Cidadão-em-branco

O grande motivo que está levando muitos cidadãos a votarem em branco nas próximas, e a retirarem-se da importante escolha de quem os governará, é a mui alardeada inexistência de bons candidatos à altura dos seus anseios. Basta ser brasileiro para entender esse sentimento, afinal, a maioria das opções disponíveis não são lá essas coisas. Mas quando foram? Possivelmente, a maioria povo pensa vez ou outra, diante dos candidatos atuais, em jogar tudo para o alto; ou em mandá-los para “aquele lugar”. Entretanto, noventa por cento das pessoas ultrapassam essa desilusão, recolocando-se no angusto jogo político que, com ou sem os dez-por-cento-em-branco, segue nas muitas mãos que restam.

Quando alguns se negam a validarem os seus votos, a escolha fica totalmente nas mãos do resto. É paradoxal o fato de esse resto ser nove vezes maior que a parte que o faz restar, inclusive por ser desse resto majoritário o árduo e fundamental trabalho de escolher, politicamente, o futuro comum a todos. O que os dez-por-cento-em-branco fazem – e cientes disso – é deixar o trabalho sujo e ingrato para a massa restante dos noventa-por-centro-válidos; ao molde das elites que deixam a produção concreta do país aos proletários-trabalhadores. Por ventura não é a proporção de 10/90 de cidadãos-em-branco e votantes-válidos apontado pelas atuais pesquisas pré-eleitorais a mesma entre ricos e pobres no Brasil? Portanto, quem vota em branco é muito menos revolucionário que reacionário, pois repinta no quadro político a triste realidade econômica vigente.

Por mais contrariado que esteja o eleitor, a ponto de dizer que nenhum candidato merece o seu voto, será mesmo que este sujeito é, ou está, tão acima da realidade brasileira, cuja completude só se dá, de fato, com a sua presença, mas que, entretanto, é piorada justamente pela sua ausência intencional, fruto de uma pretensa superioridade em relação à realidade política percebida? Não é difícil concordar com a afirmação de que o quadro político atual não é dos mais belos. Todavia, desertar de sua figuração é ser agente ativo de sua feiura. Ademais, é fazer do ruim algo muito pior, pois mais degradante do que meia dúzia de políticos indignos disponíveis à nossa escolha é ter vinte milhões de brasileiros indisponíveis no momento em que o país mais precisa de todos, inclusive para mudar o quadro que a muitos desagrada.

Parece infantil aquele que se recusar a votar por não estar plenamente satisfeito, ou revolucionariamente apaixonado, por um ou mais candidatos, pois é justamente em circunstâncias como esta que se deve ser adulto e presente, habitando maduramente não em um mundo ideal, mas no real, do qual não se escapa deixando de votar. É como a criança birrenta que recusa o jantar por ele não acompanhar batatas fritas. Contudo, caso os pais não cedam à sua manha, ela passará fome! Em situação análoga se encontra o cidadão-em-branco, pois, ao recusar a salada-de-candidatos servida a todos, por não haver nela suas frutas prediletas, o corpo sócio-político do qual ele faz parte também padece. Ora, há sempre a possibilidade de escolher no “menu” aquilo que não é o pior; como quando afastamos para o canto do prato os picles que não agradam.

O cidadão-em-branco que acha a política atual indigna de si, e por conta disso não participa dela, é o que há de mais indigno nessa política que, ele mesmo, tanto desqualifica. Essa política, entretanto, por insuficiente que pareça, ainda é o meio através do qual ela mesma pode ser melhorada, e isso somente pela ação de cidadãos válidos. Pois, sempre que um cidadão invalida-se, a situação política fica mais frágil, atendendo, por conseguinte, ainda a menos cidadãos. A única alienação compreensível, apesar de absolutamente e cruel e cínica, é a dos muito ricos, porquanto somente eles podem prescindir de participarem na construção de um futuro comum, pois, independente de como seja o amanhã, eles permanecerão ricos e acima da maioria mundana do país. Porém, paradoxalmente, as elites estão sempre presentes nas urnas, pois sabem que só politicamente manterão e aumentarão suas bem-aventuranças; e esse é apenas mais um motivo para o cidadão deixar de ser em-branco e passar a ser colorido e válido.

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