Suicídio roubado

Cultural, legal, religiosamente somos advertidos de que o suicídio é um mal impróprio. Mesmo que vivamos, hoje, em um mundo superpopulado, com cada vez menos oportunidades de uma vida digna, sem falar na exaustão da Natureza que os mais de sete bilhões de humanos promovem, tirar a própria vida ainda é tomado como tabu. Entretanto, como colocou Hume, “o suicídio é um poder do homem, “não mais ímpio que o de construir casas”, e que deve ser utilizado em circunstâncias excepcionais”. Embora o decreto de “circunstâncias excepcionais” extremas tenda a ser uma decisão a partir do coletivo, seu grão menor surge no e pertence ao indivíduo.

Temos o carma absolutamente humano de sabermos da nossa própria morte, porém, não quando ela acontecerá. Sintomaticamente, foi instituído o grande tabu que não permite que a um só tempo saibamos ‘que’ vamos morrer e ‘quando’; e o suicídio é a consciência dos dois! Os demais animais, inversamente, não sabem ‘que’ vão morrer, no entanto, parecem saber ‘quando’, tanto que a maioria deles se isola na percepção da chegada de sua própria morte, sem que esse movimento seja inapropriado ou absurdo para os outros. Ademais, essa é uma prática bastante ecológica. A diferença entre eles e nós é que, uma vez na cultura, nós perdemos o direito de não mais cultuarmos, inclusive a nós mesmos.

Deleuze coloca que “a sociedade não pode garantir direitos preexistentes: se o homem entra em sociedade, é justamente porque ele não tem mais direitos preexistentes”; dentre eles, por conseguinte, o direito individual de atuar no sentido de seu próprio fim. A cultura precisa de cada indivíduo mais que ele dela, por isso é ela que diz como e até quando ele deve viver. Consoando a cultura à poesia através da intuição de Hume, “quanto mais o poeta sabe nos afligir, nos aterrorizar, nos indignar, mais contente [devemos] ficar”, mesmo que este seja um estado ilusório e não genuinamente subjetivo. A “fantasia se encontra na fundação de um mundo, mundo da cultura e mundo da existência distinta e contínua”, afirma Deleuze, e a palavra “contínua” se opões à descontinuação máxima, ou seja, ao suicídio.

Pelas condições sociais de muitos animais, podemos vislumbrar, a partir da nossa, por que eles se retiram dos seus grupos quando vão morrer. Já o homem o faz entre os seus, o que leva à pergunta: seria essa decisão de morte, ao mesmo tempo, um comunicado especial e derradeiro à sociedade? “Todo homem particular tem uma posição particular a respeito dos outros”, disse Hume, e caso essa posição individual seja de oposição absoluta, a morte pode dizer tudo com nenhuma palavra, enquanto que em vida seria impossível dizer tudo; até por que, de acordo com o filósofo, “as palavras produzem um simulacro de crença”, não a verdade do que querem dizer. O silêncio não obstante fala eternamente, porquanto a voz do tempo.

Independentemente de querer expressar mais do que simplesmente ele próprio, o suicídio é uma das paixões dentre as muitas que temos, e reprimi-la deveria figurar tão antinatural quanto a quaisquer outras. O indivíduo é disposto de maneira a produzir paixões, e para Hume “ele apresenta uma disposição própria e particular à paixão considerada”; visto que “uma paixão é uma existência primitiva, um modo primitivo de Existência”. Entretanto, seria a paixão pela inexistência algo de extranatural? As paixões naturais, porventura, não deveriam ter primazia sobre quaisquer instituições posteriores sobrepostas e contrapostas a elas, sejam as culturais sejam as religiosas? Caso percam a batalha, “a alternativa em que se encontram as paixões é esta: satisfazer-se artificialmente, obliquamente”, completa Deleuze, para quem “a cultura é uma experiência falsa”.

Em uma circunstância excepcional, onde o indivíduo se perceba sem soluções disponíveis a não ser suicidar-se, não teria ele o direito de não ser desestimulado nessa empreitada demasiada corajosa? Todavia, quando nessas condições, “o problema do eu sem solução”, afirma Deleuze, “encontra um desenlace moral e político unicamente na cultura”, ou seja, o suicida deve, antes, consumir psicanálise, medicamentos e eletrodomésticos enquanto soluções sintéticas sociais às questões naturais individuais. É vetada ao ser humano, portanto, uma ação que negue e não retroalimente o $i$tema, e o suicídio é essa atuação, e irremediável.

Deleuze sugere que “o poder da imaginação é imaginar o poder”; logo, aventar a própria morte é um poder em potencial em cada homem devido a sua própria imaginação. Entrementes, uma vez sistematizados, “não somos apenas sujeito, somos outra coisa ainda, somos um Eu, sempre escravo de sua origem”, coloca o filósofo; isto é, escravo de uma origem social e cultural, porquanto ostracizados de nossa origem primeira, a saber, a animal. Somos, por conseguinte, obrigados a suprir e a ‘cultuar a cultura’ até um limite que de modo algum pode ser definido individualmente, porém culturalmente, limite esse que é, através da medicina e da ciência, constantemente afastado.

Tomamos o conhecimento da morte e no mesmo instante perdemos a ingerência sobre ela, pois sabê-la tornou-se a obrigação de evitá-la junto com idolatria da vida a qualquer preço. Mas, como concluiu Hume, “o idólatra é o homem das “vidas artificiais”, aquele que faz do extraordinário uma essência”. Atentando para o sentido da palavra ‘extraordinário’, e concebendo a vida enquanto a ordem à qual não tivemos a oportunidade de descumprir, já que vivos, optar por deixar essa condição ordinária deveria, portanto, voltar a ser um direito natural e não estigmatizado, porquanto ele é o único que a cultura não pode nos oferecer.

 

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