A estratégica subversão demagógica

A demagogia, técnica antiga forjada na Grécia, significa, positivamente, “a arte de conduzir o povo”. Entretanto, tonaliza-se negativamente quando seu escopo tende à manipulação das massas. Aristóteles bem colocou que a demagogia é a forma através da qual a democracia é corrompida em favor daqueles que, doravante, conduzem e manipulam os demais. Porém, essa ferramenta sócio-política, tão antiga quanto os grupamentos humanos, não pode ser alienada da vida das sociedades, dado que a sua presença histórica, ainda que de matizes anti-sociais, atende à certas necessidades dos homens nos momentos em que desgovernam-se, eles mesmos, na busca de suas necessidades essenciais.

Lula foi um presidente democrático, sem dúvida. No entanto, em certa medida, foi demagogo, mas não de todo. O presidente operário conduziu as massas, sim, uma vez que elas tinham perdido a capacidade de se autoconduzirem na engessada e elitista estrutura legada pela longa era militar brasileira. Felizmente, o coquetel político – platonicamente nato – presenta na figura de Lula – figura essa, friso, parcialmente demagógica – conduziu as massas para uma condição melhor. Claro, fosse este governante apenas, ou demasiado demagógico, ele não teria se mantido no poder por dois mandatos fortemente aprovados pela população nem teria elegido uma sucessora sua, esta, em vias de reeleição.

É importante reconhecermos a função estratégica, e inclusive salutar, que certa dose de demagogia pode ter no nosso devir sócio-político; da mesma forma que a tirania, a despeito das conotações que nós, modernos-pós-modernos, atribuímos a ela, em determinadas ocasiões e por determinado período foi positiva. Os antigos gregos e etruscos, de acordo com Fustel de Coulanges, na translação do poder sacerdotal para o político, chamaram, sem receio, esses novos líderes urbanos de “tiranos”, porquanto “Reis” eram aqueles que, desde sempre, intermediavam com o divino. Os primeiros tiranos, portanto, foram os que libertaram os sedentos assuntos sociais humanos dos acachapantes desígnios divinos; e os tiranos só ascenderam ao poder porque fortemente aliados às mais imperiosas necessidades populares, tais como o cancelamento das dívidas públicas, a reforma agrária e o fim da escravidão. Só um tirano para ir contra o poder estabelecido!

O problema da tirania, entrementes, é a sua permanência para além da revolução que representa. E isso vale para todas as formas de governo, pois o mal da demasia é imanente às instituições humanas – o mal da Cultura é cultuar-se! Logo, a permanência insistente não é predicado exclusivo da tirania, nem da demagogia; visto que nem o amor, a mais sublime das invenções dos homens, dura tanto quanto a presença daquele que é amado O problema, na verdade, não são as figuras com as quais o poder se representa no incessante devir político, mas sim a insistência delas uma vez caducas em relação às sempre renovadas necessidades populares. Essencial, hoje, é perceber quando a demagogia ultrapassa o limite positivo da condução e age no negativo sentido da manipulação, dado que a demagogia, mais-valendo-se livremente, e abstraída dos anseios populares, deságua não na tirania, mas sim na oligarquia, isto é, no governo de poucos.

De todas as formas demagógicas, as mais danosas são as religiosas, porquanto manipula no sentido de engodos transcendentes, ou seja, o final merecimento do reino dos céus. A atual candidata religiosa à presidência, Marina Silva, junta o pior dos dois mundos demagógicos na equação política que é. Essa candidata nada laica é uma duplicação demagógica: promete conduzir a população em um caminho mundano-político evolutivo no mesmo discurso em que prega um manipulado criacionismo divino-moral que, não obstante, contradiz qualquer evolução. Marina e sua corja evangélica entram em uma contradição que eleva a demagogia a uma potência tão perigosa quanto insustentável. Ela é sobredemagógica: suas palavras mentem condução, quem as fala evidencia manipulação, e a acolhida destas palavras gera, infelizmente, uma massa engodada e alienada.

Todavia, não é o caso de injuriarmos a demagogia e de bani-la imediatamente. Sua distância se dá a partir de grandes movimentos históricos. Melhor seria aceitarmos o tanto de demagogia que esse nosso momento expressa e, sobremaneira, carece, pois só assim poderemos lidar com essa arte sócio-política num sentido positivo. O que chamamos, hoje, de democracia, para Aristóteles, é a demagogia em sua presença plena, pois, diferente da democracia grega, cujo pressuposto básico era a participação política direta de todos os cidadãos nas decisões coletivas, a nossa é demasiado representativa, entregue às mãos de poucos eleitos para nos conduzirem em nossos interesses. Logo, sob o nosso ideal democrático esconde-se sorrateiramente um real demagógico, e essa democracia cenográfica só se sustenta devido à força do texto demagógico que conduz a trama social atual.

Portanto, não é o caso de, nestas próximas eleições, escolhermos candidatos que não sejam demagógicos, visto que não há política não-demagógica disponível na contemporaneidade. Muito menos o voto em branco nos serve, porquanto o valor desse ato político – fantasiado de apolítico, ou mesmo de antipolítico – valoriza diretamente o tipo de demagogia mais perniciosa, a sobredemagogia, ou seja, aquela cujo real interesse é o de manipular e ludibriar a massa, não o de conduzi-la. Embora estejamos momentaneamente impossibilitados de representarmo-nos diretamente na arena política brasileira, e isso devido à representatividade demagógica que mantemos eleita, podemos e devemos agir, ainda que indiretamente, conta os piores tipos de demagogia que nos espreitam.

Se a nossa democracia é aristotelicamente demagógica, tal é a nossa política. Logo, a ação política mais apropriada ao cidadão atual não deve ser a inocente democrática, mas sim a cínica demagógica. Pois somente apropriando-nos subversivamente desta “arte de conduzir”, e invertendo-lhe o foco, isto é, tornado artificial o próprio artifício, é que poderemos manipular os diferentes modos demagógicos que nos manipulam a fim de conduzir ao poder aquele que conduzirá as nossas necessidades cidadãs à luz da ação. Se nós, conjunturalmente, precisamos ser conduzidos, que essa condução não nos escape completamente, ou então estaremos entregues às manipulações demagógicas mais abjetas e vazias que, no caso brasileiro atual, vêm das mãos dadas da crente Marina e do inacreditável Malafaia; mãos evangélicas ansiosas para manipularem demagogicamente a massa para além e em absoluto detrimento das reais e contingentes necessidades desta.

 

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