Assalto Onírico

Há quatro distanciamentos possíveis em relação ao sonho: o primeiro é a distância zero, ou seja, estar sonhando, ser o sonho; o segundo é a distância mínima, quando se acorda de um sonho e segue-se pensando nele, já em vigília; o terceiro distanciamento é lembrar-se de um sonho algum tempo depois de tê-lo sonhado, como quando ele nos assalta em meio a uma atividade diária qualquer; e por último, a distância máxima, irrecuperável, que é nunca lembrar-se do sonho. Aqui, o que mais interessa é o terceiro distanciamento, isto é, o retorno triunfante e inesperado de um sonho no terreno da vigília e a relação desse retorno com o momento em que acontece, pois, segundo o psicanalista Hanns Sachs, “o que o sonho nos revelou de sua relação com o presente, procuremos descobri-lo também na consciência”.

Acordamos e caímos na rotina diária até que, por exemplo, no meio da tarde, uma pessoa ou um objeto qualquer nos lembra de um sonho esquecido. Somos, então, assaltados por um evento onírico de que não nos lembrávamos, e de pronto fazemos uma espécie de “download” em alta velocidade de todo um conteúdo inconsciente ao “desktop” da consciência. Entretanto, adverte Freud, “o sonho não é o inconsciente, é o molde em que pode ser refundido, graças ao favorecimento do estado de sono”. Logo, o sonhado irrompe no desperto devido a uma forma, a um modo ou a uma disposição comum entre ambos, pois o desejo do sonho parece ser o de realidade, e para isso ele a espreita em vias de oportunizar sua vinda à consciência.

Na intromissão onírica vigília adentro somos imediatamente seduzidos pela dramaturgia ‘sui generis’ do sonho e deixamos escapar aquilo que, na realidade, viabilizou a irrupção desse material inconsciente. Isso se dá, talvez, porque “o caráter irreconhecível, estranho, absurdo do sonho manifesto é, em parte, consequência da transposição dos pensamentos oníricos para um outro modo de expressão”, coloca Freud, pois “objetos, atividades e relações são representados no sonho, indiretamente, por símbolos que o sonhador utiliza sem lhes conhecer o significado”. Portanto, o mergulho na investigação e na fruição desses significados desconhecidos é priorizado em detrimento daquilo de ordinário que sonho e realidade encontraram em comum manifesto no instante do assalto onírico.

Freud não considera a dúvida e a incerteza na narrativa onírica e trata os elementos do sonho como seguros. Entretanto, questiona a intervenção da censura a que está sujeito o sonho. Por conseguinte, ao nos ocuparmos com o sonho em si a partir do momento em que ele nos assalta, inadvertidamente desconsiderando a chave específica que lhe abriu à realidade, ou seja, o ponto de intersecção real entre ambos, aí temos a primeira censura, ou repressão à relação que o sonho tem com a realidade. “No sonho, essa parte excluída bate às portas guardadas pelas resistências, exigindo admissão”, aponta Freud. Podemos inferir, então, que é em função dessas resistências, dessas ‘portas guardadas’, e no sentido delas, que o sonho se dá.

Portanto, dedicar mais atenção à narrativa onírica do sonho que ao ponto de resistência que ele encontra na realidade, e que vitoriosamente rompe, é perder o escopo primordial do movimento do inconsciente, a saber, o de harmonizar a dinâmica incompleta da esfera consciente. Freud diz que “o sonho se distingue da vigília pelo fato de aceitar conteúdos do âmbito do reprimido que não podem ocorrer na vigília”. Logo, o momento singular da erupção do sonho quando estamos acordados é a grande oportunidade de se conhecer aquilo que é reprimido na consciência, porém, inconscientemente. Fruir conscientemente o material inconsciente estruturador do sonho é pouco produtivo visto que “o material dos pensamentos que o sonhador relaciona ao conteúdo manifesto do sonho é insuficiente”, coloca Freud; pois, para ele, “a linguagem do simbolismo não conhece gramática”.

Deste modo, cabe atentar preferencialmente ao instante revelador em que a realidade baixa sua guarda e aonde o sonho volta a ser. O que se esconde, por exemplo, na queda de uma xícara em realidade e que remete, inescapavelmente, ao solo onírico habitado há muitas horas ou dias atrás? Afora essa singularidade o sonho é apenas uma forma de pensamento, intuiu Freud, porquanto, segundo ele, “durante a vigília recorremos a artifícios especiais para acolher em nosso Eu o reprimido, contornando as resistências e obtendo algum prazer”. O sonho só é verdadeiramente genuíno e pleno durante o trabalho do sono e no instante em que se nos apresenta, pois “apenas o cerne do sonho retorna a cada vez, pormenores do conteúdo são mudados ou acrescentados”, afirma o pai da psicanálise, para quem “o âmbito do simbolismo ultrapassa aquele da linguagem comum”.

O sonho, no momento em que assalta a vigília, aventa um grande ponto de comunicação do inconsciente com o consciente, onde, numa promissora consonância, aquele emparelha sua diferença com este. Em sentido oposto, a vigília, no instante em que se deixa assaltar pelo sonho também deseja comunicar consciência à inconsciência, isto é, dizer da consciência da inconsciência! – nem que seja apenas para um aceno fugaz ao estilo “O feitiço de Áquila”. Embora sejamos escaldados nesses momentos de assalto onírico, é difícil superá-los, pois facilmente cedemos ao convite para revisitar o sonho e não o caminho da realidade que antecedeu a esse assalto; o que levou a ele e que, talvez, tenha sido o proposito primordial do sonho assaltante, ou seja, encontrar momentos futuros onde pudesse ser presente. Mas, adverte Freud, “o inconsciente também pode mentir!”

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