A Arte e suas funções

Por que motivo é dito no mundo da Arte que ela não tem função? Retoricamente, a afirmação é impressionante, pois tem o poder de agregar valor ao objeto justamente desfuncionalizando-o. Entretanto, seria essa pulsão contemporânea desfuncionalizante, na verdade, o desejo sintomático de que ela tenha muitas, senão todas as funções? Porém, a máxima em questão carece de sustentabilidade, porquanto nada no universo surge nem persiste sem ter uma função precisa. Retomando Aristóteles, “tudo o que é, é por necessidade”, ou seja, tem sua função, do contrário morre, perece e desaparece. Resistindo em acreditar que seja esse o sentido intentado contra a Arte, cabe investigar melhor no que esse esvaziamento funcional da arte lhe preserva funcionalidade.

Dizer que a Arte não tem a função de entreter, nem a de ser sublime, tampouco a de ser eterna, explica pouca coisa, porquanto a arte ruim de todos os tempos é a que cumpriu esses propósitos. No entanto, sendo extremamente pragmático, a Arte, hoje em dia, não teria, no mínimo, as funções de oportunizar carreiras espetaculares a muitas pessoas, de transformar o trabalho em muito mais dinheiro do que ele vale e de criar em torno de artistas e afins um “environment” glamoroso e diferenciado? De acordo com as ambições atuais de muitos indivíduos e com os frutos que vários deles colhem, sim, sem dúvida. Então, por que são justamente estes os que insistem em dizer que a Arte não tem função, se para eles ela teve, no mínimo, as citadas acima?

Fama, fortuna e glamour são resultados da função da arte contemporânea bem mais palpáveis, inclusive, que entretenimento, beleza e eternidade. Porém, todos eles, não devem ser institucionalmente furtados das funções da Arte, embora um ou outro, ou a maioria, eventualmente não se cumpra. Privar verticalmente a Arte de um propósito é dispensá-la de ter de cumpri-lo, é valorizá-la ao passo de poupar-lhe trabalho. O paralelismo capitalista é evidente! Ao afirmarem que a Arte não tem função, os bem sucedidos nesse ‘métier’ sobrevalorizam-se dizendo que não é nada além deles próprios, nem a própria Arte a responsável pelo sucesso e realização que alcançaram. Esquecem-se, contudo, que dentre os muitos escopos da Arte, um deles é o de oportunizar carreiras e sobrevivência aos que possuem determinados talentos, e isso não é pouco!

Os que defendem que a Arte não tem função atribuem qualquer uma, inclusive as supracitadas, às pessoas ou aos momentos históricos. Diz-se que não há A Filosofia, mas sim filosofias. Entretanto, é o sumo conjunto de todas as filosofias que, finalmente, instituem A Filosofia, isto é, uma coisa feita exclusivamente pelos humanos e em vista dos humanos. Da mesma forma, A Arte é o resultado histórico de todas as artes individuais, não podendo nem devendo ser desfuncionalizada em relação às pessoas e suas necessidades. A Arte só persiste no caminho da humanidade por ser funcional, e negar isso, portanto, aponta ou para um esquecimento, intencional ou não, ou para uma intenção proposital em vista de atribuir mais uma função à Arte, ou seja, além de todas as outras, inclusive a de não ter função nenhuma. Histeria!

Talvez seja a presença massiva e estimulada da Arte na vida das pessoas a responsável pelo esquecimento do seu propósito na contemporaneidade. Logo, seria menos leviano dizer que não se sabe mais muito bem qual a função da Arte antes de afirmar que não há nenhuma. O homem desconhecia o campo magnético da terra até o século XV, e a partir de então descobriu seu propósito de orientar as agulhas das bússolas; posteriormente, acumulou a finalidade de guiar as migrações de espécies animais; e hoje sabemos que ele inclusive protege a terra das mortais radiações cósmicas. Essa digressão se presta para mostrar que tudo no universo é pleno de função, mesmo que as pessoas ainda as desconheçam, porquanto o sentido da existência de cada coisa é ter uma função em função de todas as outras, afinal, o universo é um.

A Arte, portanto, só existe porque tem tantas funções quantas são as coisas com as quais ela se relaciona. Logo, é antinatural, para não dizer irracional, desatribuir-lhe funcionalidade, bem como a qualquer outra coisa, principalmente às que acompanham o homem desde sua origem. Cabe aqui perguntar se o que é extremamente recente na Arte, isto é, a sua pretensa falta de função, tem sua função. No entanto, é impossível dar uma resposta negativa, pois inclusive essa função de não ter função é uma função bem específica, e inclusive importante. Resta aqui uma certeza includente, a da dúvida contemporânea acerca da função da Arte para além de todas as outras.

 

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