apenas as contradições intransponíveis da realidade. Dizer que “o futuro à Deus pertence” é a forma macia de dizer que o futuro não pertence a nenhum indivíduo, nem mesmo à maioria, mas a todos – Teos.

Todavia, o futuro estará disponível não agora, no calor do debate que o antecipa ansiosa e preventivamente, mas adiante disso tudo, onde todas as crenças atuais terão se tornado verdades incontestes. O que permanece paradoxal nessa afirmação é que mesmo os fatos incontestes tornam-se as alavancas de suas próprias contestações, como exemplo do meu parente que diz “Fora” à situação que viabilizou a sua fortuna pessoal.

A política é o campo genuíno para as realidades confrontam-se contemporânea e contraditoriamente. Porém, esse ringue político só será saudável se houver um treino prévio na solitária consciência do indivíduo cidadão. Sobremaneira, é nesta esfera individual que as questões políticas precisam ser primeiramente resolvidas, pois, somente depois de entendidas as contradições do indivíduo consigo mesmo é que as demais contradições, sejam elas entre eu e você ou entra a maioria a e a minoria, é que saberemos encená-las proficuamente na arena público-política.

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