Sofistaria Avant-garde

Embora historicamente estigmatizados, os sofistas foram homens que produziram a primeira grande revolução na nossa antiguidade social, iniciando o desvínculo entre as primitivas instituições humanas e o sagrado. Os sofistas foram, de certa forma, absolutamente modernos em pleno coração da antiguidade, iniciando uma globalização laica das práticas humanas, colocando-as “em rede” e as tornando acessíveis a qualquer terminal humano que pudesse pagar por elas. Podemos, inclusive, enxergá-los como os “Black Bloc” que enfrentaram o poder – sagrado –  estabelecido, botando-o abaixo. Até 300a.C. não havia diferença entre um sofista, isto é, um sábio, e um filósofo, a saber, um amante da sabedoria. Até o grande Sócrates era, muitas vezes, tomado por um sofista. Entretanto, foi Platão que inventou a diferença entre estes dois modos de relacionamento com o conhecimento, dizendo que aquilo que os sofistas faziam era diferente, e menor, do que aquilo que ele e seu mestre Sócrates faziam.

O estrangeirismo doravante ressaltado nos sofistas foi a rasteira clássica com que os gregos os desqualificaram irremediavelmente, visto que, para os antigos helenos, o maior e mais legítimo valor era o de ser um cidadão reconhecido. Entretanto, os sofistas se insistiram presentes. A arte destes sábios injustamente periferizados agiu sobre as primordiais instituições humanas, transformando-as, inclusive para que fosse possível o apogeu platônico da metafísica que os desqualificou retrospectivamente. Nos primórdios da humanidade, o conhecimento era individualizado e com validade estritamente familiar, a ponto de ser ao mesmo tempo sagrado e secreto. Embora estas duas palavras não tenham o mesmo significado, há um sentido comum entre elas, aqui significativo: “inviolável”. Os sofistas, portanto, foram esses forasteiros, ditos ímpios, que violaram esses saberes familiares sagrados e secretos, derramando-os no profano solo social.

De certa forma, a sociedade humana global não aconteceria caso os saberes seguissem particulares e secretos, escondidos na sacralidade dos desconexos núcleos familiares. Logo, os sofistas fizeram as primeiras relativizações epistemológicas ao descobrirem e confrontarem os desencontrados grãos de conhecimento espalhados pelos chãos do mundo. O estrangeirismo errante destes sábios ajudou muito nessa empresa, pois, viajando o mundo, encontravam verdades absolutas locais e nucleares, totalmente diversas e incompatíveis entre si; o que, no final, evidenciava a não existência de verdade universal alguma. Estes apátridas relativizadores trataram de contar – mercadologicamente, de fato – essa que poderia ser a única verdade universal, ou seja, a inexistência de verdades universais. Essa foi a grande afronta sofística ao secreto e sagrado conhecimento que estruturava e individualizava cada família, gen ou fratria antiga, porquanto solapava as sacralidades invioláveis, revelando suas funcionalidades terrenas.

De posse desse novo e universal saber, os sofistas foram os que, laicizando as práticas humanas, primeiramente deixaram de sustentar o populoso panteão divino antigo, legitimador sagrado daquela sociedade, o que foi eternizado na máxima de Protágoras “o homem é a medida de todas as coisas” – sabedoria que só seria desenterrada no iluminismo, vinte séculos depois! Como assim, perguntaram-se os gregos, é o homem a medida? Até então, e indubitavelmente, eram os nossos deuses ancestrais! Platão, o filósofo que degradou os sofistas, via na sabedoria secular destes o impedimento à sua própria teoria do mundo das ideias eternas e verdadeiras, superior e independente dos homens. Portanto, esses sábios que lidavam com o saber de forma desapaixonada e laica, ao contrário dos envolvidos amantes filósofos, sofreram, a partir de Platão, um injusto ostracismo da história epistemológica. Na sequência, somente Aristóteles manteve-se com os pés cravados no mundo físico material, entretanto, depois dele, a caminhada humana foi em direção ao apogeu cristão que, vitoriosamente, alienou a medida universal do homem, coagulando-a num mundo deveras platônico, entrementes,  reinado por um Deus absoluto e onipotente.

Caso a força sofista tivesse sido positivamente reconhecida pelos antigos gregos, o absurdo mundo das ideias ideais platônico, e o seu fruto legítimo, o céu cristão habitado por um deus ideal, teria pervertido menos a terrena história da humanidade. Foi preciso uma Idade das Trevas inteira para que a insustentável negação da medida protagórica caísse por terra e o homem se assumisse, profanamente, como a medida de todas as coisas. A fantasia divina, apesar de ter sido o princípio estruturador da humanidade, foi um conjunto de saberes temporários que, todavia, não se sustentaram quando frente-a-frente na agora. Havia uma verdade mais baixa e simples, portanto mais universal, a de que a verdade absoluta era o próprio homem em sua ignorância em relação ao cosmos, verdade essa que os sofistas descobriram primeiro. A própria evolução histórica lineariza isso, dado que cada época, e suas verdades inerentes, não obstante desvanecem diante das outras, da mesma forma como a verdade sagrada de uma antiga família era negada e solapada pela de outra.

Os sofistas formam chamados de vis mercadores de sabedoria pelos cidadãos gregos que sobrevalorizavam o ócio em detrimento do trabalho. Porém, o calcanhar de Aquiles daquela sociedade grega era a estabelecida escravidão que sustentava o modo contemplativo e vagabundo da tradicional aristocracia política. Trabalhar era indigno para um cidadão-homem-rico-grego, era coisa de escravo. Por conseguinte, os sofistas, ao venderem profissionalmente suas ideias, foram rebaixados ao nível da inessencialidade. Entretanto, da modernidade até hoje, estes artífices do saber que conseguiram transformar em produtos vendáveis as suas visões de mundo não merecem mais tal estigma. Ao contrário, deveríamos prestar homenagem e gratidão a esses aventureiros que, séculos antes de Nietzsche, mataram os deuses e fizeram o primordial parto de uma humanidade prisioneira de um útero tomado, inadvertidamente, como o local sagrado, secreto e familiar das sabedorias essenciais.

Se os muitos deuses familiares, bem como os fálicos&machistas “pater família” primordiais, foram questionados nos fictícios dogmas que sustentavam – e com os quais mantinham cativos os seus -, sendo historicamente derrotados, devemos isso aos sofistas, pois foram eles que, primeiramente, viram o logro do divino-sagrado-secreto sobre o humano. Hoje, para o bem e para o mal, ou para além deles, somos resplandecentemente a medida sofística inquestionável de todas as coisas, pois  sabemos, cientificamente!, que as nossas venturas e revezes não são frutos de desígnio divino algum, mas sim das nossas próprias desmedidas. As verdades humanas são históricas, contingentes e efêmeras, e subsistem pontual e nuclearmente conquanto não sejam questionadas. Porém, uma vez relativizadas, essas verdades particulares padecem precisamente daquilo que deveria ser sua essência substancial, ou seja, de sua validade universal, revelando-se, sempre, ferramentas caídas nas mãos da atávica ignorância humana. Esta foi a desagradável verdade que os sofistas introduziram no fantasioso mundo dos homens, revolucionando humanamente os dogmáticos bancos dos saberes privados.

 

 

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