O limite das palavras

Humano e linguagem são uma coisa só, inextricáveis, pois, separados, há novamente o velho animal em sua solipsista instintividade. No entanto, sendo a linguagem a própria existência humana, por que, no final das contas, cindiu-se em palavras diversas? De certa forma, podemos ver a linguagem como a expressão genuína da imprecisão incontornável da condição humana. O mundo é a caixa de ressonância das palavras que dizemos e pensamos, e inclusive o menor “gesto físico não é uma forma de contornar a linguagem, visto que só no âmbito da linguagem é que ele conta como gesto”, afirma Terry Eagleton. Logo, a liberdade que a linguagem nos proporcionou em relação à natureza nos aprisionou em outra, a nossa própria, a humana. Esse movimento, de certa forma, não nos afastou da velha imprecisão-ambiente das savanas ancestrais, pois, para Eagleton, “a linguagem ajuda-nos a libertar-nos da casa-prisão dos nossos sentidos, ao mesmo tempo que nos abstrai prejudicialmente deles”.

Essa abstração em relação aos nossos sentidos de que fala o filósofo – fruto da linguagem, ou, a mesma coisa, da humanidade –, outrossim, é a abstração irreconciliável dos sentidos universais que nos prometem as palavras que usamos para nomear nossos sentidos individuais. As palavras se oferecem como atalhos que, não obstante, revelam-se desvios, porquanto, de acordo com Hume, “somos obrigados a reconhecer em palavras aquela necessidade que já temos reconhecido em todas as deliberações de nossa vida e em todos os passos de nossa conduta e de nossas ações”. Portanto, não somos livres para ser até que essa alforria seja dada pela linguagem. Submetida ao senhor linguístico, essa liberdade é eternamente escrava, e a subjetividade cativa é obrigada a pastar dentro dos limites do campo semântico daquele. O “Black Bloc” Guatari grita da senzala: “não são os fatos de linguagem nem os de comunicação que produzem a subjetividade. Ela e manufaturada como o são a energia, a eletricidade ou o alumínio”!. Todavia, o filósofo teve de se submeter às letras capatazes no manifesto de sua subjetividade linguisticamente oprimida.

As palavras são, por conseguinte, as donas dos nossos sentidos; melhor, são esses sentidos mesmos. Era exatamente isso que disse Wittgenstein ao limitar o mundo do homem aos limites de sua linguagem. Somos tão escravos da nossa natureza humana-linguística quanto os animais caídos na natureza muda de outrora, e essa impossibilidade de liberdade se dá, de acordo com Eagleton, porque “as bases da própria linguagem são porosas, de contornos difusos, indeterminadas, intrinsecamente inconsistentes, nunca exatamente idênticas a si próprias”. Linguisticamente temos acesso a um universo inteiro de sentidos, no entanto, em meio a essa abundância semântica, temos de trabalhar arduamente na escolha de termos que expressem, com certa precisão, os nossos sentidos particulares. Só que, uma vez feita a delimitação léxica máxima, ou seja, a escolha da palavra perfeita, ainda assim ela é absolutamente livre do sentido particular que orientou-nos na sua escolha dentro do mar revolto de sentidos e palavras. Nossas palavras têm tantos sentidos quantas forem as vezes que forem tomadas; inclusive para nós mesmos as nossas precisas palavras insistem em dizem sempre coisas novas, muitas delas negando as que já foram ditas sob esse mesmo nome.

A própria filosofia é alimentada pela abertura inerente das palavras. Sócrates já perguntava ao Estrangeiro de O Sofista: “Já que nos encontramos em dificuldades, compete-vos esclarecer o que quereis indicar, quando pronunciais a palavra Ser”. Hume, consoando com o filósofo grego, afirma categoricamente que “até agora toda a controvérsia tem girado em torno de meras palavras”, visto que cada uma delas comporta uma multidão de sentidos que, não obstante, roubam sua objetividade pressuposta. Entrementes, a própria busca filosófica pelo ser uno que supostamente se esconde por trás das palavras, através do ferramental linguístico, acaba abstraindo ainda mais este já plurívoco ser. Isso ficou claro à Freud quando ele afirmou que “os filósofos expandem o sentido das palavras até que estas mal conservem algo de seu sentido original; chamam de “Deus” qualquer abstração nebulosa que criaram […], embora o seu deus seja apenas uma sombra sem substância”. Os ontólogos, contudo, “discordam somente em palavras e não em seu sentimento real”, contrapõe Hume. Mas, não estaria esse “sentimento real”, com o qual os filósofos deveriam concordar, impossibilitado justamente pela representação que os nomes prometem aos sentimentos individuais desejosos de expressão?

