Preconceito contra o preconceito

Nossa época “politicamente correta” gera uma histeria sistêmica cuja retroalimentação converte, inadvertidamente, inclusive o complementar lado bom das coisas no seu oposto a fim de que a mania de correção não se deprima diante da complexidade contraditória dos fatos. (Quase) todos nós somos contra o preconceito, e cada vez mais induzidos a sê-lo, dado que seu lado pernicioso permanece desumano e digno de desprezo. Entretanto, é importante separar o joio do trigo para que essa arroba inteira não seja jogada fora. Em relação ao preconceito, da mesma forma ele se compõe de opostos, e não são os dois inescusáveis.

Mesmo sendo contra certos preconceitos – e inclusive sendo vítima de alguns -, percebo que tenho os meus; alguns deles a serem corrigidos e outros que merecem lugar no mundo. Digo isso porque muitas vezes sou preconceituoso em relação aos gays, por exemplo, pois, mesmo antes de conhecê-los, acredito que eles são divertidos, não preconceituosos, inteligentes e sagazmente conectados com o mundo – o que me parece bastante interessante. Outras tantas, preconceituo as mulheres como seres de muita sensibilidade e donas de um altruísmo maior que o dos homens, assim como creio serem os artistas seres iluminados e cheios de graça. Isso se enquadra como preconceito, pois muitas vezes, depois de conhecê-los melhor, descubro que errei no julgamento prévio.

Entretanto, é só a partir desse tipo de preconceito que pressupõe o desconhecido como bom ou interessante que visualiza-se o lado positivo e humano da preconcepção humana. Há preconceitos ruins, por certo. Entretanto, há os bons e louváveis, e são estes os injustiçados pela histeria cega do “politicamente correto”. Logo, não há problema em manter, e inclusive louvar, aqueles que, a despeito das decepções que podem provocar, valorizam positivamente o desconhecido. Quando alguém é positivamente preconceituoso, ou seja, quando acha que tal e tal pessoa é boa mesmo antes de comprovar essa crença, uma expressão positiva da humanidade ganha lugar no mundo, embora de caráter idealista.

Somente algo que permanece graciosamente aberto no ser humano pode dispensar a empiria que procura refutar aquilo que ainda não se mostrou indigno de apreço. Inversamente, é o lado mais fechado e dogmático das pessoas que lega à experiência a legitimação absoluta das certezas em relação aos outros. Ao dizermos que todo preconceito é ruim, instituímos, colateralmente, que só há joio na saca híbrida das nossas percepções acerca do mundo. Desse modo, somos vítimas de um preconceito pervertido, muito mais pernicioso, que rouba de antemão daquilo que é bom a pressuposição de sua bondade. Assim, o bom só passa a ser bom depois de provar o contrário, e desse modo, ainda que temporariamente, o positivo ideal é tratado como negativo potencial – o que acaba por espraiar negatividade no real.

São os conceitos – as aparências da irrefutabilidade das nossas crenças – que matizam negativamente o preconceito, pois diante daquele não há necessidade alguma de suas preconcepções. Entretanto, como se chega a ele? Porventura não é somente através dos preconceitos que o antecedem? Visto que não há um Deus “downloadando-nos” conceitos fechados a fim de que não tomemos as pessoas e as coisas pelo que elas não são, o caminho que leva ao conceito começa inescapavelmente na distância em relação a ele. Todavia, mesmo os conceitos estabelecidos podem carregar imprecisões injustas em relação à realidade. Hegel refutaria esta afirmação, pois, segundo ele, o conceito é a verdade absoluta que resta da trilhagem sobre todos os erros que o antecedem ao modo de distanciá-lo. Para este filósofo, o conceito só é quando universal – e o universo nunca está errado, só nós somos dignos dessa caída façanha.

Já os nossos conceitos mundanos, aqueles que, uma vez estabelecidos dispensam e desqualificam presunçosamente os seus “pré’s”, são, contudo, nada além de refúgios artificiais, tão frágeis e passíveis de refutação quanto qualquer preconceito. Se a decepção é um dos horizontes possíveis do preconceito, a tristeza o é do conceito, porquanto nossas maiores mágoas advêm da inacreditável quebra da verdade das nossas mais fortes certezas, ou seja, do solapamento dos nossos mais arraigados conceitos a partir dos quais nos relacionamos seguramente com as pessoas e com as coisas. Neste patamar, conceito e preconceito são um mesmo ser, diferenciando-se um do outro apenas pelo que decorre do seu devir.

Portanto, o preconceito contra o preconceito é um sobre-preconceito, e este sim é extremamente desumano, pois não contempla o polo positivo fundamental a todo negativo. Aqui, a única cruzada legitimamente boa, humana e válida – a despeito da aversão “politicamente correta” que nossos dias atribui indiscriminadamente a toda forma de preconceito – é aquela que vai contra o mau preconceito. Só o mau preconceito é condenável, e não devido ao seu teor preconceituoso, mas por não se assumir como preconceito e sim como um conceito em si; coisa que ele não é, pois sempre pode estar errado.

O bom preconceito é bom pois é a assunção declarada da antevisão não acabada daquilo que ainda não se deu plenamente à visão; é bom porquanto o “desejar” de que as coisas sejam de determinado modo, essência humana inalienável, mola do mundo. O preconceito positivo, por idealista e insustentável que possa parecer depois de decepcionado, ainda é um baluarte do bem no solo do real. Já o negativo, aquele que só legitima a realidade depois de sua comprovação empírica, é a semeadura da miséria humana para aquém dela mesma, ou seja, a maior das injustiças. Logo, o preconceito é bom quando assumido, pois é uma autodeclararão de sua distância em relação à realidade; e mau quando disfarçado de conceito, pois aí pretende-se como verdade universal. Não obstante, cada um deles é um dos lados da mesma moeda com a qual a incerteza humana paga o preço da verdade.

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