Falos gregos, pênis nossos.

As estátuas gregas tinham pênis pequenos porque, para aquela antiga sociedade, os grandes eram considerados cômicos e grotescos. Portanto, todo heleno desejava um órgão sexual pequeno, e esse desejo não escapou de ser refletido e esculpido na arte que eles produziram. Apesar de serem fortemente homossexuais, os antigos gregos cultuavam obsessivamente a masculinidade e a virilidade. Entretanto, a admiração grega por genitais pequenos, e a jocosidade vista nos maiores, encontrou futuramente consonância na afirmação de Lacan de que pênis (objeto real) e falo (objeto imaginário) são coisas distintas, porquanto os antigos gregos tinham a pródiga capacidade de transcender as materialidades da natureza no sentido do que se esconde por trás dela.

Para os gregos um órgão sexual avantajado era simplesmente engraçado e, no sério envolvimento político inerente àquela sociedade, qualquer coisa que ridicularizasse o cidadão em público era indesejada. Expor o corpo nu aos concidadãos fazia parte da vida de todo grego, o que acontecia desde a tenra idade nas suas atividades físicas. A própria palavra ginástica, que em grego é composta por “gymnos” (nu) + “ica” (arte de), ou seja, a arte de estar nu, de esculpir o corpo nu em meio aos demais, encontrava no ginásio, isto é, o local de se exercitar nu, a exposição máxima. Logo, o tamanho do pênis dos indivíduos era desde sempre bem conhecidos pela sociedade, e inclusive determinava o modo e a seriedade com que cada um deles era visto.

A histeria grega em relação à mente e corpo sãos encontrava seu objeto pleno na juventude, terreno ileso das corrupções advindas do tempo. Assim, o pênis pequeno, isto é, ainda não crescido, próprio dos mais jovens, era indício sintomático de que se permanecia preservado da corrupção inevitável da vida, empresa fundamental àqueles antigos que idealizavam a eternidade. Além do que, empiricamente, já era sabido que os pênis grandes eram os primeiros a perderem a potência, diferente dos menores que se aventuravam eretos maturidade e velhice adentro, isso, claro, por questões biofisiológicas. Aqui reencontramos a diferença lacaniana entre falo e pênis, visto que a potencialidade da “coisa” diz respeito àquele, enquanto que sua contingência natural, a este.

A preferência por órgãos sexuais diminutos na cultura grega também atende diretamente à obra civilizatória empreendida por eles sobre a animalidade insistente percebida no ser humano. Os gregos, assim como Lacan, viam no pênis grande, destruidor, experiências primordiais do período oro-anal, centradas na agressividade sádica, o que remetia às experiências primitivas, percebidas como cruéis, agressivas, violentas, até mesmo assassinas. Portanto, nada menos civilizado e democrático que atrelar ao tamanho do pênis o caminho da evolução humana, pois, de acordo com Freud, em relação à simbologia básica desse órgão, “mostrar o pênis quer dizer: não tenho medo de ti, te enfrento, possuo um pênis”. Para os gregos isso se dava através das ideias e da capacidade de expressá-las aos outros.

“O macho, ao contrário da posição feminina, possui perfeitamente um apêndice natural, detém o pênis como pertence”, afirmou Lacan. Logo, na sexista sociedade grega, o simples fato de ter um pênis já era a qualidade suficiente e necessária para ser livre e cidadão, o que, para eles, era a ventura máxima a ser alcançada pelo animal homem, o que dispensava a quantidade excessiva desse já privilegiado dote. Não obstante, essa preferência foi invertida na contemporaneidade, e o desejo dos homens em geral, bem como o das mulheres, é de pênis grandes. O que estaria, por conseguinte, por trás desse movimento histórico que passou a atrelar a qualidade do pênis à sua quantidade, isto é, ao seu grande tamanho? É como se, hoje, embaralhássemos a clara separação lacaniana entre pênis e falo, e numa covarde fuga da ameaça de falha, de falência, cuja raiz etimológica reside na palavra “falo”, estivéssemos a concentrar o real, o simbólico e imaginário do masculino na materialidade concreta do pênis e no esvaziamento do falo.

Na desumana sociedade do hiper rendimento não há espaço para a falibilidade, logo, o falo é uma ameaça à performance do homem. Há que se ter somente o pênis, e grande, contendo e evidenciando, de uma só vez e a quem quer que seja, todo o homem que o ostenta. Nossas estátuas gregas atuais, feitas de carne e osso, e expostas na ágora urbana, precisam de pênis grandes para não serem risíveis. Seria o feminismo, movimento inimaginável àquela Grécia, e o que realmente contrasta com o da nossa época, visto que o homossexualismo, o machismo e a exclusão social permanecem incólumes, o responsável pelo desejo de pênis maiores? Provavelmente sim, visto que em um mundo onde as mulheres ganham cada vez mais espaço, são elas que fincam e ficam com os falos, enquanto os homens, somente com os pênis. Castrados dos seus falos, os machos precisam compensar com grandes pênis.

Anúncios

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s