“É raro que as palavras não impliquem intenções e armadilhas”, adverte Deleuze, já que, para esse filósofo, a linguagem “tem como propriedade ser sempre deslocada com relação a si mesma”. Disso decorre o sentimento de realização quando conseguimos, final e arduamente, nos aproximar, através das palavras, daquilo que gostaríamos de dizer; ou quando outrem entende, sem muito distanciamento, um pensamento nosso. Isso porque, segundo o linguista Le Baphomet, “nos lembramos das palavras, mas seu sentido permanece obscuro; ou então o sentido aparece, quando desaparece a memoria das palavras”. Estamos, de certa forma, envolvidos com a linguagem através de um feitiço ao estilo do de Áquila, ou seja, quando precisamos da linguagem para ser, dado que sem ela não somos, ela é potencialmente perfeita. Entretanto, no exato instante que a tocamos ela não é mais, e, órfãos do desejado significado essencial, somos sem ela novamente. Foi nesse sentido que Deleuze disse que até os mestres das palavras, isto é, até “o escritor se serve de palavras, mas criando uma sintaxe que as introduz na sensação, e que faz gaguejar a língua corrente”.

No cruzamento das paralelas – e superpostas – subjetividade e linguagem, Sócrates chamou a atenção de Górgias: “se pusesses em dúvida minhas palavras e eu te mostrasse o punhal, decerto me observarias”. O grego, ali, queria dizer que, apesar das palavras serem o modo humano estabelecido de compartilhamento das coisas reais, estas não têm, devido sua natureza pré-linguística, a forma dos nomes que as carregam, carecendo, sempre, de significação extra quando conduzidas linguisticamente. Na sequência do diálogo platônico, Górgias, o sofista que usa a retórica como via excelente de realização, a contragosto corrobora com a intuição de Sócrates de que, no solo da linguagem, nada sabemos. O sofista perde a fala quando o filósofo lhe pergunta: “Não percebes que só estás empregando palavras e que nada esclareces?”. As palavras, portanto, são as formas através das quais inventamos o abandono do real, construindo, com elas, as presentes ficções das nossas realidades. Remontando ao animal pré-linguístico que desejava se elevar em relação às vicissitudes da natureza, o homem, através da linguagem, afastou-se do real ao preço de ser inalienavelmente um nômade linguístico que tagarela no vazio outrora preenchido pela natureza.

Por conseguinte, simples questões filosóficas, como quando nos perguntamos o que significa, por exemplo, “justiça”, ou “amor”, tornam-se digressões infindáveis que precisam de cada vez mais palavras além daquelas que, singularmente, deveriam traduzir inequivocamente seus conceitos essenciais. Na realidade, existem infinitas coisas completamente diferente umas das outras que são encurraladas em uma mesma sequência de letras, e esse é o grande problema das palavras. Houvesse nomes próprios para cada um dos muitos diferentes sentidos que insistem em brotar das insuficientes palavras “justiça”, “amor”, e principalmente da palavra “ser”, a filosofia provavelmente nem teria surgido. No entanto, uma vez que as coisas são sempre mais que os singelos grafismos que as alicerçam no mundo, a filosofia é fundamental. Já que a linguagem não é, de fato, o terreno do real, mas sim a forma humana de escapar dele, a filosofia é a ciência-mor através da qual reencontramos o chão perdido. Através da linguagem deixamos, sem dúvida, de ser animais. Logo, somos essencialmente linguagem. Porém, de posse dessa nova modalidade de existência, não nos rogamos em, impetuosamente, autonomearmo-nos “humanos”, embora a própria filosofia não tenha conseguido, em mais de vinte e cinco séculos de árduo exercício, encontrar palavras para descrever essa coisa.

Ironicamente, “coisa” é a palavra mais inequívoca de todas, ou seja, a que menos carece de definição justamente por ser a evasiva linguística mais genuína que não erra em apontar a evasão que a própria linguagem é em si. Provavelmente o primeiro corpúsculo linguística veio atender a essa sensação de “coisa”, isto é, de um “algo” que o homem mesmo era enquanto não era um nome só seu. Deleuze deixou claro que nós “começamos sempre na ordem da palavra, mas não na da linguagem”. Antes da universal “coisa”, nenhuma palavra particular havia, porém, uma vez existindo, todos os outros nomes se fizeram necessários; então, a linguagem. Citando corretamente Wittgenstein, “os limites de minha linguagem significam os limites de meu mundo”, percebe-se o limite ao qual estamos sujeitos desde que deixamos aquela natureza animal em direção à humanidade. Entrementes, emigrando dessa fronteira significativa-linguística, e evadindo do sentido da máxima do filósofo, podemos concluir que é somente para além dos limites da linguagem que deixa-se de ser limitado pelo mundo, pois só assim pode-se ser, sem contradição alguma, todas as antagônicas significações que digladiam eternamente sob o nome “humano”, bem como sob qualquer outro.

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