# h a s h t a g s

O símbolo “#”, cujo nome técnico é octothorpe, seguido de uma palavra qualquer forma a hashtag que, inicialmente, servia como indexador de hiperlinks. Porém, nas mãos da nossa sociedade “hiper internetizada”, a hashtag tornou-se um portal que reúne pessoas em torno de interesses comuns. De função objetiva e informática, as # tags converteram-se em virais agregadores subjetivos às palavras que, no mundo digital, são sistematicamente dessubstancializadas. Contudo, a substituição generalizada das construções linguísticas tradicionais por tais simplificações oportunas ameaçam a Língua tanto quanto os SMSs e os Chats, produzindo uma nova espécie de analfabetos funcionais, só que digitais.

Em 2007, o Nerd do Google Chris Messina usou pela primeira vez a hashtag no twitter; mas foi nas manifestações pró-democráticas iranianas de 2009 – # iranelection – que a inovação ganhou definitivamente o mundo. A força gravitacional dessa encenação linguística protagonizada pelo hashtag atende, citando Nietzsche, ao “sentimento da imensa distância e do imenso vazio perante nós: e a engenhosidade de todas as pessoas consiste em sobrepor-se a este terrível sentimento de deserto”. A # tag evidencia “algo para o qual você precisa voltar sua atenção agora, neste momento, e que você pode se envolver”, coloca Ruth Page, pesquisadora de mídias sociais e linguagem. Sobre o # iranelection de 2009, o que pode ser dito, com certeza absoluta, é que o mundo das hashtags foi realmente ampliado. E o do humano?

A hashtag, quando brilha nos nossos displays digitais, incita subconscientemente a duas coisas: olhe para isso e compartilhe, agora!; porquanto transforma poucos caracteres em um slogan de potência memética incalculável. A força dessa expressão transcende as plataformas virtuais, impondo-se como uma nova cultura discursiva, inclusive encontrando espaço nos encontros presenciais, com as pessoas sobrepondo os dedos e criando hashtags materiais, através das quais se comunicam breve e rede-socialmente referenciadas. Nietzsche nos diz que “o homem demora muito para descobrir como o mundo é complicado. A princípio, ele o imagina muito simples, ou seja, tão superficial quanto ele próprio”, e através das # tags podemos seguir surfando nessa superficialidade.

Apesar de as hashtags, atualmente, serem revestidas de ironia e preenchidas de metacomentários, todos subjetivamente claros a quem as escreve, quem as lê “não acredita objetivamente nelas, pois o que verdadeiramente foi pensado está contido na ‘#”, alerta o linguista computacional Jacob Eisenstein. Aí, esse tipo de comunicação encontra uma espessura de existência menor do que aquela apontada acima por Nietzsche, visto que, para o filósofo, “as coisas são apenas os limites do homem”; portanto, um símbolo a mais, nesse caso a hashtag, limita o homem mais que o liberta. E aqui, não é demais lembrar que em português o “#” é chamado de “cerquilha”, e essa palavra carrega consigo uma ideia muito precisa.

O octothorpe, a saber, o “#”, tem sua própria história, servindo aos homens, aqui e ali, ocasionalmente, mas servindo-se deles absolutamente, pois sua existência é como a de um vírus, cuja meta principal é reproduzir-se e, como todo vírus, aniquilar seu hospedeiro – não lhe oferecer melhorias offline. . Todavia, sua existência é como a de um vírus, cuja meta principal é reproduzir-se e, como todo vírus, aniquilar seu hospedeiro; e não lhe oferecer melhorias offline. Linguisticamente, já estamos ameaçados! Um aforismo de Nietzsche diz que “para as plantas, o mundo inteiro é feito de plantas, para nós, de homens”; logo, para as hashtags, o mundo inteiro é feito delas próprias. Em espanhol, o “#” é chamado de “almohadilla”, ou seja, almofadinha, que bem pode simbolizar o conforto que as # tags proporcionam a quem quer dizer muito mais do que escrever. Entretanto, essa arte já é dos poetas, plena há muito, sem “hashs” nem “tags”.

 

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