O fogo prometeico em Hesíodo, Ésquilo e Platão.

O mito de Prometeu, que conta a chegada do fogo divino-cria-ativo aos homens, encontrou em Hesíodo e Ésquilo sentidos distintos e, inclusive, antagônicos. Platão, por sua vez, fez uma interpretação do mito prometeico que, não obstante, integrou as visões daqueles dois no seu sistema filosófico. O incandescente tesouro roubado de Zeus incendiou demiurgicamente os mortais humanos através da “techné” (arte técnica) necessária à lida com a materialidade imperiosa da natureza. O produtos genuíno dessa técnica, não obstante, foi a cultura humana, ou seja, a transformação da natureza em mundo. Por fim, a razão humana em chamas, alimentada pela fogueira cultural, “tecnicizou-se” cientificamente e alcançou a contemplação de um saber universal totalmente independente da natureza, em um processo que nasceu mitológico e findou histórico. Hesíodo, Ésquilo e Platão, respectivamente, fazem esse percurso.

Para Hesíodo, o homem, herdeiro do fogo prometeico, estava condenado a espiar eternamente tal espólio, porquanto, uma vez órfão de sua imortalidade devido a posse dessa herança, precisava sobreviver em meio a uma natureza hostil e atávica, plena de decadência e vicissitude. O antigo camponês-poeta via o humano enquanto aquele que precisava laborar por sua sobrevivência, tarefa cuja liberdade o homem nunca veria. Conquanto dispusesse de técnicas adequadas às suas necessidades esse ser mortal poderia contornar, apenas temporariamente, as adversidades naturais que desafiavam essa indesejada mortalidade. Em Hesíodo vemos uma negatividade inexorável em relação à condição humana, visto que, embora com técnica e conhecimento, a humanidade nunca se livraria da mágoa divina. O Zeus hesiódico, roubado, assemelha-se, em certa medida, ao Deus cristão onisciente e onipotente em relação ao pecado original. Na visão de Hesíodo, o laborar-sobreviver humano através da técnica, apesar de contornar em certa medida a natureza, de forma alguma institui uma libertação cultural.

Já em Ésquilo o fogo prometeico arde de forma mais positiva, pois, apesar de sua mortalidade e falibilidade, o homem, através da chama divina roubada que mantém dentro de si, desdobrada em técnica, pode aliviar-se da contingência natural e, inclusive, instituir um mundo ao seu redor que nada tenha a ver com os deuses nem com a própria natureza. Para o dramaturgo grego, ou o crime de Prometeu era menos grave, visto que o homem podia escapar da penitência divina nas suas instituições culturais, ou seu Zeus furtado assemelhava-se às divindades descritas por Epicuro ao seu pupilo Meneceu; isto é, entretidas em suas bem-aventuranças eternas e desatentas em relação à carente existência humana. Logo, o deus esquiliano é bem mais grego que o hesiódico, dado que absorto em sua própria esfera imortal e perfeita. Na alienação divina em relação ao mundano, o homem, para Ésquilo, contudo, tem na posse dessa flama indevida o combustível para pagar seus pecados e, nessa empresa, encontrar um paraíso só seu entre a esfera divina e a animal, ou seja, o próprio mundo.

