Voto válido ou cinismo

O Cinismo foi uma corrente da filosofia grega, contemporânea de Sócrates, e, de certa forma, foi um dos primeiros reflexos da decadência da fase de ouro dessa sociedade no pensamento dos seus cidadãos. Cínicos eram aqueles que não acreditavam mais nas instituições humanas, principalmente na política, instituição dourada para um grego. Se historicamente o cinismo esteve atrelado à apatia política, é pertinente perguntarmo-nos se a descrença política que percebemos às portas das nossas atuais eleições não seria a sobrevivência inadvertida daquela forma antiga de pensar no núcleo duro da contemporaneidade. Seria o cinismo causa ou consequência imediata do fim da idade de ouro da sociedade ocidental?

A sentença de morte imputada a Sócrates devido às suas ideias ameaçadoras à forte tradição, bem como a posterior capitulação grega da diante de Alexandre, o Grande, da Macedônia, que roubou dos cidadãos da Pólis o poder de deliberação política, foram os horizontes de possibilidades icônicos para que o pensamento cínico se tornasse pertinente ao mundo. De acordo com o historiador Fustel de Coulanges, “por desgosto ou desdém, os filósofos afastavam-se cada vez mais dos negócios públicos. […] A escola cínica vai mais longe. Nega a própria pátria”.

Havia, portanto, uma contradição necessária e imediata entre cidadania e cinismo, dado que este era ou a negação daquela ou a expressão da impossibilidade de a cidadania seguir aos moldes da Era de ouro pregressa. No entanto, sub-repticiamente, o cinismo era sintoma de um sentimento coletivo de frustração em relação à cidadania perdida. E um sintoma é nada mais que um erro auto-evidenciando-se na ausência do acerto – e certo, para os gregos, era a posse da condução de suas vidas. Na perda da cidadania, conta-nos Coulanges, “os cínicos repetiam a verdade, então bastante recente, de que o homem é cidadão do universo, e que a pátria não é o acanhado recinto da urbe”.

Se por um lado os cínicos negavam a pátria que os negava, como crianças birrentas que, desconfiadas do desamor dos seus amados, teimam ódio na tentativa pervertida de restaurarem suas certezas abaladas, por outro, nessa negação, os cínicos assumem coautoria na tragédia que encenou o fim do apogeu grego. O cínico “Crates dizia que, para ele, a sua pátria era o desprezo pela opinião dos outros”, aponta Coulanges, justamente no momento em que as opiniões dos outros, a saber, a dos gregos, não importava mais na vida deles próprios, visto que era a opinião e o desejo de Alexandre a que, mesmo a contragosto, passaram a valer.

Os cínicos inventaram um preconceito em relação à política no momento em que a política deixou de ser um conceito imediato, ou seja, algo vivo, sensível e presente, mas sim a pálida representação de algo perdido, que, nessa distância mesma, tornou-se passível de ressignificações que nada apontavam ao propósitos essenciais da política. Diante da impossibilidade da Pólis, restou-lhes a “apatheia”, isto é, a apatia total, inclusive a política, porquanto “os cínicos não queriam sequer ser cidadãos”, afirma Coulanges. Passaram, então, a viver às margens da sociedade, cuidando de seus próprios assuntos, como cães sem dono; e, curiosamente, em grego, “cão” significa “cínico”.

Hoje, na distância que estamos de auto-representarmo-nos diretamente diante do Estado, o que antagoniza absolutamente com a essência de democracia para os gregos, a ponto de, sob um anacrônico ponto de vista a partir deles, o nosso sistema de governo figurar como uma plena oligarquia, a efetividade da nossa ação política foi confinada à pressão de botões em quiçá duas ocasiões bienais. Tão alienados da participação direta nos desígnios da nossa própria sociedade como estavam os frustrados cínicos gregos, muitos cidadãos brasileiros, reduzindo ainda mais as suas presenças na constituição desse país, ao votarem em branco acreditam que com isso revolucionarão a angusta realidade.

Porém, tal ação política – que por outro prisma é uma inação apática – é tão velha quanto a própria decadência das sociedades, sendo tão revolucionariamente inócua quanto foi sua origem helênica. Os frutos daquela antiga apatia política foram as posteriores subjugações diante dos Impérios Romano e Cristão. Portanto, podemos ver que deixar voluntariamente de sujar as mãos com os assuntos da própria sociedade não a conduz a um lugar melhor. Ao contrário, a apatia política abre espaço para as vicissitudes mais ignóbeis que só não têm vez havendo a atua-ação viva e virtuosa da política.

Impérios e fundamentalismos tão ou mais perniciosos que aqueles que capitularam a Magna Grécia espreitam-nos sorrateiramente por trás das muitas intenções de votos em branco que pressionarão os botões de mesma cor das nossas urnas eletrônicas. O liberalismo econômico vilipendiador e o anacrônico fundamentalismo evangélico, portanto, ambos representados pelos mais ignotos candidatos dos debates atuais, são os que se mais se beneficiarão da evasão do voto válido.  Ainda que representante direto da indireta representação que nos restou, o voto válido é a única possibilidade para, se não na escolha do “menos pior”, dizermos ao pior que não o queremos na Pólis.

Embora votar em branco não seja um crime, tanto que essa inútil liberdade política é legalmente representada pelo cínico botãozinho branco do “display” eleitoral, um assassínio digno de expiação decorre dessa ação. Não foi em torno do cadáver da representatividade que velaram as manifestações de junho de 2013? Não seria aquele audível “Ninguém me representa” a expressão cínica-coletiva de uma massa desejosa, antes de tudo, de uma digna representação? Porém, o voto em branco é um “sobrecinismo”, pois transforma o “ninguém me representa” em “nem eu mesmo me represento”; ou pior, num “eu não me importo com quem vai me representar”. A única coisa que é válida em um voto inválido é a transformação do cidadão em um cínico, ou seja, em um cão! Só que os cães ainda são menos cínicos que o cidadão desertor, dado que eles não dispõem de política para revolucionarem o seu mundo. Já nós, sim.

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