O movimento do problema

A felicidade vem e vai ao toque de ser descoberta. Já os problemas nos mantêm cativos de fases mais delongadas. Adentrá-los é uma experiência desconfortante; deixá-los, regozijante. Logo, em relação aos nossos problemas, ou desejamos resolvê-los definitivamente, ou fazemos de tudo para evitá-los. Parafraseando Hegel, não é a vida que se atemoriza ante os problemas e se conserva intacta da devastação, mas é a vida que suporta os problemas e neles se conserva! Por conseguinte, cabe aqui a pergunta: são os problemas ruins em si mesmos, ou é o que é ruim que é chamado, inadvertidamente, de problema? A abstrata matemática responderia imediatamente com duas negativas; já pessoas concretas ponderariam mais um pouco. Para estas últimas, problemas são as coisas com as quais lidam no intervalo indesejado entre dois momentos solucionados, usualmente chamados de felizes. Contudo, “pela insignificância daquilo com que o espírito se satisfaz pode-se medir a grandeza do que perdeu”, ironiza Hegel.

Em sua origem etimológica grega, a palavra “problema” significa “lançar-se à frente”, ou seja, transpor o aqui e o agora em uma direção nova. Entretanto, uma vez dentro de um problema, de forma alguma sentimos conforme esse significado original. Antes, percebemos uma imobilidade desconcertante de cujos limites é difícil escapar. Caso tivéssemos nos mantido um pouquinho mais gregos, lançar-nos-íamos à frente das agruras presentes para, além de visualizá-las melhor e à distância, deixá-las de imediato para melhor considerá-las. Afinal, quantos problemas só nos pareceram ruins por que claustrofobicamente presentes, porém, uma vez passados, revelam-se proveitosos? Mas, como nos lembra Hegel, “o bem-conhecido em geral, justamente por ser bem-conhecido, não é reconhecido”. Todavia, enquanto não é dado o salto à frente do problema, gradualmente convida-se ao desespero. Assim, de acordo com Hegel, “a impaciência exige o impossível, ou seja, a obtenção dos fins sem os meios”. Entretanto, o problema, isto é, o lançar-se à frente, é a um só tempo o meio e o fim!

Espreita-nos, sorrateiramente, uma insegurança em cada problema, dado que sempre há a possibilidade de sucumbirmos a ele, de não resolvê-lo, e nele permanecermos. Hegel, contudo, sugere algo essencial, perguntando-nos: “por que não cuidar de introduzir uma desconfiança nessa desconfiança, e não temer que esse temor de errar já seja o próprio erro?” Genial! Pode-se, a partir daí, atribuir a dificuldade não às situações ruins percebidas, mas ao modo como as recebemos. A indicação hegeliana seria no sentido de não confundirmos o predicado com o sujeito, pois para este pensador, quando o predicado se assenhora do sujeito, o sujeito é escravizado por esse predicado. Porém, os predicados – e no caso dos problemas, os ruins – são atributos destacáveis e substituíveis, e não o sujeito em si. Qualquer nó górdio atrelando predicado e sujeito não obstante é dado pelo próprio sujeito, pois aquele, diferente deste, não trama a vida. Portanto, as dificuldades não são obras das circunstâncias da vida, mas sim do modo como o sujeito inscreve-se nelas; muitas vezes circunscrevendo-se e aprisionando-se nelas.

Idealizamos que a vida ‘solucionada’ seja o pódio excelente da existência, e talvez isso se dê, como afirmou Hegel, pelo fato de que “o sujeito só está presente como sujeito em repouso”, sendo o movimento a sua ameaça existencial. Assim como erramos ao não significar os problemas como faziam os gregos, outrossim, idealizamos o sujeito como algo estável e aprazivelmente dado, o que o assemelha mais a um objeto! O sujeito, por tautológico que pareça, é muito mais quem “está” absolutamente sujeito às circunstâncias do que aquele que simplesmente o é, absoluto, através delas. “O espírito”, escreveu Hegel, “só alcança sua verdade na medida em que se encontra a si mesmo no dilaceramento absoluto”. Por conseguinte, estar sujeito diz respeito muito mais àquilo que não se deseja, ou seja, aos problemas, que àquilo que desejamos, isto é, à felicidade. Esta última, dividida em duas, uma antes e outra depois do momento problemático, só nos engana porque equidistante desse centro insuportável ocupado pelo sujeito. Porém, uma vez nela, eis a abertura para todo tipo de novos problemas, e, não menos, a imprópria revelação de que a solução é somente uma ilusão de ótica propulsora do movimento problemático.

O “lançar-se à frente” dos antigos helenos é de grande sabedoria, porquanto é uma ação que gera, no simples problematizar, um movimento descolado tanto da dificuldade presente, ainda que em função desta, quanto do momento futuro que, mesmo desproblematizado, será, inevitavelmente, o berço de novos e desconhecidos problemas. Estar nesse salto, ser esse lançamento, portanto, é livrar-se da dificuldade presente mantendo-se imune das futuras. É só no voo extraordinário que visualizamos, ao modo dos pássaros, a ordinariedade dinâmica e verdadeira da vida à distância de não nos contaminarmos com as nossas próprias mundanidades. Enraizados, resta-nos assistir ao tragidrama vegetal descrito por Hegel, no qual “o botão desaparece no desabrochar da flor, e poderia dizer-se que a flor o refuta; do mesmo modo que o fruto faz a flor parecer um falso ser-aí da planta”. Para o filósofo, nesse roteiro estão os “momentos da unidade orgânica, todos igualmente necessários”, entretanto, somente lançando-se para além deles, isto é, problematizando-os, é que podemos assistir confortavelmente essa ópera do devir sem que a prima-dona do ser seja abandonada.

Hegel disse que “o anti-humano, o animalesco, consiste em ficar no estágio do sentimento, e em só poder comunicar-se através do sentimento”. Concluo, aqui, parafraseando novamente o filósofo, que o pró-humano, o transcendente, consiste em “lançar-se adiante” do estágio do sentimento, e em só poder comunicar-se através do movimento. Principalmente quando os sentimentos são negativos, devido às circunstâncias dificultosas, lançar-se para além deles é a melhor forma de encará-los. Agarrar-se às dificuldades para resolvê-las é, definitivamente, privar-se de problematizá-las, pois só transformando-as em problemas é que se estará livre delas, um tanto adiante, numa promenade relativizadora, para, quem sabe, fruí-las como fazem os matemáticos. O movimento intrínseco à palavra “problema”, ao qual deveríamos entregar-nos em cada dificuldade percebida, é uma ancestral verdade grega escondida nesse apanhado de letras cujo significado, quando perdido, furta-nos inclusive a ação mais essencial, ou seja, o “lançar-se à frente” das dificuldades.

 

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