Selfie-paparazzis

O ser humano, em um sentido bem contemporâneo, é um animal que fotografa; a si e aos outros. Talvez essa recente expressão cultural se dê pelo fato da fotografia registrar o concreto desvinculado da presença da testemunha, entretanto, transformando a posteridade e mundo inteiro nessa testemunha fantasmática. O Anarquista Raoul Vaneigem coloca que “a foto é a expressão por excelência do papel, da pose. Nela, a alma fica aprisionada, sujeita à inspeção”, a intuição compartilhada por muitos indígenas. O primeiro apogeu da instituição fotográfica é bem simbolizado pelos paparazzi, o agente que colocou o ser humano numa relação paciente&inextricável com o registro de si. Lady Di, diva máxima desses fotógrafos impertinentes, sucumbiu tragicamente ao próprio espetáculo cuja estrela principal era ela mesma.

Não tardou até que indivíduos menos afortunados que a princesa de Gales desejassem e simulassem em torno de si a farsa de que o registro de suas imagens era, de alguma forma, fundamental. Há dez anos, trabalhando na cenografia do aniversário da filha de um grande empresário brasileiro – que por questões éticas não posso dizer se tratar da família Tramontina -, esse desejo latente de ser vítima vitoriosa de sua própria imagem já me chamou atenção. A garota havia contratado um paparazzi para fotografá-la durante toda aquela semana. No entanto, ela agia como se estivesse sendo perseguida por um repórter indesejado, fugindo e se escondendo dele à medida que o registro dessa performance artificiosamente se assemelhava aos das celebridades que ela, provavelmente, cultuava. Como bem intuiu o coletivo Critical Art Ensemble, “certas performances culturais criam resíduos que são produtos”, e Bruna Tramontina, de alguma forma, era a auto reciclagem desse resto ao topo da cadeia.

Os registros “paparázzicos” de celebridades que nós, a massa anônima, consumimos por anos na mídia tem sua finalização sintomática no atual e pungente fenômeno do “Selfie”, isto é, foto do indivíduo, tirada por ele mesmo, nas atividades corriqueiras de sua vida. Em um sentido preciso, o “selfie” é a incorporação, a um só tempo, da celebridade e do paparazzi em uma única pessoa, e mistura perversamente atividade e passividade no movimento de posar à foto que ela mesma faz de si. Afinal, “é preciso que eu seja como quis que pensassem que eu era. É necessário que a imagem que eu aspiro no espetáculo aceda à autenticidade”, aponta Vaneigem; e o autorretrato é a ferramenta excelente para essa egoica empreitada. A partir daí, intui o pensador anarquista, “as únicas recordações são as dos papéis que foram desempenhados”, e doravante, de acordo com Hanna Arendt, se tornam coisas do mundo, dado que, fatos e eventos devem primeiro ser vistos, coisificados pelos outros para tal.

No entanto, que espécie de satisfação recompensa o sujeito que se autofotografa no restaurante, na academia de ginástica ou na balada, por exemplo, compartilhando essas fotos com seus milhares de amigos-redes-sociais, como se ele próprio, e suas atividades, fossem dignos de tal registro e divulgação? Talvez por sentir que enquanto ele não se dá a conhecer, é como se não existisse, sugere Arendt. E nesse propósito, “transformando a experiência vivida em mercadoria, lançando-a no mercado do espetáculo, ao sabor da oferta e da procura por papéis e estereótipos”, diz Vaneigem, o indivíduo pode atender o desejo que inicialmente o colocou nessa fogueira ardente das vaidades, ou seja, o de ser, quem sabem, para além de suas inseguranças subjetivas, alguém no mundo, pois, “a presença de outros que veem o que vemos garante-nos a realidade do mundo e de nós mesmos”, insiste Arendt. Portanto, a auto “paparizzação”, apesar de inadvertidamente dirigir-se aos demais, inicia e converge finalmente à insustentável superfície que é fotografada à distância de um braço.

Por outro lado – do lado de lá do “gadget” que registra o indivíduo “selfado” – são forças externas hostis, e não forças positivamente automotivadas que estão nos construindo enquanto indivíduos, afirmam os do Critical Art Ensemble, para quem “a carne imperfeita é o fundamento da economia da tela”. O resultado do auto registro, bem como a sua viralização intencional, contudo, reveste positivamente uma sujeição de qualidade oposta, enganando mais o protagonista desse processo que seus espectadores virtuais. Terry Eagleton nos relembra de que ”no apogeu da burguesia europeia, a Literatura desempenhava um papel fulcral na modelação da subjetividade social”. Hoje, destarte, não há razão para duvidar de que é uma arte bem menos nobre e demasiadamente vil a que nos esculpe enquanto sujeitos sociais: a arte vazia da aparência efêmera; e “a cultura em sentido estético é aflitivamente inadequada”, explica Eagleton.

Arendt sugere que a esfera pública deveria ser incapaz de abrigar o irrelevante, entretanto, “o problema da distinção do que é e não é supérfluo é bastante desencorajador”, contrapõe Eagleton. Portanto, é o desinvestimento covarde na separação do joio e do trigo, isto é, entre o sujeito, seus desejos, suas obras e as reais necessidades dos demais sujeitos que, remixados confusamente em uma imagem digital de qualidade medida somente em “megapixels”, preenchem a arena social. Vaneigem adverte que “abordar alguém de modo espetacular, exibicionista, é se condenar desde o início a um relacionamento entre objetos”. E o que há de mais irrelevante que os objetos num mundo de sujeitos? Coisificados insistentemente nas “timelines” das redes sociais, em fotos que agregam, no máximo, o valor de um punhado de “likes”, esses sujeitos “são todos prisioneiros da subjetividade de sua própria existência singular, que continua a ser singular ainda que multiplicada inúmeras vezes”, adverte a filósofa alemã.

Para Vaneigem, “o tempo está ligado à angústia humana”. Portanto, conclui-se aqui, que a superação dessa desconfortável condição encontra no congelamento eterno do instante, ou seja, na fotografia, a sua subversão funcional. A mercadoria do paparazzi lega ao mundo que a celebridade existe de fato; já a do “selfie” relembra o sujeito “selfado” de sua próprio existência no mundo, pois, como disse Vaneigem, “aqueles que são incapazes de reconhecer a sua presença nos outros se condenam a serem sempre estrangeiros a si mesmos”. Caso fossem invisibilizados os “smartphones” com os quais as pessoas auto registram-se masturbatoriamente, veríamos braços estendidos com dedos apontando para elas próprias. A câmera é o disfarce perfeito dessa coreografia egocêntrica! Entretanto, como aponta Eagleton, “a única visão válida, em suma, é a visão de lado nenhum em particular”, pois, para o pensador anarquista, “é-se livre quando já não é necessário preocupar-se muito com o que se é”. Porém, esse despojamento não ganha vida enquanto houver uma câmera voltada para o mesmo sujeito que a segura em função de si mesmo.

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