O inescapável ciclo mítico

Na impossibilidade de saber do seu próprio primórdio – que é melhor dito em inglês: “the very beginning” -, e na incerteza de que o que há tenha começado nalgum dia, ou ainda se sempre houve, o homem tratou de inventar histórias que, aproximando-se ou não da verdade, eram-lhe suficientes. Daí os mitos, isto é, as narrativas que explicam ao homem o início do cosmos, do mundo, das coisas e inclusive dele mesmo. Abundando símbolos e imagens que roubavam a necessidade da verdade – pois sempre mais coerentes e recreativos que ela -, as ficções mitológicas circundavam a verdade de tal modo que o centro real em torno do qual os mitos piruetavam perdia, de fato, o foco.

Os mitos não podiam ser descartados pelos antigos, porquanto mais angustiante que sustentarem suas realidades sobre quimeras era o suspense das verdades ocultas. Os mitos, portanto, diziam dos começos sem irem de fato até eles, contando o passado imemorial através de letras presentes e indubitáveis, usando como estrutura dramatúrgica fundamental eventos de intrínseca contemporaneidade, com um estratégico teor extemporâneo que, não obstante, projetava sorrateiramente essa contemporaneidade atávica para muito antes de si. Para dizer o que foi, o mito simplesmente diz o que é; o que é agora; o que sempre foi e sempre será; substancialmente, o que é o homem no cosmos; pois a única coisa que satisfaz a curiosidade do homem é ele mesmo.

Por isso não faz sentido perguntar de um “quando” em relação aos mitos, visto que não há uma data específica aonde tenham se dado; antes, é o que sempre está acontecendo, sem nunca ter deixado de sê-lo. Nesse sentido o mito alude ao ‘ser’ parmenídico que só ‘é’ porque sempre ‘foi’ e sempre ‘será’; se tivesse não ‘sido’ nalgum momento, ou se porventura deixasse de ‘ser’, é porque nunca ‘foi’, portanto, não ‘é’, tendo ‘sido’ somente uma ilusão dos homens. No entanto, o mito dá a volta em Parmênides pelo fato dele ‘ser’ uma ‘ilusão’, ou seja, o seu ser ‘é’ uma ‘ilusão’. O mito, por conseguinte, é a vingança vitoriosa do não-ser no seletivo campo de batalha do ser.

A contemporaneidade secreta do mito se aproveita do motor ininteligível do real, por isso mente uma extemporaneidade que resolve o desejo humano pelo primordial. O mito de Prometeu, por exemplo, só nos conta a história da sabedoria incendiária roubada de Zeus para que nós, homens, pudéssemos viver caídos na natureza, porque, todos nós, de certo modo, só somos porque desde sempre já ladrões desse fogo, isto é, das essenciais sabedorias furtadas daqueles sábios que as detêm, em vias de sobrevivermos no mundo. Prometeu não roubou o fogo de Zeus nalgum tempo, e uma única vez. Ele o rouba a cada instante! Melhor dizendo, somos nós esses larápios, porém, projetando-nos extemporaneamente naquele. Portanto, todo mito, falando do que foi, diz apenas o que é, porém sempre escorregando de sua re-apresentação em direção a um primórdio inquestionável.

Desse modo, através dos seus mitos, a antiguidade humana encontrou a ordem desejada no caos sensível das suas próprias dúvidas; mitificando-se através dos seus mitos; colorindo o passado imemorial com as tintas do seu presente inconteste. Uma vez em solo grego, os mitos receberam as características desse povo: de um lado incorporando as verdades filosóficas que brotavam daquele chão pedregoso e, de outro, tornando-se tão trágico quanto o modo grego de perceber a existência. Na tragédia grega, que atualiza o poder mítico ao helenizá-lo, o mito deixa de se referir exclusivamente aos princípios cosmológicos e assume, enquanto narrativa, o homem como princípio; o princípio de que, metafisicamente, falou Aristóteles, ou seja, o princípio enquanto causa – o princípio eternamente contemporâneo e fundamental a cada estágio do desenvolvimento, e inclusive ao fim. Esse filósofo afirmou serem os princípios os fins das coisas.

