Elite na torcida

Na ausência de uma presidenta inimiga à vista, a controversa “Elite Branca”, dos seus assentos VIP padrão FIFA, vaiou o Hino Nacional chileno em plena execução, ao vivo e a cores para todo o mundo. Aos que não são elite, VIP, nem padrão FIFA, restou somente uma sensação de vergonha que, infelizmente, não pode ser dita alheia por quem é brasileiro. No entanto, ao vaiar a presidenta e os chilenos, o que essa classe privilegiada mostrou de fato foi sua incapacidade de entender, respeitar e aceitar aquilo que se coloca como adversário.

Claude Lévi-Strauss disse que “um espírito malicioso definiu a América como uma terra que passou da barbárie à decadência sem conhecer a civilização”. Consoante à frase do antropólogo, podemos enxergar uma elite maliciosa definindo um Brasil carente de tal civilização. Na noite anterior ao jogo, no burguês e boêmio bairro da Savassi, em BH, essa elite que pode pagar $15 por uma cerveja confraternizou amigavelmente com os mesmos adversários. Entretanto, poucas horas depois, essa hospitalidade brasileira tornou-se inóspita e inoperante através do “Uuuu” coletivo e dissonante entoado contra o hino do vizinho latino-americano.

“O prestígio é uma espécie de domínio que uma pessoa exerce”, e a partir de onde ela “não tolera qualquer demora entre seu desejo e a realização dele”, disse Freud. O que seria, por conseguinte, o desejo dessa “Elite Branca”, manifesto no “ei-dilma-vai-tomar-no-cu” e no “Uuuu” ao hino do adversário de jogo? A máxima da socialite – branca, elitista e paulista – pode ajudar nessa resposta: “eu não sou melhor do que ninguém, mas paguei mais caro!”. E o psicanalista alemão já nos advertiu de que “uma massa desse tipo se comporta como uma criança mal-educada, ou como um bando de bichos selvagens”.

Talvez, o desejo da “Elite Branca” seja simplesmente o de seguir estruturando a realidade em benefício próprio através do grito robusto de suas contas bancárias, porquanto, esse é o seu grande poder. “Não tenho medo de ti, te enfrento, possuo um pênis”, afirmou Freud em relação ao poder intimidatório do macho na natureza. Todavia, os falos dessa “Elite” são os seus muitos cifrões, e é com estes que fodem&intimidam quem ameaça a realização dos seus desejos. Segundo Lévi-Strauss, “o excesso de luxo e o excesso de miséria faz uma sociedade na qual os que têm tudo não oferecem nada” a quem nada tem, ao contrário, tomam-lhe mais.

Freud entendia que na massa o indivíduo é amado pelas perfeições a que aspirou a si próprio, e é através desse rodeio que procura obter a satisfação de seu narcisismo. Portanto, os mal-educados elitistas elogiaram-se mutuamente ao vociferarem juntos contra aquilo que desacorda com os seus desejos mimados. Acostumados a abrirem a carteira e voilà!, os abastados fizeram o mesmo “em estádio”, porque, de acordo com Freud, “a noção do impossível desaparece para o indivíduo na massa”, precisamente porque “as massas nunca tiveram a sede da verdade”.

“Pelo simples fato de pertencer à massa o homem desce vários degraus na escala da civilização”, disse Freud. Essa decadência é potencializada no movimento da nossa camada $uperior – seja contra a presidenta, seja contra o hino do Chile – porque é justamente ela, porquanto vitoriosa e privadamente atendida por educação, saúde, segurança, lazer internacional, etc., que decai abissal e vergonhosamente ao nível do miserável ignorante carente de política e de palavras melhores do que a vaia e o palavrão. Isso porque “no anonimato da massa desaparece por completo o sentimento de responsabilidade que sempre retém os indivíduos”, completa Freud.

Em qualquer uma das classes, “o sentimento social repousa na inversão de um sentimento hostil”, e “quando a hostilidade se dirige para pessoas normalmente amadas, chamamos isso de ambivalência”, colocou Freud. A primeira valência dos protestos da “Elite Branca” é dada e comum, visto que o desagrado em relação ao adversário, no aperto do embate, faz parte da luta pela vitória. E esse primeiro valor é inclusive compartilhado pela a maioria da população brasileira, também insatisfeita com os desgovernos da sua governante e não menos ciente da ameaça em potencial do futebol adversário.

Entretanto, a segunda, pervertida e importante valência da hostilidade VIP reside no fato deles não aceitarem a possibilidade de derrota, seja política, seja esportiva, e no desrespeito público às regras de qualquer jogo que não possam vencer com os seus falo$. Já os desprivilegiados, perdedores por natureza, apesar dos seus desejos de vitória, não são estrangeiros em relação ao sabor angusto do Real: perder uma eleição ou uma copa é ruim, claro, mas o que é perder para quem é habituado à perda? Participar do jogo deveria ser suficiente. Porém, para quem já tem mais do que o suficiente, apenas participar figura como derrota: sem essa de espírito esportivo!

“Toda a paisagem apresenta-se como uma imensa desordem que nos deixa livres para escolhermos o sentido que preferimos lhe atribuir”, escreveu Lévi-Strauss, e a paisagem brasileira está aí, não menos aberta aos sentidos que desejamos e, mais importante, podemos lhe atribuir. Entretanto, qual é a nossa capacidade, enquanto massa total, “Elite Branca” + “deselitizados”, de atribuirmos um sentido mais apropriado e educado à nossa realidade comum? Para Freud, “trata-se de prover a massa daquelas mesmas qualidades que eram características do indivíduo e que nela foram extintas pela formação da massa”; ou seja, para as elites, vergonha na cara e contingência, e para todos os outros, vergonha na cara e emergência!

 

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