Uma mítica experiência antidepressiva

Depois de 40 anos usando somente antidepressivos orgânicos e culturais, tais como marijuana, amor, arte e filosofia, deparei-me com uma situação aonde nem eles funcionaram mais. Em janeiro do corrente ano perdi a minha irmã, Graziela, e, junto com minha família, entrei na inescapável sensação de luto que acompanha uma perda irreparável. Porém, ao contrário da melhora que a purgação do luto promete, minha tristeza cresceu e se debruçou sobre todas as outras coisas da minha vida, chegando, por fim, a matizá-la negativamente por completo. Apesar do suporte da psicanálise, cuja presença é mais antiga que a morte da minha irmã; da filosofia, que me saca deste mundo, sobrelevando-me acima das suas contingências; da presença dos amigos, com quem divido as minhas dificuldades e, melhor, com quem esqueço prazerosamente delas; eu senti que precisava de ajuda extra, isto é, química.

Minha analista achou uma “boa ideia” eu ir a um psiquiatra que me receitasse um antidepressivo adequado. Embora eu tenha desconfiado de início da sua sugestão, pois parecia-me haver algo de errado no fato de um psico me “enviar” a outro – da mesma forma que desconfiaria do marceneiro que dissesse que eu preciso de um carpinteiro, ou de um ferreiro que indicasse um serralheiro -, fui ter com o neuropsiquiatra. Este, depois de ter perguntado qual era o meu problema, fez uma série de perguntas de ordem pragmática, entre elas, se eu estava me alimentando adequadamente, asseando-me normalmente, cuidando da aparência, tendo com amigos e familiares, e se havia coisas que me estimulavam cotidianamente. Minhas respostas foram todas verdadeiramente afirmativas. Diagnóstico do neuropsiquiatra: “você não está sofrendo de depressão, mas sim de pessimismo”.

Meu viés filosófico-niilista-cético intrigou-se com esta definição que, de fato, surpreendeu-me. No entanto, foi a dogmática pessoa romântica-barroca, de sentimento&osso, que se alegrou por não estar, clinicamente, deprimida. Mesmo assim me receitou um remédio que, segundo ele, melhoraria a minha situação. De posse dos simultâneos tratamentos psicanalítico, psiquiátrico, filosófico e químico, entreguei minhas angústias não nas mãos de Deus – quisera eu acreditar na sua onipotência -, mas sim nas de um panteão intelectual eclético, pupulado por Freuds, Lacans, Platãos, Aristóteles, Coens, Allens, Skrillex e Mozarts. Fui-me antideprimir, portanto, em boas companhias.

Na fase inicial do tratamento químico, que durou umas três semanas, era esperado somente alterações físicas, não psicológicas. Meu primeiro sintoma foi uma constante dor de cabeça que não cedia sob analgésico algum. Era uma cefaleia atípica, não localizada; parecia que a minha cabeça estava sendo insuflada contra o limite rígido e último do meu crânio. Essa pressão interna se espalhou para os membros e, em poucos dias, tinha a forte sensação de que o meu interior desejava explodir para fora da superfície corpórea que o continha. Era como se não houvesse espaço algum entre a minha alma (sem conotação transcendente alguma – alma ou espírito apenas enquanto “ânima”) e a minha pele. Faltava-me espaço entre eu e eu mesmo. Uma intensa e descontrolada sonolência também se fez presente nessa adaptação química, alterando meus regulares horários de sono e vigília. Passei a precisar, nalguns dias, de ir dormir às cinco da tarde; em outros, às onze da manhã. Em cada um daqueles dias as “noites” tinham os seus próprios horários.

Depois de um mês, esses efeitos desapareceram – ou acostumei-me a eles -, e, imediatamente liberto da angústia que vinha me assombrando, a vida se mostrava positiva novamente. Tão positiva que, depois de três meses de comprimidos matinais, percebi, longinquamente, algo estrando, para não dizer paradoxal, acontecendo. Sob a velha sensação de bem-estar com a vida que o antidepressivo trouxe de volta, sintomas fortemente depressivos se arraigavam sorrateiramente no meu dia-a-dia. Embora me sentindo ótimo, percebi que eu não estava me alimentando bem nem regularmente, passava dois ou três dias sem tomar banho nem trocar de roupa – cuja função passou a ser a de roupa-pijama -, havia deixado de socializar com meus amigos, e minha casa deixou de ser limpa e organizada. Espanto!

O paradoxo estava no fato de que, antes, quando estava me sentindo deprimido internamente, minha vida não apresentava sintomas depressivos externos. Porém, uma vez liberto da sensação de depressão, por efeito do remédio, e em paz comigo mesmo, os sintomas indicadores de depressão apontados pelo neuropsiquiatra naquela consulta se faziam materialmente presentes ao meu redor. Consciente disso, eu não pude deixar de me questionar, filosoficamente, sobre o que era melhor – ou, platonicamente, o que era o bem: se sentir-me deprimido sem sê-lo de fato, ou ótimo, porém, sobre um chão imundo de sintomas depressivos. A resposta a essa questão foi a decisão de parar com tratamento químico sob a advertência médica de que isso deveria se dar de forma gradual. Então, passei a reduzir paulatinamente a dosagem do antidepressivo a fim de deixá-lo.

