Desejo de tempo

Reclamamos o tempo todo que cada vez mais o tempo nos falta, e culpamos o ritmo frenético da vida contemporânea com suas constantes e excessivas demandas. Porém, esquecemos com isso de que o escravo grego, o servo medieval e o proletário moderno tampouco tinham o tempo necessário para a suposta grande atividade da vida, a saber, realizar os próprios desejos. Não somos, por conseguinte, menos afortunados que os nossos antecessores históricos em matéria de tempo, e se tal miséria nos parece imperiosa, cabe aqui indagarmos sobre a responsabilidade por essa carência.

O tempo, em si mesmo, não pode ser pouco nem muito, visto que puro e infinito. Sua pureza fica evidente ao ser dividido, seja em quantas partes desejarmos, inclusive nas mais ínfimas: o que resta é sempre a mesma coisa, isto é, tempo, nada além dele mesmo, disse Aristóteles em sua “Física”. Já um ser impuro, uma pessoa, por exemplo, quando dividida, torna-se sempre algo de outro: membros, órgãos, células, átomos, etc., pois, ao se dividir algo impuro, o que resta é sempre outra coisa que não o que foi dividido.

Portanto, é do impuro que surgem as quantidades sensíveis, pois, conforme o exemplo acima, uma pessoa se torna quatro membros, dezenas de órgãos, milhões de células, “ad infinitum”, porém, não mais uma pessoa. Enquanto a divisão do que é puro, aqui o tempo, apesar de também gerar quantidades, a saber, anos, dias, horas, etc., não cria diferenças sensíveis em suas partes, porquanto sempre tempo. Isso para dizer que tempos menores não perdem qualidade, apenas aumentam em quantidade, e de forma alguma faltam. Aliás, quanto menores, mais abundantes.

Todavia, o tempo não divide a si próprio, pois é absoluto e impessoal. Quem o partilha somos nós, e qualitativamente. Retornando à perspectiva histórica anterior, o escravo dividia sua vida em quando era livre e quando já não o era mais, de resto, nada mais importava; o servo, entre os meses de trabalho para si e nos devidos ao seu senhor; e o proletário, tão somente no turno da fábrica e no de sono. Hoje em dia, contudo, devido ao espaço oferecido aos nossos desejos, passamos a viver de hora em hora, de instante em instante, tantos quantas forem as coisas que desejamos; e porquanto são muitas, haja tempo para todas!

Logo, não é o tempo que é reduzido, visto que infinito para fora e para dentro de si mesmo, seja em direção ao passado e ao futuro seja em um período determinado qualquer: um dia, por exemplo, pode ser dividido em algumas dezenas de horas ou centenas de milhares de segundos. Por consequência, quanto menores forem os instantes, mais deles teremos, e a intensa subdivisão temporal dos dias atuais não obstante deveria causar sensação de mais tempo, de mais oportunidades, não de menos. Conquanto o tempo nos falta, provavelmente estamos pervertendo sua pureza e infinitude.

A finitude angustiante das nossas horas, contraposta à infinidade temporal disponível, se dá porque, conforme Aristóteles, “no infinito está incluído o finito”; e em relação ao tempo, a escolha de tomar a parte finita em vez do todo infinito não é do próprio tempo, mas exclusivamente nossa. Talvez estejamos, sintomaticamente, reduzindo o tempo infinito à finitude que os nossos desejos encarnam ao se tornarem sequencias, auto-obsolescentes, desconectados da totalidade da vida e cada vez mais confinados ao “tamanho” dos instantes nos quais se mostram a nós.

“Tudo que muda, muda o tempo”, escreveu Aristóteles. Parafraseando aqui o filósofo, no sentido de entender o desejo afetando o tempo, conclui-se que ‘tudo o que deseja, deseja o tempo’. Ainda que o desejo se apresente instantânea e pungentemente, seu desenrolar se impõe temporal, precisamente porque a fruição se dá ao longo do tempo. Consequentemente, a vida de um desejo ocupa mais tempo do que aquele no qual ele se apresenta. Portanto, ao preenchermos todos os instantes com desejos, literalmente roubamos-lhes o tempo de realização. Daí a sensação de falta de tempo, mesmo sabendo que ele é infinito.

 

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