Filosofia, para que te quero?

Foi Tales de Mileto quem, há 2.500 anos, primeiramente desconfiou de que a realidade que todos percebem tinha uma causa única e oculta sob o mundo sensível. Para esse antigo grego era a água o segredo constituinte do real, e esse movimento do seu pensar criou, a um só tempo, a filosofia e o filósofo. Uma vez aberta tal porteira, muitos conterrâneos seus seguiram nessa senda; uns especulando que era o fogo o gerador do cosmos; outros, o ar; e ainda alguns, a terra. Portanto, filósofo é aquele que, como todos os homens, deseja saber das coisas desse mundo, porém, diferente dos demais, procura por respostas além desse mundo, pois, segundo a filósofa alemã Hanna Arendt, o esforço mental exigido pela filosofia deseja liberar o homem da prisão do mundo. 

Entretanto, foi Platão, o filósofo-rei, a quem, dizem, toda a filosofia produzida até hoje insiste em permanecer como simples notas de rodapé, que transcendeu a própria materialidade do universo e condicionou a realidade às ideias que dela temos. Para enxergar isso o filósofo deve devotar-se ao questionamento e à contemplação da eternidade das coisas – eternidade essa que não pode ser produzida, mudada nem consumida pelo homem, sugere Arendt. Para essa pensadora, somente a solidão á o autêntico modo de vida para o filósofo, o que é contraditório em relação à condição humana de pluralidade. Logo, o esforço filosófico trilha não no sentido oposto dos demais – este já foi percorrido, inclusive por ele mesmo -, mas em direções outras, visando lugares onde nenhuma ideia tenha pisado, visto que, precisamente neles residem as perguntas e as respostas que até então não foram formuladas. 

O filósofo pode sempre confiar nos seus pensamentos para lhe fazer companhia, enquanto que as boas ações nem sempre podem fazer o mesmo, afirmou Arendt. Filosofar, por conseguinte, é caminhar sob o solo seguro de ideias tectônicas, trilha que se sustenta inclusive sob o peso do ambiente caótico da realidade, até por que a filosofia é uma ordem que visa justamente o caos percebido e sofrido pelos homens. Portanto, ela é o que deve permanecer enquanto todo o resto muda e se move. Arendt se pergunta se não foram as questões filosóficas as respostas mais pertinentes às dúvidas gregas acerca da permanência da polis e das instituições criadas pelos homens. 

Todavia, o trabalho do filósofo é sempre incompleto, pois, segundo a filósofa alemã, resta-lhe sempre a frustração em relação à impossibilidade filosófica de chegar a uma precisa definição do que é o homem em si. Sendo assim, qualquer coisa a partir do humano carece do alicerce fundamental que ameaça todas as certezas filosóficas construídas sobre esta base incerta. Entrementes, uma vez que essa incerteza condicionante foi – e sempre é – posterior ao início do movimento filosófico, ela não é suficientemente forte para contê-lo. Doravante temos que descobrir o ser que somos não a partir de algum projeto original, tampouco no funcionamento perfeito desse ser, mas sim através dos defeitos dessa maquinaria complexa e inquieta que, em seu funcionamento, gera, à sua imagem e semelhança, o mundo como seu produto genuíno. 

Embora seja considerada a maior e mais humana das capacidades do homem, a filosofia, para Arendt, é uma mera função do processo da vida em si, porquanto, para a pensadora alemã, toda a especulação filosófica sequer conseguiu constituir, nalgum momento, um evento realmente novo no cosmos. Talvez seja por essa razão que a maioria das pessoas seja desinteressada pela filosofia, porque suas revoluções são demasiadamente completas, ou seja, após a rotação dos 360 graus ela retorna à mesma posição de antes. Entretanto, é ao início que ela deve necessariamente retornar, pois só assim saberá se a primordial dúvida ainda diz respeito às respostas encontradas no percurso, ou se estas foram somente a fuga alienada daquelas. Portanto, e infelizmente, em um mundo que muda constante e caoticamente, um longo e profundo movimento que reconduz ao ponto de partida não é valorizado em relação aos demais que colocam grandes realizações e eletrodomésticos como troféus ao final de cada etapa. 

A filosofia, na grande maioria das vezes, é inútil a quem não tem dimensão filosófica em seu ser. Noutras tantas é até desconfortável, pois sistematicamente substitui certezas por dúvidas. A Alegoria da Caverna platônica é o claro exemplo disso que o filósofo-rei legou à posteridade. Deixando solitariamente a profundidade escura e subterrânea na qual todos sempre estiveram, e em direção à verdadeira e desconcertante luz solar da superfície, Platão, atendendo ao mais altivo chamado de Eros, desdenhou do amor erótico pelas coisas e entregou-se ao amor erótico pelo conhecimento daquilo de que sequer tinha ideia. Os que na caverna permaneceram chamaram o filósofo de louco por duas vezes: quando ele se levantou primeiramente em direção à luz e quando dela retornou à escuridão para contar-lhes o que havia descoberto. Por duas vezes o negaram! 

Conquanto a desventura pública do filósofo, infelizmente, não tenha mudado de sorte até aqui, ainda assim a sua ventura individual, isto é, a aventura infinita do pensamento filosófico aos confins do cosmos e do homem segue o levando às alturas inimagináveis a quem se priva de tal exercício. Finalmente, por que se quer a filosofia? Poucos quereriam responder a essa pergunta, pois não a querem de forma alguma, ou definitivamente a evitam. Entretanto, Hanna Arendt nos responde: para “contemplar a verdadeira essência do ser”. Para isso, conclui a filósofa de mãos dadas com Platão, “deve-se de deixar a escuridão da caverna dos assuntos humanos em direção ao céu brilhante das ideias”, embora a subida seja árdua e solitária, e deixe para traz a mundanidade dos prazeres finitos.

 

 

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