Am I pretty or ugly?

Essa é uma antiga pergunta que, hoje, milhares de garotinhas estão refazendo, só que em vídeos pessoais no YouTube, na esteira insuficiente dos já clássicos, porém mudos, “selfies”: Eu sou bonita ou feia? O “Espelho, espelho meu!” da Bela Literatura Adormecida, que criativamente refletia as questões de quem solitariamente o lia, foi definitivamente trocado pela virtual superfície reflexiva disponível na Internet. Em oposição ao espelho convencional, que historicamente reflete a solidão narcísica de um indivíduo a ele mesmo, o espelho digital do YouTube, diante do questionamento dessas jovens acerca de suas belezas ou não, retorna não uma imagem verdadeira, mas milhares delas; e com toda a sorte de distorções. Como bem colocaram os do coletivo filosófico-anarquista Critical Art Ensemble, “a carne imperfeita é o fundamento da economia da tela”.

Esse fenômeno videático, diferente do seu antecessor, o “selfie”, ainda não tem um apelido memético. Não soasse impertinente, arriscaria um “vidfie”. Entretanto, dado que as palavras estão sempre aquém das coisas que nomeiam, e esse novo evento social das garotas inseguras é muito maior – e aterrador – que qualquer conjunto de caracteres agrupados destinado a endereçá-lo. Trata-se de meninas, em frente às suas câmeras, perguntando ao ser absoluto e abstrato da “rede”, se são bonita ou feias – e quanto! Faye, uma delas, confessa no seu vídeo: “minha família, e os meus amigos da escola vivem dizendo que eu sou linda, mas ainda assim não sei, afinal, pode ser que alguém pense o contrário”. Portanto, a despeito dos elogios concretos que ela cotidianamente recebe das pessoas concretas que a rodeiam, é aos que provavelmente pensem o contrário que sua atenção e esforço estão voltados.

Superando a Bruxa Má dos irmãos Grimm, que precisava constantemente da resposta do seu espelho para saber se havia alguém mais bela do que ela, as atuais jovens, vítimas de padrões de beleza que mercadologicamente insistem em estar sempre além de suas possibilidades, precisam das respostas de todos os espelhos do mundo para saberem se são belas ou não. Infelizmente, “é a abundância que nos liberta do egoísmo”, propõe o anarquista Terry Eagleton. Na verdade, o que importa para essas garotas não são elas mesmas, mas sim a forma como são coletivamente interpretadas, visto que, remetendo à intuição de Hanna Arendt, as paixões do coração e os pensamentos da mente vivem uma certa espécie de existência incerta e obscura até que sejam todos públicos.

Observando os comentários que se seguem a partir das massivas visualizações desses vídeos-espelhos, com uma metade deles dizendo que elas são bonitas, e a outra metade afirmando, muitas vezes violentamente, que são horrorosas, conclui-se que tal empreitada expositiva não lhes resolve a dúvida, somente a aumenta, visto que agora disponibilizada globalmente. Essas garotas deveriam prestar atenção à sábia advertência do filósofo Raoul Vaneigem de que “não existe arma alguma de tua vontade individual que, manejada por outros, não se volte imediatamente contra ti”. A ausência de uma unanimidade que definitivamente afirme que elas são bonitas ou feias – o que, de forma totalitária, fechar-lhes-ia a questão -, não obstante reflete a incontornável impossibilidade humana em definir do que se trata – se é que existe mesmo- a Beleza em si. Por conseguinte, o que essas garotas querem, de fato, é enxergar refletida no mundo todo a dúvida a respeito de si próprias cujas secretas vítimas são elas mesmas.

“As pessoas adotam uma causa porque não puderam adotar a si mesmas”, coloca Vaneigem. Sendo assim, ao embarcarem na virulenta tendência de videografarem-se na insuportável dúvida sobre as suas aparências – “Eu sou bonita ou feia?” -, essas meninas confessam a orfandade absoluta a que se submetem ao desconsideram as percepções concretas dos seus familiares a amigos. Por uma lado é mais fácil suportar a indesejada rejeição quando advinda de quem não as conhece, afinal, as opiniões que “pop-ulam” as profundezas abstratas da Internet são mais fáceis de desconsiderar que as das pessoas que materialmente as rodeiam. Porém, o que se esconde sob essa sofisticada moda – e isso é próprio a todas elas – é a subserviência alienada a gostos outros, pois “o sentimento de humilhação nada mais é que o sentimento de ser objeto”, aponta Vaneigem. Portanto, enquanto objetos manuseáveis nas mãos do mundo essas meninas inseguras sofrem menos a abertura angustiante de serem sujeitas às suas questões pessoais.

O horizonte rede-social-virtual aberto à contemporaneidade, ao passo que oferece paisagens inimagináveis a serem exploradas, desconfigura e reconfigura perigosamente tanto as relações entre as pessoas quanto as que cada uma delas tem consigo própria. Como se previsse isso, Hanna Arendt escreveu que “a contradição entre o privado e o público trouxe a extinção das esferas privada e pública e a submersão de ambas na esfera do social”: aqui, na esfera das redes sociais virtuais. Paradoxalmente, uma vez ostracizados de tais fronteiras, “os homens tornam-se inteiramente privados, isto é, privados ver e ouvir os outros, e privados de ver, ser vistos e ouvidos por eles”, conclui a filósofa. Desse modo, os “am I pretty or ugly?” precisam ser gritados aos quatro ventos do além-fronteiras virtual a fim de que, finalmente, alguém os ouça e os responda.

No entanto, a autenticidade universal do ser humano reside na sustentação do caos individual, privado e incontornável que cada um carrega dentro de si, bem como na consciência de que essa é a desventura contraditoriamente afortunada de todos. O “upload” da aparência insegura dessas meninas aos terminais das demais pessoas encontra e se submete, em cada um deles, a uma oposição binária e irredutível de natureza similar à do meio em que essa pergunta extremamente pessoal é feita. Sou bonita ou feia? As respostas, consequentemente, serão: 1 ou 0! No sentido oposto, sugere Eagleton, “nada poderia assemelhar-se mais ao Universo do que aquilo que é apenas o que é em si, sem quaisquer relações externas”. Perguntar “am I pretty or ugly, afinal, é bonito ou feio?

 

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