Obras do divino

“No princípio era o verbo”, diz a abertura do evangelho de (São) João. Entretanto, bem no princípio, não havia ninguém a verbalizar. Então, que palavra e que orador seriam esses, se no primordial Big Bang não havia interlocução, tampouco sua necessidade? Trata-se, portanto, de outro início que não o do cosmos, mas o do mundo, obra-prima do ser humano enquanto obra-prima de si mesmo. O verbo, essa primeira expressão descrita pelo santo, absolutamente imperativa, só pôde principiar quando principiou o humano que, de forma alguma pode ser dito separadamente de linguagem e de cultura. Homem, linguagem e cultura, portanto, são uma e única coisa, e João, abrindo a primeira frase de seu livro, contou a história desse ser uno que se disfarça de múltiplo, e que atende por mundo, ou seja, a funcional delimitação humana que deixou de fora o universo surdo-mudo.

Entretanto, antes de pronunciar a primeira palavra, dado que ela sequer existia, aqueles protofalantes ancestrais devem ter sido vítimas de algum verbo interior que lhes estimulou externalização. Embora palavra humana, sem dúvida, essa que assombrou o solipsismo daqueles selvagens, para eles, cujos conhecimentos abarcavam tudo menos palavras, ela só poderia lhes parecer externa, e por que imperiosa, divina. Esse foi o princípio de que falava João, o princípio do homem, o do verbo primordial que mandou verbalizar. Como homem, cultura e linguagem são inextricáveis, e atentando para a definição do surgimento da cultura, que acontece no momento em que um ser irracional enterra o seu primeiro morto, diferente de todos os outros animais, doravante cultuando esse seu-meu-nós enterrado, possivelmente esse verbo primevo, da forma mais disléxica e divina que possamos imaginar, ordenou: sepulte!

A partir de então o homem transcende a sua estada na Natureza, e sendo cultuado por aqueles que o enterraram; morto, vive enquanto viverem os seus. Aventa-se um rabisco de eternidade no ato do culto, porquanto a cultura é o meio ambiente desse tipo empreendimento, já que fora dela, a morte é o destino absoluto. Sendo assim, para os vivos, seus mortos vivem enquanto cultuados, enquanto receberem deles oferendas, que nada mais são que a materialização objetiva desse verbo interior que lhes ordenava subjetivamente. Portanto, a vida nômade errante ia contra esse novo princípio, e o sedentarismo que os mantinha em torno dos seus sepulcros, anterior àquele em função de suas agriculturas incipientes, era a forma de atenderem ao divino chamado de não esquecerem nem se afastarem de seus mortos; outrossim, deles mesmos, visto que a individualidade como a conhecemos é uma construção tardia medievo-moderna.

Escravos desse verbo que cada vez mais assombrava seus misteriosos e ainda estranhos recônditos subjetivos, que inadvertidamente parecia-lhes dizer respeito diretamente à vida objetiva entre os seus iguais, os homens deixaram-se escravizar ainda mais por esse dialético e divino senhor semântico. A primeira ordem, que amarrou geograficamente os homens aos seus mortos, e que os dotou de cultura, para ser atendida exigia toda uma nova forma de vida. Sucumbindo a esse verbo divino, ainda que imagem alguma ilustrasse tal divindade ordenadora, parecendo, antes, uma necessidade da Natureza, simbolizada na imagem dos mortos ausentes, esses antigos grupamentos humanos que, de acordo com o historiador Fustel de Coulanges, posteriormente deram origem aos gregos, latinos e hindus, esculpiram essa massa cultural recente, morna e ainda maleável, em função desse culto inicial. Temos aí o túmulo do morto cultuado dispondo em torno e em função de si os vivos, suas casas, suas plantações e, principalmente, novas relações entre essas pessoas.

Mais importante que quaisquer necessidades naturais era, por conseguinte, a transcendente necessidade de assegurar o culto aos mortos. O que posteriormente foi chamado de festival nasceu nas datas cíclicas em cuja programação principal constava o oferecimento aos mortos de refeições sagradas. Essas oferendas visavam à eternidade e à bem-aventurança desses mortos, que, para os vivos, seriam as suas próprias bem-aventuranças, dado que, uma vez na roda da cultura, os vivos não mais se desligavam dos mortos ausentes nem de suas venturas. As ancestrais famílias, chamadas pelos gregos de “gens”, pelos os latinos de “gentes”, e pelos os hindus de “gânitar”, todas elas cunhando a nossa palavra genética, viviam em um isolamento que, intencionalmente, visava resguardar suas divindades.

Para esses antigos, segundo Coulanges, a bem-aventurança dos seus mortos exigia privacidade absoluta, e era um pecado terrível para um “gen” quando outras “gentes” sabiam de suas divindades cultuadas. Acreditavam que a sorte oferecida pelos mortos em troca do culto seria compartilhada com os espiões. Portanto, o isolamento entre aqueles diferentes núcleos familiares atendia essencialmente ao resguardo da relação dos vivos com os seus mortos, porquanto esse era o tesouro familiar que não encontrava substituto terreno. Sabendo que o mundo superou esse distanciamento “divinológico” entre as famílias, concentrando-as proximamente na polis e na urbe, Coulanges descobriu que, mesmo guardando suas divindades ancestrais no núcleo duro intrafamiliar, as famílias historicamente se aproximaram umas das outras somente à custa de divindades outras, criadas para que, através de um culto comum, essas diferentes “gentes” bem-aventurassem-se nessa proximidade que outrora as ameaçava.

A família, a tribos, a cidade, e finalmente a metrópole surgiram, portanto, em função da divinização de mundanidades naturais; as mais antigas cultuando os seus mortos, e as mais modernas no culto de heróis, ídolos e objetos de consumo. Inclusive hoje, alienados da sacralidade que os mortos tinham para os nossos ancestrais, são justamente os pedaços de mundo que tratamos como divino – e o dinheiro, lembrando Marx, compra todos eles! – os pontos gravitacionais que atraem e dão movimento e propriedade às nossas vidas. O divino muda ao sabor da História, no entanto, os que divinizam são ainda as mesmas vítimas da esquizofrenia do verbo, do prolixismo da linguagem e da imperiosa cultura. Entretanto, o que nos diferencia daqueles é o fato de hoje não mais enterrarmos nem cultuarmos nossos mortos, mas sim cremá-los e devolvê-los “ageograficamente” à Natureza. Se o nosso mundo foi historicamente gerado no acolhimento inocente do verbo interior que ordenava sepultar e cultuar os mortos, o que, porventura, o abandono dessa primordial cultura irá gerar?

Por mais que cultuemos nossos iphones, e que eles nos insiram no mundo ao mesmo tempo em que o dispõe ao nosso redor, as relações que com eles mantemos de forma alguma almejam eternidade. Pelo contrário, o próximo “gadget” desaparece completamente com o antigo no dia de seu lançamento. Nem com o mais próximo objeto que – sazonalmente – cultuamos temos uma relação duradoura. Estamos, portanto, paulatinamente nos desenraizando tanto do solo geográfico quanto do cultural, ignorando qualquer verbo que persista por mais de poucos instantes e que tenha mais de 140 caracteres, ou que não seja substituível por um “emoticon”. Mundanizando o divino nós vamos contra a empreitada inicial humana de divinizar o mundano. Logo, se o movimento atual seguir nessa contrariedade, linguagem, cultura e humanidade – essência única de aparência múltipla – nos reconduzirá ao nomadismo aculturado surdo-mundo da Natureza anterior ao primeiro verbo.

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