Mínima arte

As grandes obras de arte são evidentes e transcendem quaisquer predicações que atribuamos a elas. Para mim, a maior delas é a Fonte de Netuno, feita pelo artista renascentista Bartolomeo Ammannati, colocada na esquina do antigo Palazzo dos Médici no centro de Florença. A escultura principal, o deus romano dos mares, insiste em nos fazer esquecer de que se trata de um bloco de mármore trabalhado pela mão humana. Sua superfície incita à sensações tão ou mais intensas que as causadas por um belo corpo humano de carne e osso; afora essas, impressões profundas acerca dos limites do homem, da profundidade da história e da eternidade da beleza.

Uma arte como essa está em um limite inquestionável, entretanto, apesar de afirmar sublimemente o que é a Arte, ela não diz tudo, justamente por ofuscar um outro tipo de arte que se encontra no extremo oposto, ou seja, a grande arte de fazer pequenas coisas. Embora fossem grandes mestres das belas artes, os gregos, inspiradores diretos dos megalômanos romanos, ofereciam espaço tanto às grandes obras quanto às pequenas. Para os helenos, o bom ceramista era um artista no seu ofício; o bom médico, na sua; o pedreiro que esculpia um dos capitéis das colunas gregas produzidas em série, também. Na modernidade esse tipo de arte foi reduzido à técnica, mas como a Idade Moderna já se foi, também seus conceitos podem ser questionados.

Os gregos entendiam que a capacidade de executar competentemente uma tarefa e de poder repeti-la é atributo de um artista, pois efetivar uma grande obra é possível a muitas pessoas, no entanto, poder realizá-la várias vezes é uma arte. A Hélade era tão atenta e respeitosa às mínimas artes quanto às máximas, e talvez por isso tenha se perpetrado exitosamente história e ocidente adentro. No entanto, uma arte mínima, menor que as grandes mínimas artes dos gregos, de acordo com o conceito de arte para eles, isto é, a capacidade de realizar plenamente um trabalho tantas vezes quantas forem necessárias, é uma habilidade há muito presente na Natureza.

Voltando ao início da vida na terra, aquele ser que primeiramente conseguiu sintetizar carbono, água e luz em glicose, e que a partir de então repetiu com sucesso essa tarefa, não pode, de certa forma, ser desconsiderado como o primeiro grande artista vivo do nosso planeta, criador de uma arte vital. Todavia, a vida e sua arte fundamental são tardias em relação à existência propriamente dita que remete ao limite absoluto do Big Bang. A partir dessa explosão singular, energia criou o espaço no mesmo movimento de ocupá-lo.  Entretanto este evento, apesar de cósmico, foi único, visto que não houve arte capaz de reproduzi-lo.

Por conseguinte, a primordial capacidade de executar com competência um trabalho, e de repeti-lo devido à sua eficácia, ainda que cega e sem autoria, foi a atração entre as partículas atômicas dispersas no universo após o Big Bang.  A primeira obra dessa artista, a saber, a força gravidade, foi a composição de dois singelos átomos, e no “working-process” do atelier cósmico temos hoje estrelas e planetas de belezas supremas, além de um catálogo insondável de obras ainda desconhecidas. Apesar de ser um trabalho sem autor determinado, o que muito afronta a vaidade humana, a primeira obra universal, isto é, a junção de ínfimos átomos, é a obra de arte primordial e mínima que, na exuberante galeria ‘a universo aberto’, divide as atenções com a dos ceramistas e a dos grandes escultores de deuses romanos.

 

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