Nobre parasitismo

Antes de ser tardiamente estigmatizada, a palavra “parasita” foi cunhada para nomear uma das mais nobres funções que um homem podia exercer nas cidades do mundo antigo ocidental. Etimologicamente, “parasita”, em grego, “parásitos”, é a junção de “pará”, que quer dizer “ao lado”, ou “junto de”, e “sito”, que significa “comida”, “alimento”. Com esta definição sentimo-nos em casa com o significado atribuído ao ser que se coloca junto do seu alimento, por interesse próprio, e em detrimento absoluto do seu desavisado anfitrião. No entanto, embora com significância negativa para nós, pós-modernos, cabe investigar em que sentido “parasitar” ainda carrega algo de positivo e sustentável ao sistema social atual.

Na antiguidade grega, de acordo com o historiador Fustel de Coulanges, as divindades eram os centros gravitacionais da existência individual, familiar e, inclusive, social. Para estes ancestrais, era impensável, portanto inexistente, a ideia de um Deus único e onipresente, ao molde do deus cristão. Antes, cada família tinha as suas próprias divindades particulares, que eram seus mortos, enterrados sempre junto do lar, e que exigiam atenção e culto constante. O “Sacrifício”, como era chamada a oferenda oferecida aos idos, tratava-se da comida preferida do morto; e os vivos, atendendo aos desejos daquele, acreditavam arrancar-lhe, sobrertudo, bem-aventurança na vida.

Quando os grupos familiares, isto é, as fratrias, agruparam-se em número maior, carecendo de um novo conceito de grupamento e, portanto, de um novo nome – polis – esta nova instituição social precisou de uma justificação divina, aos moldes da familiar, em torno da qual os cidadãos fundamentassem sua convivência em comum. Logo, necessitava-se de um morto, geralmente o primeiro morador daquela região, o fundador da polis, que doravante era cultuado, solicitando assim sacrifícios dos vivos. Sem a graça desse morto aqueles antigos não acreditavam que teriam sorte suficiente para que sua cidade vingasse. Então, uma vez ao ano, todos os cidadãos reuniam-se para oferecer e comer o sacrifício junto desse morto.

O dever cívico-religioso era tão importante que, para isso, inventaram e instituíram o censo, pois era nesse sagrado dia que eram contadas as pessoas para que ninguém deixasse de sacrificar-se, o que comprometeria a bem-aventurança de toda a cidade. Como as demandas de uma cidade são bem maiores que as de uma família, esta divindade unificadora da polis deveria ser mais paparicada que as outras, as particulares. Por conseguinte, acreditavam os gregos, eram necessários sacrifícios diários para que a divindade estivesse sempre satisfeita e nunca se esquecesse dos vivos cultuadores. Aos deuses, banquetes diários.

Porém, se reunissem a população diariamente a cidade se tornaria improdutiva e insustentável. Portanto, sorteavam rotativamente alguns poucos homens cidadãos que se reuniam, todos os dias, para, simbolicamente, sacrificarem-se em benefício de toda a cidade. Estes foram chamados de parasitas, aqueles que estavam sempre junto da refeição sagrada sem a qual as divindades enfurecer-se-iam e, por consequência, a desgraça abateria toda a polis. Era inclusive crime um cidadão recusar-se a parasitar os deuses comuns! Aqui está esclarecida a nobreza e essencialidade desse nome e dessa função para aqueles antigos em sua comunhão cidadã. Mesmo sendo os gregos animais fortemente políticos e sociais, estes não se davam separados das forças divinas, sendo estas as mais importantes, unificadoras e justificadoras de todas as outras.

Na Idade Média, o cristianismo tratou de desqualificar e aniquilar todo o politeísmo customizado individualmente pelas famílias e cidades e colocou um Deus único, onipotente&onisciente, em todos os lugares, isto é onipresente. O Deus cristão era infinito, coisa inimaginável para os gregos que viam no infinito algo de monstruoso e sem função alguma para eles. Logo, a igreja tratou de estigmatizar aqueles que ainda mantinham-se fiéis a deuses particulares e aos sacrifícios-banquetes. Parasitar tornou-se pecado, algo feio e a ser eliminado em prol de um Deus único e supremo que impunha um ritual só seu, a ser cumprido por todos, o tempo todo, tornando inócuo o antigo parasitismo simbólico mantido por um pequeno grupo em favor da coletividade. Doravante, todas as pessoas, diariamente, deveriam sacrificar-se, elas mesmas, por esse Deus único que não aceita terceirização.

De certa forma, o cristianismo transformou todos os homens em parasitas, menores, visto que todos eles deveriam parasitar a observância e a fome insaciável do Deus único, só que sob um novo nome, fiéis; e o banquete reduziu-se à insossa hóstia. Entretanto, com a moderna morte de Deus alardeada por Nietzsche, essa instituição parasitária cristã, escavada no cerne de cada sujeito, ficou esvaziada e ecoou carente por um objeto de adoração. A mesma modernidade tratou de industrializar ídolos e de distribuí-los mercadologicamente para preencher o vácuo do espaço que recentemente fora preenchido pelo imenso Deus cristão. Os velhos sacrifícios que cada sujeito deveria prestar ao absoluto foram monetarizados e reificados num devotado consumismo que, atravessando os séculos, vive resplandecente até o momento atual.

Uma visão histórica, partindo dos antigos gregos parasitando suas divindades particulares, passando pela sintetização cristã de um Deus uno reduzindo e portabilizando o parasitismo à medida dos sujeitos, e findando no moderno esvaziamento do sagrado, sem com isso acabar com esse espaço parasitário inculcado nas pessoas, essa visão, portanto, sugere um sistemático reaproveitamento desse sagrado espaço de culto que instituiu primeiramente a socialização humana. Historicamente fomos condicionados a parasitar os deuses, depois um Deus, e por fim, as múltiplas coisas terrenas. Isso mostra, grosso modo, o empobrecimento espiritual dos ídolos que nos movem.

Parasitar, apesar do estigma adossado a essa atividade, é uma das mais nobres funções humanas, pois, desde os antiquíssimos gregos, é colocar-se junto daquilo que é mais importante e fundamental, sem o qual não há bem-aventurança nem união. A negatividade da atividade em questão advém, não obstante, do caráter dos objetos que parasitamos: se são ancestrais deuses familiares ou se são produtos da Apple. Parasitar obsolescentes produtos em série é, por conseguinte, de uma baixeza gêmea ao contemporâneo teor da palavra “parasita”. Entretanto, o parasitismo politeísta antigo ainda é mais nobre e essencial do que o egoísta e monoteísta cristão e do que o liberal moderno-contemporâneo deificador do abstrato capital.

Porém, essa divina abstração capitalista é muito mais aparentada com o politeísmo grego do que com o monoteísmo cristão, porquanto este universaliza concretamente uma abstração única, enquanto que os outros dois particularizam a concretude no mesmo movimento de torná-la abstrata a quem não comungue desse parasitismo particular. Estaríamos, por ventura, retornando sintomaticamente às nossas origens nessa liberdade contemporânea de cultuar a quem, ou a que, bem se deseja? Hoje somos livres para parasitar qualquer coisa que divinizamos, e é essa velha-nova gravidade que nos coloca na órbita de outras pessoas cujos cultos são os mesmos que os nossos, formando, assim, novos grupamentos, novas polis, cada uma com seus próprios deuses e seus nobres parasitismos.

 

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