Depressão pós-voto

Como se não bastasse o estigma de uma segunda-feira, hoje é o dia em que vários crápulas oligarcas corruptos comemoram a ignorância manipulável da plebe que os sustenta. Alckmins, Bolsonaros, Felicianos, Lasieres, e tantos outros políticos impossíveis, porém politicamente possibilitados, foram reconduzidos à manutenção de suas aristocracias à custa do vilipêndio da população.

Em três semanas essa elite escrota galgará novamente mais poder, fazendo com que o futuro do Brasil seja, novamente, o seu passado mais injusto. Já podemos visualizar a necessária taxação dos riquíssimos, a liberdade para casar e fazer família com quem quer que se ame, e o foco nas necessidades básicas do povo esfacelar-se diante do podre poder que impertinentemente é retransformado em Estado.

Eu sou um dos que se sentem deprimidos pelo real funcionamento $i$tema, um utopista frustrado por acreditar que o destino imediato do Brasil seria um tiquinho melhor do que o seu passado não menos imediato. Porém, o nosso Estado está mais uma vez alienando-se das necessidades reais do povo em cuja assistência deveria estar a centralidade nevrálgica do poder distribuído nas urnas. Ainda mais sendo esse disputado e concreto poder algo laborado por cada grão cidadão, na injusta fábrica brasileira que, entrementes, acaba capitalizado nas mãos de meia-dúzia de super-ricos oligarcas.

Não me sinto deprimido pela realidade das minhas ideias ser diversa da ideia de realidade da maioria da população, mas por ser, de carne, osso e ideias, parte desse corpo sócio-político que privilegia mais o Estado dos ricos do que o próprio estado – desprivilegiado – desse corpo. CARALHO! Eu sou o povo brasileiro, e nós seguimos, todos juntos, errando feio. O que povo brasileiro produziu ontem nas urnas, novamente, foi uma mercadoria que não será consumida por ele, mas estocada na dispensa burguesa dos riquíssimos PSDB, PMDB, PR, PSC, PRB, etc.

Não acredito que o povo brasileiro seja “kamikaze”, ou pelo menos não conscientemente, porquanto todos querem e precisam alimentar-se, estudar, ter saúde, lazer, e uma pá de coisas concretas que sobrevivem imperiosamente em cada um de nós. Todavia, nas parcas oportunidades de agir nesse sentido, a população elege aqueles que já têm em demasia aquilo de que ela, a população mesma, tanto necessita. Será que escapa totalmente ao povo brasileiro que as oligarquias estão aí somente em função delas mesmas, ou esse povo é tão escroto quanto elas, sendo o seu real desejo o de, talvez um dia, com uma sorte improvável, ser um dos oligarcas?

De uma forma ou de outra, a realidade é sintomática; sem esquecermos de que um sintoma é o erro da tentativa de acerto. Já a realidade desta segunda-feira de cinzas – na qual Alckmin, Maluf, Bolsonaro e Lasier riem da cara, e na cara do povo – é o sintoma direto da tentativa de um povo em acertar uma vida melhor para si. No entanto, o problema é que a abstração total de um erro sintomático transforma-se em perversão a fim de que esse erro gere algum gozo. A perversão converte o erro sintomático em meta principal, isto é, em regra, ainda que inconscientemente.

A partir daí o povo, pervertidamente, passa a verter fora de si a sua desejada bem-aventurança, e justamente naqueles que já a usufruem, ou seja, nas elites. Pois são os riquíssimos, reelegendo-se “ad aeternum”, permanentemente em êxito, que mantêm um horizonte de possibilidade utópico e pervertido, porém concreto, sobre o qual o povo projeta os seus anseios ainda não concretizados. O novo sintoma decorrente de tal perversão, por conseguinte, é a abstração das necessidades reais desse mesmo povo que se dá em sustento da concretude dos afortunados.

Ora, não é reinvestindo no erro que ele se converterá em acerto. Tampouco mantendo no poder aqueles que já o furtam solucionaremos a falta de poder do povo para resolver as suas necessidades. Mas sim na assunção de que os riquíssimos reeleitos são “o” erro sintomático da maioria na busca da bem-aventurança. A cura para tal perversão está mais próxima do reconhecimento de que o real desejo do povo é o de não ser paupérrimo nem esquecido pelos seus governantes do que em desejar ser privilegiado como os que já o são. Essa consciência possivelmente tiraria da monológica dianteira política nacional a corja de oligarcas que, psicopatologicamente, são a causa da depressão pós-voto de hoje.

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