A necessária insatisfação filosófica

 

O estado filosófico é aquele descolado da realidade dada, e se instala quando o homem, de repente, se espanta com as coisas que lhe rodeiam e doravante não consegue privar-se de problematizá-las com a finalidade de melhor entendê-las. De certa forma, tudo o que existe em uma consciência é fruto de um movimento filosófico, profundo ou superficial, visto que, segundo George Berkeley, “não existem corpos não pensados”. Partindo, então, do pressuposto de que todas as coisas que existem para nós decorrem dos nossos pensamentos acerca delas, o trabalho do pensamento é que confere qualidade à existência. Do contrário, estaremos sedentariamente entregues “ao pensamento fechado, à coisificação idealista onde a ideia ocupa o lugar do real”, propôs Edgar Morim.

Num texto anterior a este citei a afirmação de Mário Quintana de que “um poeta satisfeito não satisfaz” para melhor pensar quão insatisfatória pode ser a satisfação. Parafraseio aqui o poeta alegretense sugerindo que um filósofo satisfeito também é incapaz de satisfazer a si mesmo e ao mundo, porquanto “toda a riqueza se funda na insuficiência, toda a satisfação na falta, toda a presença na ausência, todo o presente no imperfeito”, sugere Morin. A filosofia, portanto, é movida por uma grave reação à ação do ‘maravilhamento’ que, apesar do gracioso nome, instaura um espanto provocador em relação às particularidades do cosmos. É no surpreendente desconhecimento do já conhecido, ou seja, no estranhamento em relação ao corriqueiro que ressurge o salutar repensar do já pensado que paulatinamente nos afasta da ignorância acerca do misterioso real.

Sendo o homem o ser que só se dá por satisfeito na senda que desvela verdades a partir de aparências primeiras – ainda que possivelmente criando suas próprias verdades – o movimento do nosso pensamento deve investir no impensado que o comanda e o controla. “Nossa necessidade histórica é encontrar um método capaz de detectar, e não de ocultar, as ligações, as articulações, as implicações, as interdependências e as complexidades”, coloca Morin. Aqui é importante atentar para o primeiro significado da palavra “método”, a saber, “caminho”; e também para o fato de que trilhá-lo, nas palavras de António Damásio, é “aprender sobre a deficiência após se confrontar muitas vezes com ela”. Logo, o percurso imanente ao humano se dá em não desviar diante dos obstáculos, mas olhá-los, entendê-los, pensá-los e sabê-los.

Vencer dificuldades absolutas não é tarefa obrigatória dos homens, mas sim dos seus deuses. Por conseguinte, a consciência das limitações humanas encontra acolhimento e método – caminho – na filosofia, pois somente nela “a vida não é o aumento ou a multiplicação das qualidades físicas; é a sua passagem a um novo patamar”, sugere Morin. Sendo assim, filosofar é avançar quando qualquer outro movimento se encontra impedido. Só o pensamento tem essa dinâmica que desafia a realidade, pois, de acordo com filósofo francês, “as verdades do existente são sempre incompletas, mutiladas e incertas, visto que dependem daquilo que está para lá das suas fronteiras”. Já a completude, a certeza e o pertencimento, próprios da satisfação, mentem verdades que dependem do ostracismo do pensamento para existirem intra fronteiras.

Entretanto, “podemos aceitar que as questões-chave sejam lançadas no esquecimento?”, pergunta-nos Morin. Podemos sim, ao preço de nossa humanidade, conquanto tivéssemos estofo e disposição para tal. Caso contrário, a relação entre caos e ordem, entre desejo e satisfação, entre eu e o mundo, não pode dispensar mediação, e essa é a função magnífica do ser humano que tem na filosofia seu solo mais fértil. Embora conscientes e orgulhosos da grandeza auto atribuída à nossa espécie, Morin adverte-nos de que “só podemos partir com a ignorância, a incerteza e a confusão. Mas trata-se duma nova consciência da ignorância, da incerteza e da confusão”, ou seja, não um deslocamento para além do limite impossível, mas uma elevação própria à filosofia em relação a este mesmo limite, como que para poder ver melhor o que se esconde no horizonte distante.

Enfrentar metódica e corajosamente o caos, a confusão e a incerteza, antes de ser a forma de eliminá-los – doce e satisfatória ilusão humana -, é o modo de resistir a eles. Mesmo que não saibamos o que de fato é o real que teima em se esconder sob as ficções das nossas realidades, “a dúvida sobre a dúvida dá à dúvida uma dimensão nova, a dimensão da reflexividade”, aponta Morin, e assim, ao menos, podemos intuir algo verdadeiro, isto é, o que somos nós em meio a tudo isso. Para o filósofo, antropólogo e sociólogo francês “a organização fenomênica do próprio ser necessita duma reorganização permanente”, ou seja, de um método, de um caminho próprio que se desenrole a partir do espanto maravilhado do pensamento diante do real. A insatisfação diante do caos e da incerteza é própria do ser porque este insiste em uma natureza ordenada e dada. Entretanto, “a ideia de ser não é uma noção substancial. É uma ideia organizacional”, escreveu Morin.

Nesse sentido, a senda filosófica é a que oferece menos desvios ao não prometer atalhos furtivos, visto que sua insistência na insatisfação é a consciência sempre presente de que o real teima em se velar a nós. Devemos nos abrir à filosofia, porquanto só assim, nas sábias palavras de Morin, “a abertura trazida pela ideia de abertura deve abrir-nos também o problema do encerramento sobre si dos seres abertos”. Só assim o nosso mundo poderá ser verdadeiramente posto em questão e andar a despeito daquilo que o encerra em si mesmo. O mundo antigo, apesar das suas contradições petrificantes, só evoluiu até aqui por insatisfazer-se consigo mesmo, por questionar-se e por pensar metodicamente na impossibilidade que ele próprio era.

Embora a satisfação eletrodoméstica da nossa contemporaneidade nos aliene da necessidade de revolucionar essa mesma contemporaneidade, há questões e insatisfações que, não tratadas devidamente, engordam colateralmente até explodirem em suas próprias hipertensões. O individualismo consumista atual mente uma satisfação imediata ao preço de ocultar a gravidade insustentável que é produzida longe da atenção filosófica. Todavia, “quanto mais autônomo se torna o existente, mais descobre a sua insuficiência, mais-olha na direção dos horizontes, mais procura os aléns”, conclui Morin. Assim como a satisfação é efêmera na medida de sua manutenção, o ponto de onde ela parte, e ao qual retorna, é sempre o seu oposto, isto é, a insatisfação. Nesse sítio encontram-se os poetas do calibre de Quintana, bem como os verdadeiros filósofos; além fronteiras sedentarizam-se burgueses satisfeitos de todas as espécies.

 

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