Coliseu midiático

Assistir aos noticiários é comprovar que, hoje, notícia significa desgraça, revés e negatividade. Catástrofes naturais ou artificiais, corrupção, crises, guerras e mortes são as informações eleitas dignas de serem veiculadas às pessoas, em detrimento das neutras e positivas. É senso comum que são as manchetes trágicas as que mais vendem jornal e reúnem pessoas em torno da TV. Entretanto, seria esse o objetivo maior do privilégio dado à performance negativa da existência no mundo? Visto que as pautas da grande mídia não são ditadas por Ser Superior algum, mas sim por algumas pessoas, cabe pensar em função de que se dá o destaque à negatividade pela “mass media”. Se para Aristóteles, “o desejo relaciona-se com o fim e a escolha com os meios”, e permanecendo no significado comum entre ‘meios’ e ‘mídia’, as escolhas que são oferecidas aos nossos desejos não são as nossas, mas as da própria mídia.

Na Grécia Antiga, linha de montagem da nossa civilização ocidental, foi criada e oferecida aos cidadãos a eficaz instituição da tragédia, que nas palavras de Aristóteles, é a “imitação de uma ação de caráter elevado, e que, suscitando o terror e a piedade, tem por efeito a purificação dessas emoções”. É impossível não condicionar a evolução civilizatória daquele povo à exposição sistemática a que era submetido nos teatros, ao vivo e em cena aberta, observando as mais extremas paixões humanas. O filósofo grego afirmou que “os homens, pois, assim como os animais, experimentam dor quando estão irados e prazer quando se vingam”, porém, tais tendências de humor desacordavam com a empresa civilizatória grega. “Portanto, os apetites devem ser poucos e moderados, e isso é o que chamamos obediência e disciplina”, sugeriu o pensador. Doravante os apetites extremos deveriam realizar-se nalguma forma de contemplação.

Sendo assim, juntar os cidadãos diante de uma tragédia artificial, controlada e objetiva, aonde os mais vis e irascíveis sentimentos experimentados por todo sujeito eram vivenciados no conforto e na distância da arquibancada, funcionou como ferramenta perfeita de sublimação de tudo aquilo que a aristocracia local não desejava ver na polis, ou seja, a barbárie ameaçadora. Afinal, já era bem conhecido pelo poder local, bem como por Aristóteles, que “os que não se encolerizam com as coisas que deveriam excitar sua ira são considerados tolos”. Logo, a o teatro trágico foi a maneira grega de cambiar a ira frustrada, isto é, a tolice, em sofisticação; e isso com data e local marcado! Entretanto, por que “os homens procuram pagar o mal com o mal e, se não podem fazê-lo, julgam-se reduzidos à condição de simples escravos”, como afirmou o filósofo, foi-lhe reservada liberdade subjetiva no assento marcado da plateia.

Mais eficaz que assistir à tragédia da existência sem nada fazer, é perceber os concidadãos nessa mesma passividade, porquanto “podemos contemplar o nosso próximo melhor do que a nós mesmos e suas ações melhor do que as nossas”, disse Aristóteles. Por conseguinte, é por ver os iguais suportarem o absurdo que o homem sente que pode e que deve fazer o mesmo, afinal, “não existe apenas atividade do movimento, mas também uma atividade do repouso, e experimenta-se mais prazer no repouso do que no movimento”, intuiu o filósofo. Dessa forma a sociedade grega transferiu a animalidade incontrolável que assaltava a quem era traído, roubado ou desrespeitado para a centralidade condicionada da arena pública e para os recônditos subjetivos doravante domados. Como bem colocou o aluno de Platão, “a tragédia é imitação de homens superiores”!

Outro embate crítico entre civilização e barbárie se deu na sociedade romana sucessora da grega. Na babilônica urbe italiana, os milhões de cidadãos, apesar de devidamente taxados, não eram mais alcançáveis nem agrupáveis para manipulações éticas e morais. Portanto, sobre as originais vias calçadas da cidade das cidades a erva daninha da barbárie encontrou solo livre para rebrotar. A impossibilidade do estado em atender adequadamente à massiva e crescente população trouxe de volta a insegurança e a crise pública, visto que “mesmo sem representação e sem atores, pode a tragédia manifestar seus efeitos”, colocou Aristóteles. Por conseguinte, assim como os romanos sagazmente perceberam, o filósofo grego anteviu que “a realização de um bom espetáculo mais depende do cenógrafo que do poeta”, e desse ponto de vista foi erigido, no coração do caos, o teatro dos teatros, isto é, o Coliseu Romano.

A maior arena do mundo até então foi criada para reunir, gratuita e diariamente, milhares de pessoas ociosas e potencialmente perigosas que, uma vez no ambiente controlado pelo império, livravam as ruas de suas ações perniciosas, porquanto os homens não aprendem o que fazer e “não podem conhecer-se mutuamente enquanto não houverem ‘provado sal juntos”, afirmou Aristóteles. E a programação do Coliseu era primorosa, oferecendo desde batalhas sangrentas entre gladiadores a cristãos devorados por animais selvagens; em alta definição e com satisfação garantida. De certa forma, o estado do público ao deixar a máxima arena romana era similar ao do grego após as sessões teatrais trágicas, ou seja, esvaziados daquilo que acabavam de assistir. Porém, o desequilíbrio que a sociedade de Roma precisava sanar era bem mais grave que o dos antigos helenos. Grosso modo, expor as massas àquilo que precisamente não se quer nelas é a clássica estratégia legada pelos antigos.

Aqui, deseja-se enxergar a “mass media” como a evolução histórica do teatro trágico e do mórbido e espetacular Coliseu, ou seja, um lugar-não-lugar em torno do qual todos estamos, de uma forma ou de outra, voltados e sendo alimentados por uma agenda de poder objetiva e específica. Se a mídia contemporânea herdou de fato o propósito trágico grego, bem como o seu animalesco desenrolar romano, somos, portanto, bombardeados com aquilo que é desejado que não mais tenhamos; ou que o tenhamos somente no momento exato do bombardeio. Entretanto, teriam as pautas jornalísticas, que enfileiram e desfilam aos nossos olhos desgraças de toda a sorte, por objetivo purgar definitivamente o povo desse material negativo com o fim de tirá-lo da barbárie nele remanescente? Ou o verdadeiro caráter dessa programação seria o de desviar a atenção e a ira popular da realidade podre e trágica na maior parte do tempo, reduzindo-a aos 45 minutos que o povo a visualiza a partir do conforto condicionado das poltronas-plateias domésticas?

Aristóteles sugeriu que no instante em que alguém não se ire com nada, “e não ache nenhuma coisa mais atraente do que outra qualquer, esse alguém deve ser algo muito diferente de um homem”. Pois é justamente nisso que estamos sendo transformados desde que aceitamos um lugar nas arquibancadas de pedra dos teatros gregos, ou seja, algo muito diferente de um homem. Palhaços? O pensador grego, ao afirmar que a tragédia é a imitação do superior, completou dizendo que “a comédia é imitação de homens inferiores”. Logo, sempre que há tragédia diante de olhos e almas, e se estas permanecem plácidas e espectadoras, a plateia é o lugar da comédia; a berlinda do bobo manipulado pelas circunstâncias; a periferia da arena onde se é passivamente sublimado daquilo cuja propriedade é tão somente nossa; ou seja, a nossa potencial revolta animal às contrariedades da realidade. Contudo, uma vez diante do espetáculo civilizador, “até que ponto um homem pode desviar-se sem merecer censura?”, pergunta-nos Aristóteles.

 

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