Filoanálise & Psicosofia

A filosofia e a psicanálise, juntas, contam uma história demasiado humana que se inicia na curiosidade inútil acerca do macrocosmos e que finda em um micro, em cujo interior cabe nada além de um imperioso “eu”; ironicamente o mesmo que lançou aquelas macro questões filosóficas primordiais. O drama contado é trágico porque mostra o homem observador do universo sendo colocado na observância de si próprio enquanto observador do universo. No primeiro ato a filosofia diz ser o universo o homem projetado sobre a indecifrável tela do real; já no segundo, a psicanálise substitui esse “homem” genérico pelo absolutamente “eu”. Conjuntamente elas dizem do parto da realidade dentro e contra o real, e separadamente fazem com que a mesma história pareça duas.

Em uma confraternização informal entre graduandos de filosofia e de psicanálise que se deu na minha faculdade – de Filosofia – confessávamos uns aos outros a resistência dos professores-mestres-doutores de ambos os cursos em aceitarem a pertinência de uma área dentro da outra. O resultado disso era a presente distância entre os pré-filósofos e os pré-psicanalistas enquanto falavam das mesmas coisas. Apesar do recente e frutífero casamento que a contemporaneidade intenta entre elas, visto em pensadores como Deleuze, Badiou e Zizek, a filosofia e a psicanálise mantém, ainda, algo institucional que as aliena uma da outra.

As eventuais relações que um filosofando faz entre Freud e Lacan, por exemplo, e as essenciais questões filosóficas, geralmente são desestimuladas, pois, nos dizem os mestres filósofos, são mais evasivas que acertivas no embate com suas questões. Quando falamos a palavra “inconsciente”, na Filosofia, os professores nos olham como se estivéssemos falando em outra língua, ou de espíritos místicos. Já a psicanálise, ao menos em teoria, é menos dogmática-restritiva em relação aos sábios que não os seus. No entanto, na prática, sua limitação em relação à filosofia se dá na permanência dos psicanalisandos na superfície das teorias dos seus, sem com isso vasculharem as fundamentais presenças de Sócrates, Platão, Wittgenstein, Hegel, Marx, entre tantos, nas belas e posteriores sistematizações de Freud e Lacan.

Nesse sentido a Filosofia é mais científica que a psicanálise, pois o conhecimento da verdade anterior a qualquer verdade é a condição necessária à verdade em si, seja para corroborá-la seja para refutá-la. Diferente desse método filosófico, a psicanálise se dá por satisfeita com a síntese que seus sábios fizeram dos demais, dispensando o conhecimento concreto, específico e diferencial de cada pensador que alimentou tanto Freud quanto Lacan. O sintoma dessa prática é jocosamente apontado por Deleuze e Guattari, apólogos da esquizoanálise, em “O Anti-Édipo”: quando o paciente não se enquadra no “Complexo de Édipo” dogmaticamente sustentado pelo psicanalista, o problema é sempre o paciente; nunca o “Complexo” forçado contra ele.

Diante do Moderno assassínio da questão filosófica primordial, a saber, “o que é o ser”, um pré-psicanalista perguntou se esse “ser” morto seria, porventura, o “sujeito”, justamente o assassino confesso do “ser” na visão dos estudantes filósofos. Já estes, velam o cadáver metafísico ao lado do assassino sem com isso interessarem-se pela dicotômica e desejosa inconsciência que o levou a tal crime. Por que a filosófica questão do “ser” é tão alheia à psicanálise se seu objeto central é o mais justo “ser”, isto é, o “ser” “eu”? Da mesma forma, o estudante de filosofia permanece de costas ao mundo da inconsciência que, ainda que não guarde as respostas às graves questões filosóficas, diz a verdade daquele homem-filósofo que só “é” através das suas perguntas insolúveis.

