Nomadismo psíquico cosmopolita desenraizado

As nossas ficções científicas engordam e pervertem-se alhures, apanhando-nos em cheio nalgum outo lugar fora dos mitos, telas e livros aonde nasceram. Uma delas é a da abdução alienígena, outra, a da viagem espaço-tempo, e ainda uma mais antiga, a das histórias de piratas. Depois de inquietarem nossas imaginações, as fantasias aquietam-se sorrateiramente sob o peso do mundo e, convivendo secretamente entre si, coadunam-se revolucionariamente para, por fim, retornarem triunfantes. Tomando essas três ficções, ou seja, da abdução, da transposição espaço-temporal e a da pirataria, pode-se aventar que o “smartphone” hiperconectado seja o produto genuíno dessa mixagem alienada.

Ao moderno projeto europeu era inconcebível o selvagem, hoje em dia, impensável é ser “off-line”. Através dos “gadgets” conectivos somos instantaneamente abduzidos de qualquer realidade material circundante, cruzamos rapidamente qualquer tempo e espaço que nos separe da meta pretendida e “na-vagamos” feito piratas no mar dos objetos que desejamos. Diferente da sociedade antiga, que vivia entre a ágora política e os templos divinos; da medieval, que traslava da igreja ao forno; da moderna, constituída no abismo entre a fábrica proletária e sala de jantar burguesa; e a da baixa contemporaneidade, entretida na sala de estar e no vernissage; a contemporânea tardia cruza quaisquer fronteiras materiais e migra, ao toque do seu desejo e à velocidade de sua conexão banda-larga, a qualquer confim do cosmos virtualizado.

Estar “on-line” é ser turista e sedentário a um só tempo. Dispor da internet na palma da mão é a ferramenta humana que, finalmente, subverteu a irrecuperável separação entre o ancestral nomadismo coletor e o atual enraizamento urbano. De acordo com o filósofo anarquista virtual – visto que nunca ninguém o conheceu de fato, inclusive suspeitando-se de que ele sequer existe, a despeito de seu livros publicados – autonomeado Hakim Bey, hoje em dia “estamos a procura de espaços (geográficos, sociais, culturais, imaginários) com potencial para florescer como zonas autônomas”, isto é, como espaços livre de contingências socialmente impostas. Para Bey, as zonas autônomas são “uma intensificação da vida cotidiana ou, como diriam os surrealistas, a penetração do maravilhoso na vida”.

A internet à proximidade dos dedos é, por conseguinte, esse lugar por excelência, dado que o possível desaparecimento parcial da realidade presencial, e o ressurgimento pop-up em zonas virtuais quaisquer, longe de ser o fim desse mundo é, antes, a inserção ilimitada de mundos outros neste daqui – ao mesmo tempo em que é a fuga daquele nestes. “Esse paradoxo cria ciganos, viajantes psíquicos guiados pelo desejo e pela curiosidade, desligados de qualquer local ou tempo determinado”, aponta o anarquista virtual. Entretanto, embora esse Eldorado disponível do lado de lá das “touch-telas” seja um produto das necessidades humanas que se amontoam historicamente do lado de cá da conexão, essa criatura, ao modo da criatura frankesteinesca, volta-se contra seus criadores, reconfigurando-os epifanicamente em nível social e individual.

Apesar dos limites virtuais serem tão desconhecidos quanto os siderais, os culturais, melhor mapeados, reagem mais rapidamente a essa interação, evidenciando a colateralidade de serem preteridos em função da virtualidade. Da mesma forma que a Natureza foi marginalizada na empreitada civilizatória, a natureza humana, agora, é vítima de uma sorte similar e, consequentemente, as relações autênticas – presenciais – entre as pessoas parece ser um empecilho ao livre trânsito em direção à virtualidade. Hoje em dia, mesmo o encontro de velhos amigos em torno de uma mesa de bar é aquilo que acontece, de fato, somente entre as muitas conexões e desconexões com a virtuália digital tardo-contemporânea. O aqui e o agora materiais são, portanto, o peso a ser suportado diante do lá extemporâneo e plural da internet, onde a autenticidade das relações humanas troca a qualidade contingente da presença física pela quantidade potencial da performance virtual.

