O meu destino é “substar”

A única forma de estar no mundo é através das coisas que o compõe. Sendo assim, sou homem, cenógrafo, filosofando, filho, amigo, e toda a sorte de coisas sem as quais minha estância não é conscientemente concebida – seja por mim, seja pelos outros. Entretanto, há algo antes disso tudo sobre o que estas predicações são acrescidas; mas em essência eu não sou nenhuma delas. O “eu” que insiste em existir através das qualidades ele que atrai para si existe a despeito de quaisquer qualidades, visto que, retirando-se algumas delas, ou todas, esse “eu” não desaparece. O que resta desse “eu” na ausência dos substantivos e ideias que me representam no mundo é a substância desse “eu”.

A substância, de acordo com Aristóteles, é o que não é predicado de nada; ao contrário, é aquilo de recebe as demais predicações, qual seja, o que permanece na ausência de suas muitas qualidades acessórias. Esse ser livre do desnecessário é a substância – o real que se sustém desde antes do excesso qualitativo a ele acrescido. Por conseguinte, como o real é aquilo que escapa e resiste a qualquer abordagem, a substância real é aquela que se esconde terminantemente por trás das coisas-qualidades que sempre mentem a seu respeito.

Em Descartes a substância deixa de ser aquele substrato aristotélico cabide das predicações alienadamente sobrepostas a ela para ser o puro subsistir da sua essência. Para esse filósofo, dizer “a substância da cadeira” ou é uma contradição ou é uma tremenda redundância. Contraditório por que a cadeira que necessita de uma substância vindoura não é nem cadeira nem substância alguma, pois o essencial já lhe falta. Visto que é a substância que atraí para si as predicações, e que essas predicações são tudo menos a substância, a redundância mencionada evidencia-se no fato de algo necessitar, para ser, daquilo que ele já é.

Sendo assim, enquanto estivermos dizendo algo de uma substância, não estamos dizendo dela, porquanto o que nos aliena da substância é precisamente qualquer coisa que possa ser dita a seu respeito ou colocada em seu lugar. Quando digo “eu sou cenógrafo e moro no Rio de Janeiro”, por exemplo, não digo da essência desse “eu”, apenas de qualidades acidentais cujas ausências não eliminariam sobremaneira esse “eu” que as sustém acidentalmente. Indo ao extremo, mesmo que dissesse “eu sou vivo”, não estaria falando da essência desse “eu”, pois não é por ser vivo que sou “eu”. Algo do “eu”, na morte, permanece substancial.

O “eu” pode ser consciente de tudo menos da sua própria substância, visto que a consciência é apenas a forma com a qual a essência do “eu” toma consciência não dela mesma, mas de todo o resto, isto é, do mundo. O destino do “eu” é projetar-se na tela impredicável do real em vias de angariar as predicações que constitutivamente devem lhe faltar. Por conseguinte, o “eu” mais substancial nunca está no mundo. Nele, apenas sub-está; impredicável e persistente; aventurando-se no universo das qualidades ainda que, ele mesmo, deva ser a ausência delas.

De que modo o “eu” poderia dizer de sua essência substancial sem se utilizar das coisas do mundo, ou seja, sem usar predicações tais como profissão, características físicas, ou estados efêmeros como bengala? Descartes, através do “Penso, logo existo”, conseguiu isso. Porém, rapidamente concluiu que qualquer conteúdo desse pensamento-substância já não era mais a sua substância essencial. Descartes, portanto, era o seu pensamento, e somente enquanto pensamento de nada; pois, uma vez pensando em algo do mundo, essa substância não era mais ela mesma, mas algo híbrido e transubstancial.

Acercando a substância numa dialética metafísica poderíamos sintetizar o “eu” substancial como o efêmero silêncio intervalar entre os impertinentes e insustentáveis gritos de protesto do não-ser contra o confortável, intransigente e arraigado discurso do ser. Isso porque o “eu” não consegue permanecer aquém do mundo das qualidades determinadas, isto é, não consegue ser senão as coisas do mundo. Também é impossível ao “eu” enxergar-se enquanto o seu mínimo, ou seja, como o que subsiste, sem erro, na total ausência de definição. Essa substância que é o “eu” não consegue ser-estar na sua essencial ausência de predicação sem com isso pensar que não-é. Entretanto, uma vez predicando-se, seu destino é perceber estes predicados como alheios a si, pois desde sempre alhures.

Por mais que o “eu” deseje ser e estar no mundo, e que isso só se dê vestindo qualidades e definições mundanas, o “eu” é essencialmente aquilo de incólume que resta quando despido do mundo todo. Somente quando o mundo está absolutamente ausente é que o “eu” alcança sua condição substancial e reencontra sua essência. Portanto, a ausência absoluta do mundo oportuniza um estranho espaço entre a ausência total de qualidade e a qualificação inconteste onde o “eu” pode estar. Entrementes, uma localização já é predicação excessiva para uma substância. Logo, o único predicado pertinente a uma substância incorre em irredutível redundância. Da mesma forma, o “eu” só é ele mesmo quando nada além desse “eu”. Seu destino é “substar”.

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