Black Bloc Jesus

Acreditamos na existência da História enquanto reta temporal que separa irremediavelmente passado de futuro. Entretanto, a despeito das nossas crenças medievo-moderno-contemporâneas, foi a ideia de tempo cíclico que regeu o mundo dos homens por muitos milênios a mais que sua recente versão linear. Aristóteles, na trágica visão grega acerca da existência, disse que inclusive a mais desenvolvida das sociedades estava condenada a ruir e a retornar às suas origens, para recomeçar, do zero, a sua particular epopeia. Talvez tenha sido o inescapável e sensível ciclo percebido na Natureza, cujo final sempre coincide com e reconduz ao início – igual, ainda que outro – o mestre dessa lição aos antigos.

Porém, foi o advento do cristianismo, esse sistema gordo de seus próprios propósitos, que inventou a linearidade histórica com o fim de alienar definitivamente o homem das suas origens e conduzi-lo, sem passagem de volta, às mãos do seu líder divino supremo, que a todos aguarda no ponto final – e elevado – que encerra a linha do tempo de cada um de nós. Importante é ter em mente que foi o cristianismo esse alienador, não seu ícone fundamental, Cristo. Jesus, o homem-símbolo do fim do mundo antigo e garoto propaganda do cristianismo, tomado enquanto fim de um longo processo histórico, reiterou a natureza cíclica da existência humana no cosmos, seguindo a cartilha aristotélica e solapando todas as instituições interpostas entre o sofisticado cidadão romano tardio e o primitivo camponês hesiódico.

Logo depois do “Verbo” primordial, o homem era apenas ele mesmo em sua isolada família-tribo, sem lenço nem documento, sem urbes nem deuses coletivos. Ser humano, portanto, era ser o tanto de terra necessário à subsistência e o culto aos imediatamente mortos que compartilhavam do mesmo chão plantado e habitado pelos vivos. De acordo com o historiador Fustel de Coulanges, estes “idos” familiares foram os primeiros seres divinizados-cultuados pelos homens. Aqui reencontramos a definição do surgimento da Cultura, cujo início se deu a partir do sepultamento e do subsequente culto mantido em memória desses mortos. As oferendas aos antepassados eram absolutamente funcionais aos vivos, visto que eram aqueles que intermediavam com o “todo” a fecundidade da Natureza necessária à vida destes.

Assim, essas divindades familiares mortas e cultuadas eram o maior tesouro de cada grupamento humano, portanto, particulares e secretas. Caso contrário, a fortuna dos vivos estaria irremediavelmente comprometida, pois as divindades eram ciumentas e exigentes, tal qual os vivos. Por isso o culto que elas solicitavam de forma alguma poderia ser visto ou compartilhado com quem fosse de fora da família-tribo. Logo, foi no culto particular aos mortos que nasceu o conceito de “privado”. O “Lar” era o local absolutamente privado e resguardado do mundo, dentro das residências, aonde o culto aos mortos se dava através de um fogo mantido sempre aceso que só podia ser visto pelos vivos daqueles mortos.

Tomemos essa unidade fundamental composta de uma família-tribo, suas terras-plantações e seus mortos-divindades como a instituição social básica e primitiva do ser humano; para onde, com o final histórico chamado Jesus, as imperiosas instituições romanas foram obrigadas a retornar. A formação da cidade enquanto o novo local que prometia resolver as desventuras humanas que não encontravam solução na esfera doméstica exigia, necessariamente, algo de divino para legitimar-se. Por conseguinte, as diferentes tribos tiveram de encontrar mortos em comum – que não os seus familiares sagrados-secretos – para tal. Em função da bem-aventurança coletiva, os proto-cidadãos erigiram altares públicos, ao modo dos Lares domésticos privados, em torno dos quais a congregação humana não estaria desprovida de proteção.

Eram as divindades privadas que fronteirizavam as famílias; e as coletivas, as cidades. Porém, estas últimas coadunavam uma contradição interessante, porquanto embora coletivas, essas divindades deviam ser absolutamente privadas às outras coletividades-cidades. Logo, cidadãos eram os que compartilhavam de uma mesma divindade, e estrangeiros aqueles que de forma alguma podiam cultuá-la. Essa era a nova e intransponível fronteira humana instituída. Circulando entre duas esferas distintas, a doméstica e a pública, e por conta disso tendo divindades diversas a cultuar, o homem, inadvertidamente, desabsolutizou as suas divindades privadas, dividindo o seu espaço transcendente com as públicas. Essa foi a primeira laicização que as divindades humanas primordiais sofreram.

Da mesma forma, as posteriores ligas entre diferentes cidades exigiam sempre novas divindades em comum, e os ritos que outrora eram privados, depois coletivos, findaram cosmopolitas. Inclusive as refeições sagradas que cada família ofertava aos seus mortos, em sua forma coletiva, instituíram os festivais aonde todos os cidadãos faziam o mesmo com as divindades públicas. O Império Romano, a cosmópolis absoluta, reuniu tantas famílias-tribos-cidades que, neste estágio, cada homem encontrava-se imerso em um panteão de deuses, cada um com sua esfera de atuação e de culto. As divindades foram sendo criadas e hierarquizadas de acordo com as necessidades mundanas e, inescapavelmente, relativizadas; por fim, reificadas.

