Liberdade subcultural

Todas as ovelhas são iguais, inclusive as negras. Logo, em certo sentido, há somente uma ovelha, o que significa dizer que, no caso delas, o universal e o particular coincidem perfeitamente. Já os homens, apesar da parcela de identidade que têm uns com os outros, são constituídos basicamente pelas suas diferenças. Seu universal é um objeto inquestionável, ainda que em pleno processo de definição; entretanto, suas particularidades, por dadas e abertas que são, estão em constante guerra com este universal fantasmático, inclusive insistindo, estas particularidades idiossincráticas, em não encaixarem-se nele. 

O que difere, então, as ovelhas do homem no sentido da cisão entre particular e universal? Acredita-se ser a Cultura, visto que aquelas, em sua absoluta uniformidade, simplesmente seguem a sua própria natureza sem transformá-la. O homem, por sua vez, tem na plurivocidade dos seus modos de ser a reflexão cultural daquilo que, segundo Terry Eagleton, falta-lhe na Natureza. Podemos ver a Cultura, então, como a sofisticada instituição que atende a essa falta, e só através dela podemos traduzir as faltas percebidas na Natureza em outras, nossas. Sendo assim, nossa Cultura é o tamanho da nossa perdição no mundo natural. 

Aristóteles nos ensinou que o ser se diz em muitos sentidos, e o ser da Cultura, por conseguinte, não escapa a essa pluralidade ontológica, dado que, de acordo com Eagleton, cultura “significa quer o que está à nossa volta, quer o que existe dentro de nós”; isto é, a um só tempo a Natureza em sua positividade ecológica e a humanidade em sua incontornável carência existencial. De certa forma, para Eagleton, “a cultura é uma forma de subjetividade universal em laboração dentro de cada um de nós”. Portanto, culturalmente, celebramos o particular em detrimento do universal ao mesmo tempo em que universalizamos cada particular não celebrado, afinal, “cultura é simultaneamente sintoma e solução”, sugere o filósofo. 

Se a Cultura, de fato, é o modo de a natureza humana superar àquilo que lhe falta na Natureza, e uma vez entendido que para o homem o particular não é uma fração do universal, mas um universal em si mesmo, a Cultura, enquanto una, contradiz a empreitada a que se propõe. Sendo cada indivíduo humano a substância do universal, suas próprias carências naturais demandam uma solução cultural individual. Isso ressignifica a Cultura enquanto coletivo abstrato das culturas individuais concretas, cada uma delas o “sintoma e a solução” para a força que a Natureza lhes impõe, individualmente. Portanto, pensar uma Cultura única, totalitária, é esquecer-se de que, de acordo com a natureza humana, o particular sugere um universal, porém, nunca se submete a ele. 

São as culturas que, lado a lado, e visualizadas à distância histórica, sugerem a Cultura. Entretanto, esta última é só um ícone invertido que, em vez de indicar inequivocamente um objeto, deve, antes, fazer o caminho contrário, ou seja, evidenciar e tornar própria a pluralidade que, de forma alguma, caberia num singelo ícone. A cultura é o avesso do direito, intuiu Eagleton. Desse modo, a estrela cultural não deve, sobremaneira, ser a Cultura enquanto totem vertical, mas sim a constelação horizontalmente tridimensional de todas as soluções culturais individuais presentes no cosmos humano. A parte deve ser a lei, porquanto o todo só consegue ser a constrição daquela; pois, de acordo com o filósofo, “Cultura como civilização é extremamente seletiva, a cultura como forma de vida não o é”. 

Todavia, como deixar a fina corda bamba da Cultura em direção ao tectônico platô das culturas individuais sem com isso deixar de ser o animal cultural que somos? O conceito psicanalítico de perversão, que se refere à sustentação de uma realidade insustentável pela ação de outra, é menos sustentável que o conceito revolucionário de subversão. Perversão e subversão sustentam uma versão oficial em sua insustentabilidade, no entanto, aquela, ao modo de esquecer-se disso, enquanto esta, como combustível consciente e indispensável. Uma é considerada desvio, a outra, atalho. Logo, a guerra das culturas contra a Cultura deve ser subversiva e não pervertida. E, contra a Cultura, é própria a subcultura! 

As subculturas são tomadas pela Cultura hegemônica como suas primas pobres e indesejadas, visto que as multifaces daquelas mascaram única máscara que esta é; já que, para a Cultura, as subculturas são nada mais que o seu desarranjo. Não obstante, para Eagleton, “cultura é já, em si mesmo, essa desconstrução”, ou seja, o parto de individualidades prenhes de vida concreta a partir de um útero universal desde sempre abstrato. Para o filósofo, “a Cultura floresce em subculturas”, pois são elas que se intersectam contraditoriamente na superfície do mundo humano. Essa contradição, entrementes, é incontornável, e sua recuperação só se dá num sintético e desumano produto único: a Cultura. Doravante, não podendo mais ser consumido por nenhuma subcultura, enfastiando-as. 

Para Eagleton, “nos encontramos atualmente encurralados entre noções de Cultura demasiado amplas para serem úteis”. Nesse sentido, úteis são os nossos modos subculturais que compartilhamos com aqueles que nos são próximos e sensibilizados com nossa meta e luta. “Demasiada Cultura reduz a nossa capacidade para nos sentirmos próximos dos outros, atrofia os nossos sentidos e impede-nos de nos expormos à infelicidade alheia”, aponta o filósofo ao nos perguntar: “o excesso de sofisticação não é o inimigo da ação?”. Portanto, é na esfera imediata, aonde partilhamos hábitos de linguagem, formas de agir, valores e uma autoimagem coletiva, que resistimos à terraplanagem Cultural. Ademais, é somente sobre o solo subcultural que a erva-daninha da Cultura pode intentar algum parasitismo. 

“Enquanto auto cultivadores, somos barro nas nossas próprias mãos”, relembra-nos Eagleton; portanto, as esculturas que por ventura somos devem ser obras-primas subculturais dinâmicas, identificadas e adequadas aos sub-círculos nos quais vivemos e através dos quais reconhecemos a vida. O filósofo nos adverte de que “nada poderia ser mais falso do que acusar a cultura de estar muito afastada da vida cotidiana”, sendo ela a absoluta cotidianidade ordinária. Todavia, quando as subculturas são universalizadas no singular, e com uma inicial maiúscula, a cultura deixa de ser “aquilo o que se põe no leitor de cassetes”, como exemplificou Eagleton, e passa a ser aquilo por que se mata, aproximando-se do ideal adorniano de Cultura que encontra deságue lógico no genocídio. 

No pensamento eagletoniano, “a Cultura como civilidade e a cultura como solidariedade são, na maioria dos casos, inimigos declarados”. Colocado nesses termos, qual dos lados é melhor ao homem? Subculturando-nos, permanecemos concretamente próximos do que nos é próximo e essencial. Em sentido oposto, atendendo à Cultura, nos alienamos numa abstração que, esta sim, aproxima-se da perversão. Atentando para a indicação de Eagleton de que “a violenta ruptura que decorre desta ligação do universal a um conteúdo particular é aquilo que conhecemos por sujeito humano”, podemos concluir que, subculturalmente, devemos romper sistematicamente com qualquer universal Cultural que se superponha às nossas particularidades. A subcultura, por conseguinte, é a primeira e última zona humana de liberdade, tanto em relação à animalidade precedente quanto à abstrata totalização Cultural que procede da concreta existência de todas as subculturas.

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