Entretanto, os sintomas físicos decorrentes desse “detox” foram contrários aos do “intox”. Aquela dor de cabeça de antes, isto é, a forte pressão interna em direção ao exterior, se inverteu. Passei a sentir um espaço vazio sob a pele, uma espécie de interstício preenchido de nada entre as duas coisas que chamo de “eu”, isto é, o meu espírito e o meu corpo. Esse “descolamento” de mim percebido logo abaixo da minha pele era incomodamente presente quando eu, de repente, virava a minha cabeça ou movimentava os meus braços, pois, só depois de alguns segundos é que a minha alma parecia seguir, num tempo só seu, a coreografia dos movimentos ordinários. Minha cabeça voltava-se sozinha para algo do mundo e, anacrônica e preguiçosamente, o meu interior a acompanhava. Já aquela impossibilidade de vencer o sono na fase inicial do antidepressivo transformou-se, na final, em uma insônia constante na qual, mesmo exausto, eu não conseguia dormir.

Restaram-me inquietos no pensamento os extremos dessa experiência antidepressiva, tais como a inicial sensação de pressão explosiva, e a final, a de um vazio implosivo. Com a intoxicação química a minha alma insistia em ser maior que o meu corpo, forçando-lhe os limites. Na desintoxicação, não obstante, a alma parecia encolher-se em fuga do mundo e, inclusive, de mim mesmo. Inicialmente, uma certeza de que o espírito e o corpo estavam sendo obrigados a serem um só, e finalmente, a certeza de que eles eram duas coisas claramente distintas, distanciadas por um sensível espaço físico. A presença imperiosa do sono, primeira, e a sua presente ausência derradeira, também dicotomizaram essa experiência antidepressiva. Antideprimindo eu tinha os momentos de paz, e afora estes, o sono absoluto. Já “desantideprimido”, uma vigília ininterrupta que me obrigava a contemplar tanto a paz quanto a guerra, num exercício exaustivo de assunção de que ambas eram, inalienavelmente, uma coisa só.

Após tudo isso, completamente “desantideprimido”, sem mais perceber guerra ou deserção em demasia entre corpo e alma – como as quimicamente dramatizadas na arena do meu ser -, percebo as figuras pelas quais passei nessa experiência como etapas necessárias à vida, tanto a do corpo quanto a da alma. Ser a um só tempo corpo e alma, sem intervalo algum entre eles, até a negação sensível dessa separação; ver a alma sucumbir às necessidades do corpo e cair de sono em pleno meio-dia; usar o tempo apenas em função das coisas prazerosas, a despeito absoluto das tarefas cotidianas; encarnar e habitar o vazio impreenchível que nós, humanos, inventamos e percebemos entre corpo e alma; permanecer acordado indefinidamente, não só para fruir os prazeres, mas também para cumprir com as tarefas mundanas; voltar a cuidar de si e a assear a casa após uma bagunça emergente; tudo isso deve fazer parte da vida simplesmente porque já faz parte dela.

Os “comprimidos” antidepressivos, de certa forma, “descomprimiram” essas múltiplas e contraditórias experiências que, a cada instante, são a vida em sua expressão genuína. Foi quando me escapou a coabitação necessária dessas dimensões da existência, e algumas delas passaram a figurar como impróprias, que fiquei doente. Deprimido porque reprimindo a pluralidade sensível da vida. Os “comprimidos” serviram para mostrar o nível de compressão – e de incompreensão – à qual, eu mesmo, havia me sujeitado diante dos fatos. A química antidepressiva descomprimiu a vida da vida diante dos meus olhos obtusos que outrora passaram a ver, impertinentemente, falta de vida nela mesma. Quimicamente, a vida foi espraiada, e seus momentos foram delongados para além de suas próprias pertinências até que aquele pessimista-deprimido pudesse percebê-los de corpo e alma, sem negá-los; reconduzindo-os harmoniosamente em direção à pequena guerra existencial que reside em cada mínimo instante vivido.

O ciclo de eventos experimentados através dos antidepressivos ao longo de alguns meses restaurou, ao meu corpo e à minha alma, a sã consciência de quão mítica a vida é e deve ser: repetindo-se ao repetir eternamente o melhor e o pior de si, em qualquer fatia de tempo que tomemos. O restauro da minha saúde psíquica passou pela apercepção de que a felicidade é um mito, isto é, um movimento cíclico que, no seu reciclo eterno, não me privaria de todos os seus infinitos pontos. Já a doença, ou no meu caso o pessimismo, era a tentativa de linearizar-me historicamente a partir de um passado idílico que desejava um atalho direto a um futuro utópico, transformando o presente – através dessa projeção linear mesma – numa promenade impossível a separar-me da paz. Historicizando-me, agi como o historiador que comprime a inabarcável miríade de eventos vívidos e concretos em fatos icônicos, abstratos e insuficientes. Para essa compressão absurda, comprimidos antidepressivos! Entretanto, mitificando-me, reinseri na vida a certeza de que tudo passa e fui, não em direção a um desconhecido angustiante, mas às figuras evidentes da vida, que, por piores que sejam algumas delas, desaparecem na eterna curva que é o ciclo da existência, dando, sempre, lugar a outras, inclusive às suas opostas complementares.

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