Quanta teoria psicanalítica no mundo das ideias platônico e na Fenomenologia do Espírito hegeliana; quanta prática filosófica nas análises freudianas e nos seminários lacanianos! E quanta distância entre elas! A morte de Deus vociferada por Nietzsche tem um sentido filosófico bem determinado, não obstante passível de resignificação quando a partir da psique do filho de um pastor luterano. Um camponês matando Deus diz uma coisa; o filho de um crente urbano, outra bem diferente. Seria irresistível a um psicanalista pensar que o Édipo-Nietzsche queria mesmo era matar o próprio pai. Contudo, como o sintoma é o erro da tentativa de acerto, o filósofo, sintomaticamente, matou o Deus de todos, pois, uma vez a humanidade sem Pai, ele estaria, finalmente, órfão do seu.

Caso os desejos incestuosos e inconscientes daquele Nietzsche fossem um tanto menos obscuros a ele mesmo poderiam ter sido descontados do resultado final das suas experiências filosóficas, pois, a fim de preservar a pureza dos objetos investigados, suas verdades estariam menos contaminadas se ilesas do erro-sintoma que ele mesmo era. Entretanto, através do véu opaco que persiste em qualquer psique não analisada, portanto desconhecida, o mundo nietzschiano era próximo, demasiado próximo dele mesmo, muito mais que da verdade que ele buscava. Não psicanalisando-se, a filosofia de Nietzsche, em certo sentido, foi uma inadvertida autoanálise pública.

O “Penso, logo existo”, fruto do solipsismo que excluiu do mundo de Descartes o mundo todo em função de uma dúvida absoluta, só pôde ser dito por que a suspensão do mundo do filósofo deu-se no conforto de suas pantufas, em frente a uma lareira alimentada, e regada por um bom vinho. Suspender o mundo sem com isso suspendê-lo de fato levou o filósofo a perceber que “ele pensa” e que “ele existe”, o que, antes, já era uma certeza sua. Sem desconsiderar o feito para humanidade que esse “Penso, logo existo” representou, apesar de muitos dizerem que seus efeitos resultaram nas maiores mazelas da atualidade, uma “psicanalisezinha” básica mostraria que não era “a certeza absoluta” que Descartes desejava, mas sim a ele próprio; a absoluta certeza de si.

Nesse sentido, a psicanálise pode ser fundamental ao renascimento de uma grande Filosofia depois da Moderna morte da metafísica, pois, somente cientes das suas próprias inconsciências – o oposto complementar de qualquer consciência – os filósofos podem evitar que seus objetos, trazidos à luz do mundo, não sejam obscurecidos pelos seus “eus” obscuros. Dessa forma o “eu” é assumido como ferramenta-processo em direção ao universo em suas verdades, e não aquilo que ofusca e contamina a verdade universal. Em sentido complementar, a substancial profundidade existencial, comum tanto aos “eus” quanto às demais coisas do universo, ou seja, o “ser” filosófico em si, deve ser escopo presente à psicanálise, dado que o “eu” só “é” porque existe algo de anterior a ele mesmo, e esse alicerce fundamental é o “ser” filosófico-universal sobre o qual o “eu” psicanalítico-particular se funda, se apoia e se justifica. Logo, entendê-lo é entender-se.

No entanto, a cisão entre a filosofia e a psicanálise se mantém até hoje porque o rígido e sintomático plano-erro cartesiano coloca cada uma delas em um solipsismo intransponível que condiciona a existência de uma à desistência da outra. Não obstante as duas estando tão presentes – lado-a-lado – quanto a lareira e o divã da “bourgeoise” sala de pensamentos de Descartes. A filosofia já entendeu que “aquele que pergunta”, “a pergunta em si”, e “as respostas encontradas” são uma única e mesma coisa, isto é, o homem, o “ser” humano. Do outro lado a psicanálise sabe-se como a arena aonde o “eu”, inclusive o filosófico, melhor se apresenta em suas contradições fundamentais. Talvez o que ainda escape a tanto à filosofia quanto à psicanálise seja o fato de que as contradições que cindem o “eu” , cindindo assim o homem de si, são mais bem visualizadas psicanaliticamente e melhor reunidas filosoficamente. “Ser” “eu”, portanto, carece das duas.

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