A satisfatória insatisfação quintanesca

“Esse mundo é a porta fechada. É um obstáculo. E ao mesmo tempo é a passagem”, disse Simone Weil. No entanto, o que seria do mundo se ele fosse exatamente como o desejamos, isto é, um lugar de felicidade e de realizações plenas? Nesse caso, certamente nos moveríamos menos, ou nada, ao modo das bactérias que só são devido às condições favoráveis nas quais se encontram. Mário Quintana, aos setenta e oito anos de idade, intuiu essa delicada ecologia escrevendo que “um poeta satisfeito não satisfaz”. Entretanto, não satisfaz a quem? Na proposital falta de indicação, devemos considerar que a ninguém, nem mesmo ao próprio poeta.

A afirmação do ilustre alegretense inverte o senso comum ao condicionar um horizonte insatisfatório à satisfação e ao atribuir ao seu oposto a abertura estimulante e viva que move, pois, para ele, “poesia é insatisfação, um anseio de auto-superação”, o que, nas palavras de Weil, significa “transformar todo o desgosto em desgosto de si”. Seguindo neste pensamento, a satisfação plena seria um absurdo estado solipsista que exclui inclusive o próprio sujeito suposto satisfeito, porquanto estar comprazido é, inadvertidamente, a contemplação estética de um outro – passado ou futuro – enquanto ficticiamente presente. Sentir-se satisfeito, portanto, atende diretamente a uma real insatisfação atual desejosa de não ser ela mesma, pois, de acordo com Weil, cada pensamento de orgulho involuntário em nós refere-se a uma humilhação intolerável.

Gaston Bachelard disse que “é a vida dos outros que traz para a nossa os acontecimentos”. A partir dessa colocação, pode-se deduzir que o contentamento individual, esse que coloca artificiosamente um único sujeito ideal (satisfeito) em todos os pontos do percurso ‘contente’, principia-se e termina na foraclusão de quaisquer outros indivíduos-sujeitos em função desse mesmo roteiro. Logo, tornando grave o gracioso pensamento do filósofo francês, é a nossa satisfação que leva embora os acontecimentos, e em benefício de um específico que outrora nos satisfez. Seguir satisfeito, por conseguinte, é congelar-se em um instante que teve a ventura de possuir tal qualidade; lembrando ainda, com Weil, de que “o apego não é outra coisa senão a insuficiência no sentimento da realidade”.

“Você não tem, apesar de todas as aberrações da sua vida, o privilégio de uma existência particular”, adverte Bachelard, e contrapondo a satisfação ao seu contrário, temos que aquela saca o sujeito do mundo enquanto este o imerge na trama instável do real. Nesta encruzilhada Weil nos pergunta se devemos “destruir o eu em proveito do universo ou destruir o universo em proveito do eu?” Uma vez exilados do éden insustentável da satisfação, e na assunção universal, só nos resta fazer como Quintana, ou seja, dividir graciosamente com os outros a gravidade da vida. “Meus poemas são eu mesmo, nunca escrevi uma vírgula que não fosse uma confissão”, falou o poeta gaúcho; pois, de acordo com Paul Valéry, outro poeta, “só podemos compreender a nós mesmos graças à rapidez da nossa passagem pelas palavras”.

Aqui é bom apreender essa fugacidade “da nossa passagem pelas palavras”, de que fala Valéry, e projetá-la sobre perenidade dos estados satisfatórios que almejamos, visto que eles são nada além da alienação do fluxo da vida e da repetição maniática de um ‘texto’ que outrora surtiu efeito. Contudo, Weil não nos deixa esquecer de que “o homem só escapa às leis desse mundo pelo tempo de duração de um relâmpago”, e inclusive a satisfação é tão fugaz quanto o instante aonde ela se deu. Por conseguinte, sabê-la já é rememorá-la! Para vivermos ‘no’ presente, e ‘o’ presente, a filósofa nos aconselha a “assumir a natureza de um escravo [insatisfeito]. Reduzir-se ao ponto que se ocupa no espaço e no tempo”, pois só assim estaremos livres dos desejos de satisfação que se assenhoram de nós.

Caso Quintana se desse por satisfeito, não teria a necessidade de transformar tal estado através de poemas. Porém, o volume e a expressão da sua obra atestam que sua insatisfação o manteve na roda do mundo, porquanto “a grandeza do homem é sempre recriar sua vida”, coloca Weil. O solitário poeta das ruas de Porto Alegre usou as letras para enfrentar as graves arestas da vida e burilá-las com graça e leveza. Simone Weil poderia estar falando de Quintana quando afirmou que ao homem é próprio “mudar a relação entre si e o mundo, assim como, pela aprendizagem, o operário muda a relação entre si e a ferramenta”; pois, para ela, fundamental é “ler a necessidade por trás da sensação”.

Portanto, melhor é conhecer e tirar proveito da insatisfação por trás da satisfação, porque aquela é primeira e também motor desta. A insatisfação é demasiada real e insuportavelmente presente, ou seja, inquestionável. Já a satisfação é artificiosamente ideal, reside sempre num aquém ou num além, e sua presença é nada mais que o desejo daquilo que está ausente. Consequentemente, desejar que a insatisfação não seja, ou nas palavras de Weil, “desejar que o mundo não seja é desejar que eu, tal como sou, seja tudo”. No entanto, para a filósofa, importante é “ter a força de contemplar a infelicidade quando se está infeliz”! Mário Quintana foi um desses que não desviou os olhos, nem sua ferramenta de trabalho, dessa matéria angusta do chão comum a todos. Sustentando corajosamente sua insatisfação, o poeta satisfez o mundo.

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