À moda Moderna

O jornal “The Guardian” decretou a morte dos “hipsters”, aqueles fantasiados de “pré-pós-moderninhos”, de óculos “vintage”, barbas excêntricas e calças de atravessar poça rasa. Essa moda, “beijinho no ombro” à sistematizada sociedade de consumo do novo, cresceu a ponto de se tornar, ela mesma, tão sistematizada e generalizada que, por conseguinte, merece morrer se quiser corroborar com seu ideal manifesto.

A moda é um abutre pervertido e apressado cuja vida consiste em se alimentar dos cadáveres que ela mesma cria. Se algo persistir, o novo não terá espaço nem função, e uma das funções do novo é morrer! Alimentada pela “obsolescência programada”, teoria de Bauman acerca do planejado, estratégico e curtíssimo prazo de validade das coisas, a moda vive de suas constantes mortes. Fosse um processo menos artificioso, as modas aguardariam a decadência total para, só então, serem sucedidas. Entretanto, para maior eficiência do $istema, uma moda deve morrer precisamente no seu ápice, porquanto o vazio deixado por ela potencializa a necessidade de outra, “ad eternum”.

Os acessórios mais populares dos “hipsters” são o bigode e a barba, ícones dessa moda. A maioria dos homens jovens ocidentais deram seus rostos ao tapa “hipster”, e hoje vemos hordas de barbudos de todas as espécies e em todos os lugares. Há quem goste, há quem não… Porém, em um movimento, esses barbados engrossam uma tendência ao modo de serem rebeldes a ela, ao mesmo tempo em que desenterram, através dos seus pelos, uma masculinidade afetada pelo metrossexualismo e pelo “goyismo”, isto é, pela sofisticação e sensibilidade que os tempos atuais exigem dos homens.

No mundo árabe, fortemente machista, a barba é item socialmente prescrito à dignidade masculina, inclusive pelo Alcorão. Aos históricos revolucionários políticos, a barba também é icônica: Marx, Lenin, Castro, Che e Lula (quando revolucionário…). Também para estes, as barbas e bigodes atribuíam potência e virilidade, fundamentais à guerra contra os barbeados&alienados burgueses. No entanto, foi do cruzamento entre a Primavera Árabe com o “vem-pra-rua-vem” que nasceu essa legião de novos barbados “semi-hipsterizados”, devotos da religião da aparência e revolucionistas esteticizados.

Todavia, o inimigo imberbe, representado pela neozelandesa “Schick” de lâminas de barbear, visando seu restabelecimento econômico, usou o Deus Publicidade para anunciar o fim do “hipisterismo” barbudo. Com a ajuda do Anjo Caído do jornalismo, aqui o “The Guardian”, a morte dos “hipsters”, e por conseguinte da barba, encontra a finalização cultural nesse$$ária. As barbas históricas dos árabes ou dos revolucionários clássicos resistem ao tempo porque colaterais a interesses gerais e perenes, a saber, religiosos e sociais. Já as dos “hipsters”, frutos do consumismo romântico individual, vão-se com a mesma superficialidade com que vieram, afinal, moda…

A Idade anterior à nossa, ou seja, a Moderna, assim foi chamada porque estruturada nas “modas”, no novo: movimento em oposição ao medievo arraigado nas tradições. Contudo, hoje em dia, somos tão ou mais “Modernos” do que os próprios Modernos, visto que mais ao sabor das modas. O nome da nossa Idade seja Pós-moderna ou Contemporânea serve, estrategicamente, para alienar-nos do fato de que nunca deixamos de ser absolutamente Modernos. Assim como a Fênix, que renasce das suas próprias cinzas, a moda precisa deixar de ser ela mesma para seguir sendo quem sempre foi; e mentir que não é mais moderna, que é pós-ela-mesma, é sua tática infalível de sobrevivência através desses tempos teimosamente Modernos.

Anúncios

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s