De sua excelência metafísica, Platão, da mesma forma que sintetizou as antagônicas teorias de Heráclito de Éfeso e de Parmênides de Eléia, colocando o incessante devir do efésio no sensível, mundano e terreno, e a imobilidade una e perfeita do eleata no ideal, superior e etéreo – o mundo platônico das ideias -, o aluno de Sócrates, ao interpretar o mito de Prometeu, contemplou, similar e inclusivamente, as visões de Hesíodo e de Ésquilo. A partir de Platão é possível enxergar a expiação prometeica da angusta sobrevivência na natureza sinalizada por Hesíodo enquanto o mundo da técnica, isto é, o lugar dos saberes e de suas aplicações em função das contingências materiais. Este seria o mundo hesiódico-heraclíteo, o mais baixo, estruturado pelo devir, sustentado na impermanência e sujeito a toda sorte de imperfeição e corrupção. Num sentido oposto, no entanto complementar, o mundo ideal platônico se alinha à interpretação esquiliana do mito de Prometeu, aonde, depois de a técnica laborar vitoriosamente sobre as demandas naturais materiais, surgem os produtos humanos de caráter divino, isto é, ideais, desvinculados da realidade material e capazes de entreter os homens em suas próprias humanidades – da mesma maneira como os deuses epicureus estavam em relação às suas bem-aventuranças eternas.

Em Platão, por conseguinte, encontra-se dimensão tanto para a técnica quanto para o saber em relação a ela desvinculado dela mesma, ou seja, a ciência pura . O conhecimento sobre a técnica, o saber sobre seus princípios e fins, para o filósofo, é superior à técnica em si, dado que esta visa a heraclítea-hesiódica realidade sublunar plena de imperfeição e mudança; enquanto aquele, isto é, a ciência, contempla as ideias perfeitas e imóveis – o ser -, apropriadamente parmedídico-esquiliano. Conhecer a substância desse mundo das ideias, para Platão, é alcançar o conhecimento absoluto, universal, superior e eterno; outrossim, reencontrar a imortalidade perdida pela posse da chama prometeica. Esse elevado saber paradisíaco, aprumado sobre a histórica laicização das techné – ainda que fruto e adubo da técnica -, é a ciência em sua universalidade máxima. Platonicamente, técnica e ciência precisam, necessariamente, habitar em mundos separados para poderem coexistir harmoniosamente, embora, tragicamente hierarquizados. Portanto, para Platão, é somente na contemplação desse conhecimento ideal e superior, livre de qualquer materialidade corruptível, que se aplaca a ira de Zeus pelo seu fogo vilipendiado.

As três interpretações do mito de Prometeu, a saber, a de Hesíodo, Ésquilo e Platão, podem ser frutiferamente confrontadas com a diferenciação entre labor e trabalho feita por Hanna Arendt na sua “A Condição Humana”. Segundo a filósofa, o labor se caracteriza pelo tipo de atividade cujos produtos atendem às necessidades constantes e mundanas em função da sobrevivência imediata, não obstante, evanescentes. Laboramos ao plantar e colher o trigo em vias do pão que, apesar de fundamental, é consumido, precisando ser laborado novamente, ad aeternum. Contraposto ao labor, Arendt coloca o trabalho que traz ao mundo a permanência, e que visa essencialmente não à natureza, mas sim a própria cultura humana. Trabalhamos descobrindo as verdades secretas e eternas do cosmos, refletindo sobre elas, contemplando-as, compartilhando-as. Apertando o parafuso arendtiano, o trabalho seria, unicamente, a própria ciência, ou, para Platão, a filosofia.

Portanto, de acordo com a diferença com que Arendt separou trabalho de Labor, Hesíodo transformou a culpa pelo fogo prometeico num interminável labor técnico que submetia inescapavelmente o mundo humano à natureza e ao divino; Ésquilo, em um trabalho que produz cultura e liberdade, ou seja, um afastamento possível tanto da natureza quanto dos deuses; já Platão, na ascensão que parte da funcionalidade das “techné” no que diz respeito às contingências materiais da natureza, galgando os muitos degraus dos saberes oriundos dessa performance técnica, alcança, finalmente, a esfera etérea, superior e eterna da ciência que pode, e deve, prescindir necessariamente dessas aplicações técnicas inferiores. O ideal platônico, por conseguinte, devolve a Zeus Olimpo o fogo que outrora lhe foi roubado por Prometeu para que a humanidade pague sua dívida e reencontre sua imortalidade negada, deixe a caverna e viva à luz de sua própria natureza.

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