Magna Brasília

“Polités” era o grego capaz de posicionar-se diante dos seus iguais a respeito dos assuntos da “pólis”, ou seja, da cidade-estado. A “politéia”, isto é, a política, era a arte através da qual o cidadão podia ou não, dependendo da força de persuasão do seu discurso público, fazer valer o seu ponto de vista sobre os demais. A grande revolução trazida ao mundo pela democracia grega foi a transformação do embate físico pela sobrevivência – a lei do fisicamente mais forte, lei bárbara – em disputa linguística – a lei das ideias. Doravante, os helenos digladiavam-se em arena pública, porém, através da sofisticação de artes até então somente suas, quais sejam, a política e a retórica.

Pelo caminho do discurso os gregos pressupunham-se iguais, entretanto, aqueles que melhor o trilhava, diferenciava-se e, por conseguinte, liderava os de menor extensão retórica, pelo menos até que um discurso melhor o subjugasse. Todavia, mesmo ocupando a berlinda política, o cidadão discursivamente vitorioso de forma alguma se tornava melhor do que os outros, pois tal liderança era tão temporária quanto fruto de uma “arte-ficialidade” dada, de modo algum evidenciando uma superioridade natural, apenas artificial. A “politéia”, ou a política, portanto, era o modo dos iguais permanecerem iguais, bem-aventurando-se através da sofisticação de suas novas instituições.

No último debate entre os presidenciáveis da atual eleição brasileira, realizado na telinha da Globo, os candidatos digladiavam-se ferina e tragicomicamente a ponto de estabelecerem entre si distâncias intransponíveis, como se fossem seres absolutamente distintos uns dos outros na disputa da liderança do “mundus brasilis”. Entrementes, nos intervalos comerciais do debate televisivo eram postadas nas redes sociais virtuais fotos descontraídas nas quais eles dialogavam amigavelmente, como se se tratasse de outra arena que não aquela onde eles inimizavam-se publicamente. Era paradoxal a diferença entre a cena aberta e aquela que se desenrolava nos bastidores do debate político.

De certo modo, os nossos candidatos atuais não fizeram nada diferente daqueles antigos “polités” gregos, pois, mesmo embatendo-se retórica e violentamente diante da massa, eram nada além de iguais tentando convencer os demais de suas ideias “adequadas”. Fora do ringue, sabiam-se farinha do mesmo saco, cidadãos da mesma nação, por isso as suas relações pessoais permaneciam ilesas das farpas trocadas no relacionamento político oficial – ainda que aos olhos do espectador essa relação amigável entre eles chegasse a ser ofensiva, dado que pareciam, todos eles, duas caras descaradas.

No entanto, por mais difícil que seja colocar a cena da guerra política e a da sociabilidade amigável no mesmo palco, na verdade trata-se do fundamento trazido ao mundo pela arte política, pois, mesmo donos de ideias inclusive opostas, todos os candidatos são nada além de “polités” da mesma “pólis”. Caso a inimizade retoricamente encenada no púlpito fosse levada para o chão social, aproximar-se-iam da barbárie que um dia a “politéia” deu cabo. Democracia é assim mesmo: disputar a berlinda política diferenciando-se exitosamente no púlpito, porém, fora dele, os disputantes não estão acima uns dos outros. É por isso que a democracia sobrevive através dos tempos, pois a manutenção dessa pretensa igualdade entre os poderosos mente muito bem aos despoderados que aqueles não estão acima destes.

A grande diferença entre a democracia grega e a nossa, sabendo os gregos veriam a nossa como uma aristo-oligarquia deslavada, é que aquela era direta, acontecendo somente na presença ativa e constante dos cidadãos, enquanto que a nossa é demasiada indireta e estruturalmente representativa, alienando, por conseguinte, a massa do trabalho deliberativo acerca dos seus interesses. A nossa democracia só é ao estilo grego entre os que a representam, pois somente eles expõem publicamente os seus ideais, monopolizando constantemente o futuro da “pólis”. No outro extremo, nós, os atuais representados políticos, assistimos passivamente à performance da “politéia” aristo-oligárquica de apelido democrático como as mulheres, escravos e estrangeiros da antiga Grécia, ou seja, sem direito à participação efetiva na construção do comum.

O Brasil, portanto, é um anacrônico herdeiro da melhor democracia da Magna Grécia cuja manutenção ficava exclusivamente nas mãos dos cidadãos homens e ricos. Inovação é o fato de as mulheres, hoje, serem permitidas nessa arte. Mas isso não muda o quadro aristocrático dessa forma de governo. Se não podemos reclamar de ausência de democracia no Brasil, podemos fazê-lo em relação à sobrevivência do seu aristocrático formato originário, isto é, aquele que deixa de fora do “demos” todos os que não são iguais aos ricos e poderosos. Entretanto, somente hoje podemos palpar a diferença entre a dita democracia e uma utópica “povocracia”, ousadia impensável a um escravo ou mulher grega. Há sim democracia na Magna Brasília!, sem dúvida; mas ela segue enquanto coisa de poucos, pois a massa de brasileiros, infelizmente, ainda não revolucionou-se em “demos”, por isso, até então, de fora da democracia.

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