Humanidade alienígena

O ser humano, produtor e produto de sua autocultura, não se priva de criar mundos e deuses à sua imagem e semelhança. Talvez a bíblia traga essa verdade de forma invertida para dissimular tal natureza nossa. A projeção de si próprio sobre o universo desconhecido, e cujo empreendimento é o próprio homem, encontrou na imaginação do que viria a ser o “alienígena” dificuldades maiores que na imaginação das suas próprias divindades. Tanto os aliens quanto os deuses demandam nossa fé, isso devido suas insuficiências empíricas. Entrementes, Deus não é mais esperado que coloque seus etéreos pés na superfície terrena, enquanto os alienígenas gozam, ainda que nas nossas imaginações, de um horizonte de possibilidade.

O homem é o ser através do qual quimeras ascendem ao cosmos. Estas criações, por se tratarem do humano em sua expressão mais elevada, sintomaticamente apresentam-se como que algo exterior e independente dessa criatividade originária. Durante séculos se investigou de onde vinham as ideias de fadas, duendes e unicórnios. Porém, foram Locke e Hume que, empiricamente, mostraram que todas elas eram nada além de um “pout-pourri” das imagens com as quais os homens já representavam a natureza. Era precisamente a impossibilidade da coexistência das asas dos pássaros nos corpos das ninfas que mentiam a autenticidade das fadas; a mesma coisa com os unicórnios, ou com qualquer outra quimera de múltiplas cabeças, pois basta conhecer uma única cabeça para que seja possível multiplicá-la animicamente a despeito das contingências da natureza.

As HQs e o cinema foram as artes que mais idealizaram o extraterreno à real curiosidade terrena acerca de outros mundos. No entanto, estas representações artísticas sempre padeceram de realidade justamente pela proximidade que tinham com quem as idealizava. De todas as possibilidades formais do universo, inclusive as múltiplas existentes nosso minúsculo planeta, nossos aliens insistiram em aportarem por estas bandas demasiado antropomorfizados. Se nos filmes a vida no universo se mostrou tão sem criatividade, a culpa não é dos filmes, muito menos do universo. Falta-nos, portanto, a capacidade de imaginarmos o inimaginável sem que ele seja representado por algo já imaginado. Deus é sempre o melhor exemplo disso, pois, embora pensado enquanto “tudo”, sua forma e suas paixões são tão particulares quanto as nossas; melhores somente no tanto que desejamos que as nossas o fossem.

Na ficção científica “O Limite do Amanhã”, estrelado recentemente por Tom Cruise, a projeção alienígena humana avança para longe do homem como nunca antes. Neste filme, vemos seres com características que escapam às caracterizações com que usualmente ilustramos o desconhecido extraterrestre. Os aliens que atormentam Cruise são-nos amorfos apesar de terem uma forma própria; são materiais embora não se tenha ideia de que matéria poderiam ser feitos; movem-se diante dos nossos olhos em um movimento impossível de ser decodificado; preservam-se destruindo-se violentamente contra tudo que encontram pela frente. Vê-los é precisar seguir os vendo, ainda que olhá-los não nos revele o que e como são. Essa nova geração de ETs cinematográficos, por conseguinte, proporciona a experiência mais próxima daquela que teremos quando nos depararmos pela primeira vez com ETs reais, se de fato eles existirem, ou seja, a da suspensão do juízo por incapacidade absoluta deste em ajuizar o inajuizável.

Porém, como o homem não se ausenta totalmente das suas criações, as únicas coisas que se pode perceber de comum entre ele e aqueles aliens “do amanhã” é o fato de ambos matarem e morrerem. Isso, contudo, diz muito mais do humano que do alienígena, dado que não se tem prova alguma de que os extraterrestres possuam o ímpeto de matar ou o fardo de morrer. Entretanto, por mais que neguem semelhança conosco, os aliens de Cruise ainda são nós mesmos em nossa expressão mais transcendente. Logo, cabe indagar “o que” do homem está expresso nessa surpreendente quimera hollywoodiana.

O ET de Spielberg era a singela encarnação daquilo que o homem desejava que estivesse mais distante de si naqueles 1980, ou seja, carência, desconjuntura, estranheza, sobrepeso, baixa-estatura, ingenuidade, a-nacionalidade, etc. Já o ET de Cruise em sua proposital inapreensibilidade provavelmente seja o último artificio humano no sentido de alienar o homem da sua contemporânea incapacidade de auto-apreender-se. Michelangelo pediu para o seu Davi “parlar” não porque o mármore esculpido parecia-lhe mudo, mas justamente por dizer-lhe muito. As criaturas finalmente conversam com seus criadores! Da mesma forma, o ininteligível alienígena que pasmou Cruise – enquanto obra última do imaginário humano – deve ser solicitado a dizer-nos aquilo que nele mesmo nunca se calará, isto é, o que eu, homem, desejo através das minhas criações.

Os aliens, até hoje, não vieram ao nosso mundo, portanto, nunca tiveram nada a nos dizer. Somos nós, por conseguinte, que em uma inversão narcísica tagarelamos de nós mesmos através deles. Não há uma ideia única e perene de alienígena nas nossas ficções, mas muitas – todas elas absolutamente históricas -, porque temos sempre coisas novas a dizer e a alienar de nós mesmos. Logo, nossas quimeras – as figuras ferramentais da alienação – devem ser muitas e extensíveis. Imaginemos o que aconteceria com a nossa ficção alienígena, e com a autoanálise que ela proporciona à consciência humana, após o contato com extraterrestres reais. Estaríamos doravante privados de projetar livremente o terreno no extraterreno e impedidos de expressarmo-nos, tautológica e solitariamente, na lousa virgem do universo; ou seja, obrigados a enxergar no universo um universo que não nós mesmos.

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