Hanna Arendt disse que o destino do homem é fugir da prisão do planeta terra. Sabendo-se que desde 1899 não há mais um metro quadrado do globo desconhecido, isto é, livre de polícia, política e propriedade, há pouco mais de um século não temos como, fisicamente, fugir do mundo. Somos os primeiros “sem ‘terra incógnita”, relembra-nos Hakim Bey! Sendo assim, a virtualidade da internet é a resposta sempre extensível a esse aprisionamento terreno produzido pela nossa imperiosa obra civilizatória. “O mapa está fechado, mas a zona autônoma está aberta”, aponta o virtual-anarquista; e nela, “esses nômades orientam seu percurso por estrelas estranhas, que podem ser núcleos luminosos de dados no ciberespaço”, porquanto o espaço terreno está saturadamente dado. A zona autônoma de Bey é o melhor lugar para ao ‘andarilho’ nietzschiano ‘vagar a esmo’ como precisou Lyotard.

Todavia, chamar o mundo virtual de “lugar” traz conflitos paradoxais com o lugar que sempre foi esse nosso velho mundo. Aqui cabe trazer a ideia de “não-lugar”, criada na década de 1990 por Marc Augé, que designava locais com significâncias diversas daquelas dos lugares aonde as autênticas e tradicionais relações humanas se davam. Para Augé, os clássicos não-lugares eram, por exemplo, os saguões de aeroportos, os estacionamentos de shopping centers e as autoestradas. Claro, se comparados com o espaço virtual atual, os não-lugares augianos são nada mais que os lugares físicos de sempre, e, sintomaticamente, aonde mais se busca conexão com a virtuália. Entretanto, a distância significativa introduzida por esse pensador dentro da realidade física pode ser proveitosamente transposta à relação aqui investigada entre a velha realidade física e a nova, virtual. Doravante, em nível especulativo, e por breves instantes, o nome “não-lugar” referir-se-á ao mundo virtual para melhor diferenciá-lo do mundo físico.

Logo, o não-lugar “internético” para onde emigramos compulsivamente, ostracizando com isso os sítios físicos – os carcereiros da nossa materialidade -, é, de certa forma, uma aventura positivamente qualitativa às contingências da realidade. A princípio, não há nada de errado em mergulhar na “rede” quando o mundo fora dela não entretém suficientemente. Aliás, foi para isso mesmo que ela surgiu magicamente nos nossos “palm-tops”, ou seja, para criar um não-lugar confortável até que a realidade voltasse a ter o seu “lugar”. Contudo, a abstração desse movimento de preterir a presencialidade física em função da virtual, o que nada mais é que qualificar esta última em detrimento daquela, ameaça seriamente a ecologia dessa realidade presencial. Isso para dizer que o inadvertido vício em se conectar à “rede” a qualquer momento, o que já acontece mesmo quando a realidade material é concretamente presente e inquisidora, cria e instaura, fantasmaticamente, uma insuficiência no cerne da realidade abandonada. E, porventura, não é assim que nos sentimos – insuficientes – quando nosso interlocutor desvia seus olhos dos nossos e imerge no seu display digital?

Portanto, a Atlântida ilimitada do mundo virtual, que em um primeiro momento atende às limitações físicas do mundo material, quando comparada a este, acaba por diminuí-lo e limitá-lo mais ainda. Percebe-se na virtualidade o potencial para solapar os velhos e conhecidos edifícios culturais humanos. Entrementes, seria essa impiedade negativa? Trazendo novamente à berlinda o primordial nômade-coletor que vagava errante pelos mundos sem com isso apegar-se a nenhum deles, deixando sempre tudo para trás no passo de cada nova necessidade, o vórtex espaço-temporal “smarphonado” é um modo, sofisticadíssimo, de recuperarmos a errância esquecida e jacente sob nosso curto-circuito urbano asfaltado. Hakim Bey, da horizontalidade de sua virtualidade anárquica, nos informa que “o retorno a um estado natural paradoxalmente parece permitir a prática de todo tipo de ato antinatural”.

E o que nos parece, hoje, menos natural que o parceiro sexual “chatear” com os amigos do Whatsaap durante o coito, ou um jantar romântico onde os dois pombinhos trocam mais com seus próprios “gadgets” que entre si? Entretanto, as instituições sociais medievo-corteses ameaçadas pelo desprendimento que a virtualidade proporciona – que Bey, nas suas brincadeiras anárquicas, ora chama de “nomadismo psíquico” ora de “cosmopolitismo desenraizado”-, devem, aquelas instituições semicaducas, ser preservadas? Do ponto de vista anarco-beysiano, não. Pois, de acordo com esse filósofo virtual, são “os ‘cyberpunks’ utópicos, os futuro-libertários, os ‘hackers’ da realidade e seus aliados, que percebem a internet como um passo adiante na nossa evolução”, os que destruirão o velho mundo das sociabilidades sedentárias e que descortinarão o horizonte nômade-turístico que dará à vida física a dimensão que, hoje, ela só encontra em míseras polegadas digitais.

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