A tragédia, portanto, foi o passo que o homem deu para fora da roda do mito no sentido de enxergar e encarnar o mito enquanto coisa que o homem mesmo é, isto é, a causa de todas as suas causas. Todavia, um pé seu permaneceu cativo da esfera mítica, embora, logo ali, ela tivesse se tornado trágica, As tragédias que doravante passaram a ser encenadas mantiveram a estratégica extemporaneidade do imediatamente contemporâneo, pois só a certa distância o homem pode vislumbrar, sem padecer, aquilo que ele é. O trágico Édipo Rei é um belo exemplo disso, porquanto só acertou os homens em cheio, dizendo-lhes dos desejos incestuosos que todos eles tinham em relação aos seus próprios progenitores, à distância de uma plateia e sob o pretexto de um texto. A história dessa capacidade de assistir civilizadamente ao insuportável é contada, não obstante, por outro mito, o de Ulisses e as sereias, que, nas palavras de Adorno, é a história da invenção da plateia.

Entrementes, como o mito é só uma forma de representar a verdade enquanto ela não vem, ou enquanto o homem não é capaz de suportá-la, ele sempre padecerá de sustentabilidade. Se o primeiro passo do homem para fora do mundo mítico foi trágico, o último, ou seja, aquele que definitivamente negou o mito como o representante da verdade, foi a ciência. Cientificamente, a verdade é a sua única representante, sendo, inclusive, dispensada de representar-se, pois, uma vez sendo universal e extemporânea, é a única que pode prescindir de contemporaneidade. A verdade pode ficar guardada, e até ser esquecida, pois não se corromperá longe da audiência humana. A própria existência do mito é a prova de que as verdades estiveram imemorialmente alhures, incólumes, e nem um pouco ansiosas por serem sacadas da ordenação caótica do cosmos.

Porém, assim como a tragédia perpetrou o mito no mesmo movimento de revolucioná-lo, é de desconfiar que a ciência, por distante que se pressuponha das ilusões míticas, também tenha preservado em si algo delas. Até os físicos pós-modernos, na fronteira universal última do Bóson de Higgs, não escapam de pequenos e múltiplos mitos para dar sustentação às suas teorias. Caso aquilo que esteja além da partícula de Deus última esconda verdades que a negue, ou seja, a verdade – o que é bem provável – todo esse edifício cairá. Por conseguinte, a grandiosa narrativa de mais essa queda será nada mais que a reassunção, agora no coração da ciência, de que os mitos estão aí para lembrar-nos da trajetória incerta, trágica e repetitiva do homem no cosmos.

Se o mito é a primeira e última forma através da qual o homem conta-se a si próprio, sustentando-se justamente em sua insustentabilidade, dado que, por antiquíssimo que seja o homem, é mais fácil acreditar que a chama de Prometeu é uma bela ficção funcional que uma verdade inquestionável, sem com isso Prometeu em si ser questionado, é porque o homem é um mito ele mesmo. Logo, todos os passos para longe de si, e em direção à verdade, isto é, a História, são apenas os estágios humanos nesse percurso – trágico filosófico científico – que gera, ao trilhá-los, os infinitos pontos da circunferência mítica que é o homem. Circunferência essa que precisa nunca ter o seu centro alcançado, pois, caso o mito, enquanto periferia da verdade que é, seja quebrado de vez, perde-se definitivamente esse centro aonde a suposta verdade foi projetada.

O mito, portanto, é o modo humano de inventar verdades através do circunvagar em torno de pontos que nada representam além de duvidas insolúveis. A única verdade é esse movimento orbital mesmo, o movimento verdadeiro dos seres no universo. Deixá-lo, na fé de encontrar causas e princípios que não o próprio homem, centripetando-se em direção ao seu centro ou centrifugando-se para longe dele, é desertar o moto-contínuo da existência humana. Entretanto, a mudança de órbita só se dá, de acordo com as leis físicas e míticas, quando outro centro, de força gravitacional maior, impõe nova órbita. Estamos condenados a vagar em torno das nossas próprias questões – e elas são muitas -, projetando em todas elas centros a serem alcançados a partir do perímetro das nossas possibilidades. O mito é a primeira e última, verdadeira e única, e também a mais bela dança, sempre contemporânea, na qual piruetamos em torno – e em fuga – das extemporaneidades que ameaçam a estabilidade de todos os “agoras”.

Anúncios

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s