Bege Pantone-7×1

Deixamos de ser – ao vivo, em cores e em HD, para o mundo todo e, principalmente, para nós mesmos – o país do futebol. Agora, somos apenas um entre tantos outros onde simplesmente se pratica esse esporte. Acordamos no Brasil que restou: aquele pobre, caótico e atrasado que se quer rico, em ordem e em progresso. Oxalá essa vigília dolorida e indesejada – em quatro anos afastada de uma possível recuperação do histórico título perdido – possibilite ao Brasil ser tantos outros quanto precisam os seus brasileiros.

Merecemos um país melhor em muitas outras coisas que não somente no seu próprio ópio; sem com isso desdenhar da importância da nossa cachaça, é claro. Hume já dizia que é “feliz aquele com cujo caráter as circunstâncias estão em acordo; porém, mais excelente é aquele que pode levar seu caráter a entrar em acordo com não importa qual circunstância”. Por conseguinte, é com essa dura realidade padrão Brasil, que estaria reluzentemente alienada sob os quilos de ouro da taça que não é ser nossa, que devemos levar nossos caráteres a entrarem em acordo. Afinal, o que nos resta?

Todo um Brasil precisa ser inventado fora das arenas padrão FIFA e sobre o nosso verde&amarelo desbotado. Ainda bem que “o homem é uma espécie inventiva”, afirmou Deleuze. Entretanto, esse “todo” é apenas a coleção abstrata de suas partes, já estas, concretas, são cada um dos milhões de brasileiros em suas reais necessidades. E já que “a necessidade é natural, mas a satisfação da necessidade só pode ser artificial, industrial e cultural”, como nos advertiu Hume, cabe-nos agora fazer do Brasil uma máquina azeitada que funcione em benefício das suas centenas de milhões de engrenagens.

Manteremos com o futebol a velha paixão de sempre? É bem provável que sim, mas devemos tirar dessa derrota semifinal uma lição mais importante: a de sermos apaixonados inclusive por aquilo que nos envergonha! Tal relação, seria bom que trouxéssemos a outro campo, o da política, que tanta decepção nos causa, e que por isso mesmo dele nos alienamos vergonhosamente. Todavia, aponta Deleuze, “não basta que a paixão se imagine; é preciso que a imaginação se apaixone ao mesmo tempo”. Logo, mais do que só desejarmos um país melhor, devemos nos apaixonar por tal imagem, como certamente faremos por uma seleção melhor; só assim não desinvestiremos da imagem desejada.

Não somos habituados a amar o que não paga esse sentimento na mesma moeda; vide a raiva e a incredulidade sobrevindas após o apito final no Mineirão, bem como as muitas intenções de votos em branco nas próximas eleições. Porém, como escreveu Bergson, “os hábitos não são da natureza, mas o que é da natureza é o hábito de contrair hábitos”. Portanto, não há nada de sobrenatural em nos habituarmos ao envolvimento político mesmo quando os nossos políticos não se envolvem verdadeiramente conosco; da mesma forma como há um século somos habituados a permanecer fiéis ao futebol mesmo nas – muitas – vezes em que perdemos.

Da midiática disputa entre as seleções na Copa à construção política e social do nosso país, “quantos conflitos menores não é necessário resolver quando se passa do devaneio erradio ao vocabulário racional?”, pergunta-nos Gaston Bachelard. Exigir assertividade tática de onze solitários brasileiros em campo certamente é mais fácil do que exigi-la de nós mesmos, os duzentos milhões no campo de batalha subsistente sob o calendário da FIFA. O que fazer nesse vazio deixado pela nossa seleção que, não obstante, é pleno de um país inteiro? Respondemos com Deleuze: “crer e inventar, eis o que faz o sujeito como sujeito”.

O nosso carnaval fora de época chegou à sua angusta “Quarta-feira de Cinzas”, e estejamos todos “bege pantone-7×1”. Isso por que, de acordo com Hume, “nosso sentido do dever segue sempre o curso habitual e natural de nossas paixões”. Entretanto, se invertermos a afirmação do filósofo, e nos colocarmos apaixonadamente no sentido do nosso dever, seremos menos derrotados na partida que é nossa e à qual estamos inalienavelmente sujeitos. Afinal, concluindo com Deleuze “o sujeito é essa instância que, sob o efeito de um princípio de utilidade, persegue um alvo, uma intenção, organiza meios em vista de um fim”. E que fim melhor ao Brasil que um Brasil melhor?

>>>>> Texto vendido para a chamada criativa da Its.noon na campanha: “QUE MUDANÇA POSITIVA UM 7X1 DESPERTA EM VC?”

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