Berlinda Subjetiva

Uma delicada harmonia entre as esferas subjetiva e objetiva estrutura e confere saúde à realidade das pessoas. É só no embate equilibrado entre as disposições internas, que em um sentido fazem o sujeito, e as externas, que em outro sentido ensinam sobre todo o resto, ou seja, aquilo que não é ele, que se estabelece a necessária ecologia do Eu. Entretanto, o mundo contemporâneo cada vez mais insiste na esfera subjetiva de determinados indivíduos a ponto de desequilibrar perigosamente a justa composição das realidades dos demais.

A um conhecido cantor e compositor brasileiro uma jornalista perguntou: “Como você está sendo para você lançar mais um álbum?” “Está sendo ótimo, é um momento muito especial”, respondeu ele. “E como você está se sentindo com isso?”, segue a entrevistadora. “Sinto-me muito bem, é uma alegria ver meu trabalho amado pelas pessoas”, disse o cantor. “Você está feliz?”, prossegue a jornalista. “Sim, estou muito feliz!”, coloca o artista. “Feliz como?”, insiste a mulher. “Muito feliz”, devolve ele. “Mas, feliz quanto?”, força ela. Pausa longa.

Na dificuldade de seguir nessa direção o cantor estagnou e começou a repetir-se, parafraseando suas respostas anteriores; porquanto ele parecia estar mais disposto e apto a falar da sua música, ou sobre música, do que da especificidade fina dos seus próprios sentimentos para uma mulher que mal conhecia. Porém, a jornalista não mostrou interesse algum em nada além dos eventos internos dele. Em suma, a entrevista foi sobre como o artista sente e não sobre o seu trabalho, ou sequer sobre música.

Através deste exemplo sobrevém a esterilidade do investimento desarmônico no mundo subjetivo em detrimento do objetivo, visto que um não se sustenta sem o outro: são complementares fundamentais. Entretanto, que necessidade subliminar levou a jornalista a desconsiderar metodicamente o motivo objetivo que levou o artista à berlinda pública e a questioná-lo obsessivamente sobre como e quanto ele sente? Essa resposta também diz respeito a uma necessidade que é nossa, porquanto somos nós os consumidores visados destes produtos midiáticos.

 A exposição intensiva daquilo que “alguém outro” sente – de como, e de quanto sente -, ao mesmo tempo em que relembra-nos do essencial espaço subjetivo inerente a cada ser humano, também esconde de modo eficaz o fato de que esse mesmo espaço em cada um de nós cada vez menos importa ao mundo. Somos tão somente objetos combustíveis para o Sistema. Entretanto, como em Matrix, devemos ganhar a ilusão daquilo que não temos, ou seja, da importância exterior das nossas subjetividades. E a mídia, por conseguinte, é o braço sistemático que distribui a ração transgênica com altos teores de subjetividade aos sujeitos objetos.

Que subjetividade mais rica e promissora há que a do artista? E que objetividade garimpadora mais eficaz que a do jornalista? Entretanto, a permanência de ambos no terreno das sensações daquele foi estéril por não levar nada de mundo aos que os assistiam. Falassem eles de música, de arte, ou das relações entre estas e as pessoas, o telespectador poderia construir, ele mesmo, um equilíbrio só seu entre o que ele mesmo sente e mundo objetivo ao seu redor. Porém, apenas com a subjetividade de outrem, o público não tem objetos suficientes para estruturar e sustentar os sujeitos que deveriam ser. Preenchemos, portanto, o espaço das nossas subjetividades relegadas com outras sagazmente manipuladas para tal.

 O coringa sintomático dessa estratégia de sucesso do Sistema contemporâneo é a sofisticada instituição da “celebridade”, isto é, a subjetividade plena esvaziada de qualquer objetividade. A celebridade é sem ser nada além disso mesmo; o ser talhado para ser entrevistado e através do qual se transmite subjetividades apropriadas às massas. Já estes últimos são o espelho invertido daquelas, ou seja, as objetividades indispensáveis dispensadas de suas próprias subjetividades. Nas mãos do sistema devemos ser, subjetiva e objetivamente, objetos plenos e condicionados.

Porém, a angústia daquele artista diante da sessão pública de psicanálise em que se transformou a entrevista de lançamento do seu último álbum mostra, de certa forma, o limite de desequilíbrio possível ente as esferas subjetiva e objetiva que constitui a realidade de cada indivíduo. Nem o mais fino perscrutador midiático ou psicanalítico pode transpor essa fronteira sem que o sujeito comece a se repetir a fim de preservar a elipse inviolável que o separa do mundo. E nem o mais criativo artista consegue converter em imagens divulgáveis tudo o que acontece dentro de si. A chave do sujeito está perdida desde sempre!

É impossível transmitir completamente um sujeito aos outros, e nisso reside a complexidade e a complementaridade de cada um deles. O Sistema, não obstante, segue tentando fazer o desumano upload de subjetividades sintéticas apropriadas aos seus próprios fins aos dessubjetivados objetos pelos quais nos tomam. Analogicamente, esse desequilíbrio em favor do Sistema é desenhado contra nós na taxa de 10% de upload para a de 90% de download das nossas conexões com a internet: receber da “rede” dez vezes mais do que transmitir a ela; enquanto que um equilíbrio saudável estaria em torno de 50/50.

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