Justamente por Roma ter sido o império que não matou as divindades dos locais que dominava, respeitando-lhes o culto e ao mesmo tempo doando-lhes os seus, essa divina colcha de retalhos deixou patente aos homens que suas instituições podiam prescindir de divindades para sustentarem-se. Neste momento laico máximo a cidade passa a ser chamar“urbe” que, significando órbita, era nada mais que o circunvagar humano em torno daquilo que lhe era fundamental, ou seja, as suas relações diretas com todos os outros homens e os frutos que essa interação proporcionava-lhes. Por conseguinte, ficou claro que o centro gravitacional que articulava todas as órbitas humanas era o próprio homem, não mais os seus deuses.

Doravante, sem a proteção das suas divindades, o homem experimenta toda a sorte de problemas urbanos, e por fim a urbe revelou-se a negação daquilo a que ela mesma se propunha, isto é, a superação das dificuldades insolúveis no plano doméstico. O homem cosmopolita, portanto, era aquele órfão dos seus deuses lares, desterritorializado do seu campo de subsistência e com sua família-tribo partida pelos impérios da urbe romana. Distante dos seus primórdios campesinos e imerso das mazelas urbanas, o homem confrontou-se com a ineficiência de sua própria empresa cultural-urbana. Seus deuses lares esquecidos eram-lhes mais dadivosos, mas, uma vez profanados, não o receberia novamente.

Então, bem no centro desse sofisticado caos romano, chega Jesus de Nazaré, um vilipendiado como a maioria, porém, encarnando em si a crítica ao mundo instituído. Jesus trouxe a oportuna nova: homens, embora vocês tenham profanado as suas divindades antepassadas e rendido culto ao mundo caído, há uma divindade suprema que a todos ama e a todos aceita. Para tanto, o homem devia abrir mão daquele mundo caído e voltar-se ao culto à Deus e à sua simples sobrevivência, o que, soterrado sob a secularidade, era a sua vida de outrora.

Corroborando com a afirmação de Aristóteles de que até o maior império retorna ciclicamente ao seu início, Roma, com Cristo, ruiu e reencontrou o seu primórdio pré-urbano. O mundo medieval, o futuro imediato dessa decadência, foi o regresso desiludido do homem ao seu solitário quinhão de terra e aos secretos lares familiares. No entanto, a diferença foi que o deus que doravante ele prestaria culto não era mais aquele enterrado sob o seu Lar, e nem seria privado, mas vivia publicamente sobre todos, para todos, no céu. A urbe, de certa forma, ao colocar todos os deuses em praça pública, pôde sintetizá-los em uma única ideia, telepaticamente captada por um homem – provavelmente neurótico esquizofrênico – chamado de Cristo. Por trás deste nome há a significação de cruz, de cruzamento e do ponto onde as perpendicularidades contraditórias se encontram.

Jesus foi o Black Bloc que, com a máscara de Cristo, quebrou todas as vidraças do Império Romano, levando ao coração do poder instituído a seguinte mensagem: o que nós, homens, mais precisamos é de tudo aquilo que você, Cultura, roubou de nós! Esse reacionário “vem-pra-rua-vem” nazareno era tão necessário quanto verdadeiro, dado que, depois de ressoar pelas Vias Apias, inclusive enfrentando a opressão militar dos chicotes lacrimogênios, levou a humanidade de volta aos seus esquecidos e perdidos nucléolos ancestrais. Jesus, de certa forma, fez a História voltar a ser mito, ciclando-a ao seu primórdio. Depois dele, contudo, o cristianismo reconverteu a certeza mítica em abertura História: uma que principia no nascimento, passa pela total subserviência a Deus e conduz ao ponto máximo e último simbolizado pelo paraíso eterno.

A Idade Antiga, sob certo ponto de vista, apresenta-se historicamente, porém, seu início e o seu fim tocam-se na macro assunção de que, na verdade, tratou-se de um movimento cíclico, isto é, mítico. O medievo foi outra volta desse mesmo ciclo, não obstante insinuando-se historicamente outra vez. Portanto, parece ser a História a tentativa épica do homem de escapar da natureza mítica da sua existência na Natureza. A natureza da História é a história da natureza do mito. Porém aquela, menor e funcional, é a visada máxima com a qual nós, homens, conseguimos vislumbrar o gigante mito da existência, apropriando-o à nossa mundanidade contingente.

É como se tomássemos quaisquer dois pontos dos infinitos que formam a circunferência do tempo e entre eles traçássemos uma reta a nosso bel-prazer, a despeito do arco verdadeiro que escapa a essa reta mesma. A História não tangencia o mito ao modo da linha que, depois de tocar a curva em um único ponto, afasta-se para nunca mais reencontrá-lo. Antes, a História é uma reta que finge interceptar o mito em dois pontos, numa tentativa demasiado humana de atalho. Não obstante, a distância entre essa reta histórica e a corda roubada do ciclo mítico é medida dupla: em um sentido a mentira da História, e no outro, a verdade do mito.  reta histórica e a corda roubada do ciclo mítico é medida dupla: em um sentido a mentira da História, e no outro, a verdade do mito.

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