A sempiterna pertinência da esquerda

O debate em termos de esquerda e direita tornou-se abstrato para polarizar uma dialética política produtiva no nosso país. Contudo, isso não quer dizer que não existam mais. A tradicional esquerda, para figurar no cenário nacional, e intervi-lo, teve de deixar o seu radicalismo em suspensão, migrando funcionalmente em direção ao centro, ao preço de confundir-se com ele. Por isso fica difícil pensar em “esquerda” e “situação” ao mesmo tempo.

Antes de dizer que se trata de falta de caráter esquerdista, pensemos um pouco. Por acaso, há 13 anos, não era alardeado nacionalmente o fantasma de que a esquerda de Lula, quando no comando do país, daria o “calote na dívida externa”, envergonhando e comprometendo o Brasil diante do monetarismo internacional? Caso a esquerda tivesse correspondido a essa expectativa, seria a velha e tradicional esquerda que queriam fazer-nos acreditar. Porém, o que há de menos revolucionário e menos de esquerda que respeitar e suster a tradição?

Ao transcender os estigmas radicais através dos quais era vista, a esquerda petista não só tornou-se mais adequada à realidade brasileira como, surpreendentemente, foi ela que pagou, finalmente, a dívida externa! Isso sim foi revolucionário, pois o a tradição até então era de aumentá-la! O preço dessa pertinência histórica foi um desbotamento do vermelho radical da esquerda, mas não só isso, pois a abertura da esquerda petista também resolveu o problema da fome, da educação, do desemprego e da economia que, esperneiem-se em os opositores, vai muito bem obrigado em um cenário econômico internacional instável e “crísico”.

No entanto, a movimentação “à direita” que a esquerda possibilitou-se foi acompanhada por uma polarização ainda mais acentuada da direita, como se esta quisesse manter a distância de sempre em relação ao pensamento oposto ao seu. O resultado é que a direita polarizou-se à direita de si mesma a ponto de, hoje, ser confundida com o fundamentalismo religioso; evangélico, diga-se de passagem. Isso para dizer que o abismo entre direita e esquerda não desapareceu, apenas migrou, todo ele, um tanto à direita.

Há sim direita e de esquerda no nosso país: aquela governando no sentido de colocar o povo na manutenção do grande capital “oligo-nômico”, enquanto a esquerda luta para inverter o quadro, pondo o capital – sem estigmatizá-lo, e isso é revolucionário tratando-se de esquerda – a serviço do povo, que é o verdadeiro laborador dessa riqueza. Haverá esquerda e direita enquanto houver gentes com privilégios e outras gentes desprivilegiadas. Enquanto houver um Sarney ou um Maluf vivo na face desse país haverá necessidade de uma esquerda para lhe fazer frente. Caso contrário, oligarquias como as maranhense e a paulista farão, sordidamente, todas as frentes.

Outra dialética que perdeu força nos últimos doze anos foi a entre ricos e pobres, mas isso devido à migração de ambos no sentido da riqueza, visto que, hoje, os outrora pobres também viajam, entram na universidade pública, possuem “mais médicos” e compartilham das mesmas tecnologias que, antes, eram privilégios apenas dos ricos. Talvez por isso a direita tenha se polarizado tanto à sua própria direita, pois o que a constitui e sustenta é nada mais que a artificial distância que a separa dos desprivilegiados. Dessa forma, a direita ainda é a manutenção da desigualdade, pois é esta a justificadora do seu ser.

Em tempos em que direita e esquerda, e ricos e pobres, não são os melhores opostos em um diálogo profícuo, pois atual e temporariamente abstraídos – e isso devido às mudanças concretas dos velhos parâmetros -, o embate se polariza em torno de partidos políticos. É como se os extensivos conceitos de esquerda e direita tivessem de adequarem-se às estreitas fronteiras partidárias, e não mais o contrário, onde os partidos se colocavam majestosamente ou no continente da direita ou no da esquerda.

Hoje, precisamente, há o PT e PSDB, e ambos têm de dar conta de ser “toda” a esquerda e “toda” a direita, respectivamente, de uma só vez. Tarefa menos ingrata à esquerda do que à direita, por certo! Resta-nos, portanto, um devir maniqueísta no diálogo político nacional, onde os partidos devem ser ou bons ou maus; predicados que, em verdade, subsistem em cada um deles. Não é difícil listar as venturas e desventuras tanto da direita como da esquerda. Aliás, é o pacote contraditório de predicações que cada indivíduo agrega a cada uma delas que o faz “de esquerda” ou “de direita”.

Entretanto, se a direita e a esquerda são o que as pessoas pensam e fazem delas, o valor e a pertinência de cada uma residem, democraticamente, no valor defendido pela maioria. E, no caso do Brasil, a maioria não é de ricos, mas daqueles que precisam ao menos de uma fatia dessa riqueza pessimamente dividida. Sendo assim, a necessidade de quebrar o modo oligárquico de Estado é imperiosa, pois ele não existe em favor da maioria. Quanto a isso, não há direita que se adeque à realidade atual. Por conseguinte, não há caminho que não em direção à esquerda que nos afastaste da persistente desigualdade que logra a maioria.

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