Pedregulhos samsáricos, diamantes nirvânicos.

O estado de Nirvana exige que o espírito esteja esvaziado de todas as suas imagens, inclusive a de Buda, pois só assim se está finalmente livre daquelas que causam dor e sofrimento. Afinal, os nossos monstros são o produto final do labor que artesanalmente aplicamos sobre a matéria da nossa imaginação. O árduo caminho que antecede e conduz ao Nirvana, a saber, o Samsara, é, antes, a sua própria autocriação laboriosa, dado que, de acordo com Gaston Bachelard, “toda criação deve superar uma ansiedade”, e “criar é desatar uma angústia”. Logo, enquanto houver desejo de felicidade haverá, necessariamente, infelicidade a ser trabalhada, ou seja, Samsara a ser ladrilhada criativamente, até que o nirvânico mosaico de cacos-de-vida desvaneça em sua plácida perfeição eterna. 

Entretanto, contemplar essa obra-prima, isto é, mantê-la resplandecente diante dos olhos, ainda é ser refém de suas necessidades, que nada mais são que as nossas próprias necessidades. Se, de fato, o Nirvana é o esvaziamento total das imagens do mundo, o antinirvana seria o excesso delas, e a própria imagem da felicidade estaria ainda a abarrotar o espaço que não obstante deveria estar livre de qualquer coisa. Para Bachelard, inclusive mudar de ponto de vista é ainda ser escravo da mesma visão. Nesse sentido, liberdade seria ver sem esses mesmos olhos, e felicidade, nada mais a ser visto. No entanto, a realidade samsárica, ambiente prenhe de mundanidades e eletrodomésticos, é o único lugar aonde podemos fixar nossos sonhos, para que não desapareçam, pois são eles, justamente, que dissimulam a distância que nos separa do Nirvana. 

“Concebe-se com muita frequência a imaginação como uma produção gratuita que se esgota no mesmo instante que suas imagens”, aponta Bachelard. Assim, acreditamos inadvertidamente que sonhar e desejar são imagens mentais positivas e inocentes, mesmo dizendo respeito à carências reais. Entrementes, o que o filósofo deseja expor é que estas imagens desejosas não desaparecem nesse incessante suceder fenômeno-crono-lógico. Antes, assenhoram-se em batalhões, cerceando cada vez mais o escravo que os imagina no mesmo trabalho seu de sonhar a própria liberdade, de inventar a própria felicidade. Nessa empresa, o indivíduo coloca diante de si justamente aquilo que o separa de sua meta, porquanto desejar a felicidade é lidar com o abismo que nos separa dela. Esse abismo é o mundo, ou seja, o obstáculo real que insiste contra o ideal. 

No entanto, a dureza do mundo é a sua confissão mais honesta, embora hostil. “A luta contra o real é a mais direta das lutas, a mais franca”, diz Bachelard, porque o real “torna-se duro para durar”. Efêmeros são os nossos desejos e necessidades; por isso é bom que esse real sustenha-se impávido, pois quando o Nirvana for alcançado, quando for real, ele poderá durar. E não é isso que projetamos nele a partir da roda caótica e inconstante de Samsara? O ininteligível real é constantemente coberto com o véu mentiroso de Maya, a seda das nossas realidades artificiosamente tecida para nos alienar do fato de que é na real ausência da imaginação que nos espreita o Nirvana. Contudo, “só gostamos daquilo que imaginamos ricamente, daquilo que cobrimos com belezas projetadas”, relembra-nos Bachelard. Nessa oficina dos desejos permanecemos samsáricos e antinirvânicos. 

Se fizermos como Bachelard, e enxergarmos a resistência do mundo como uma metáfora, como um deslocamento funcional criado pela imaginação, e que somente através dela o mundo assume seus valores, podemos, por conseguinte, concluir que a dureza do mundo, ou seja, o próprio real, em oposição à maleabilidade das nossas realidades, também é uma obra nossa em função de desejos samsáricos. O trabalho sobre o real, diz o filósofo, “é uma espécie de psicanálise natural, porque não nos permite enganarmo-nos sobre nossas próprias forças” e fraquezas. Nesta afirmação podemos ver o serviço que a dureza do real nos presta ao obstaculizar a felicidade sonhada, mostrando-nos, antes, quem, como e o que sonha e deseja, e fundamentalmente, a idiossincrasia insustentável desse ser. 

O real geralmente é tomado como o próprio Samsara, ou seja, a matéria bruta sob cuja superfície nossos desejos burilam suas felicidades, tão valiosas quanto insustentáveis. Todavia, “toda joia é uma monstruosidade psicológica da valorização”, adverte-nos Bachelard; sem esquecer de que os valores são esses primeiros diamantes metafóricos que inventamos a partir da rocha bruta não menos inventada pelos nossos desejos. Sendo assim, o Nirvana exige que imaginemos a felicidade e a distância que nos separa dela para, finalmente, provar que é justamente a presença dessa imaginação o próprio distanciamento. Isso para revelar que a felicidade em si é uma obra impossível, dado que ainda é a essência diabólica do Samsara, devendo, a fé na felicidade, ela mesma, ser abandonada. Entretanto, enquanto escultores devotados aos nossos desejos, somos ao mesmo tempo a estátua pétrea das nossas carências e a pedra carente que se quer estátua. 

“É por ser má vontade que a matéria é vontade”, sugere Bachelard; portanto, existindo a vontade se está eternamente atrelado à materialidade contingente do real. Essa é a má vontade samsárica que furta-nos o Nirvana que, antes de ser algo como a boa vontade, é a sua ausência absoluta. Por isso o real é imaginado duro, para que uma vez o nirvana sendo presente e real, ele possa durar; caso contrário, se passageiro, seria, antes, o próprio Samsara. Contudo, enquanto tomarmos a rocha amorfa e indomável do real como aquilo que nos priva dos cristais que árdua e inutilmente burilamos em diamantes chamados felicidade, deixamos de perceber que essa rocha bruta, ela mesma, antes de qualquer trabalho, já é a joia máxima; a que contém tanto o diamante quanto o trabalho a ser realizado sobre ele; a um só tempo o Nirvana e o Samsara. 

Atingir o nirvana, portanto, é visualizar essa pedregosidade dura do real sob os véus das nossas realidades de um ponto de vista que poderíamos chamar de hegeliano, ou seja, como a um cristal que aceita o exterior em seu interior, ou vice versa; pois, de qualquer forma, é o mesmo em qualquer lugar, é o que parece e parece o que é, da superfície ao cerne. Só ele, nessa pureza e transparência absolutas, pode não desejar ser nada mais. Atingir o Nirvana, portanto, não é ser o diamante livre das impurezas do mundo, é a própria história de sua purificação de toda mundanidade que primeiramente o envolveu. O Nirvana exige, necessariamente, a sujeira de Samsara atrás de si na compreensão sublime de que a pedra e o cristal só deixam de ser um só pela vontade de diamante.

 

 

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