Era Avatar

O mundo-em-rede-social contemporâneo é feito pelas e para as pessoas ao mesmo tempo em que, inadvertida e simultaneamente, as pessoas são feitas por e para esse mesmo mundo-em-rede-social. O que possuímos também nos possui, e enquanto possuídos pela realidade, buscamos alforria na virtualidade. Porém, virtual não enquanto oposto ao real, mas como a via de acesso a ele; pois, em latim, “virtual”, significa virtude, força ou potência. A partir de potencialidades é que nos lançamos no mundo, e os avatares são as plataformas apropriadas a esse lançamento.

Vivemos a era do indivíduo, e somente enquanto indivíduos é que podemos ser. A empresa mais acessível, porquanto conhecer o “ser” é mais difícil que inventá-lo, é, por conseguinte, a da construção desse indivíduo. Isso não é um problema, pois, conforme o filósofo belga Raoul Vaneigem, “não há uma pessoa sequer que não esteja mergulhada em um processo de alquimia individual”: e esse ouro alquímico são os nossos avatares, tão potentes e virtuosos quanto impotentes e viciosas forem nossas chances no real. “As pessoas adotam uma causa porque não puderam adotar a si mesmas e aos seus desejos”, disse Vaneigem.

Avatar é a objetividade funcional a travestir o fato de que “cada individualidade é apenas um erro especial, um passo em falso”, citando Schopenhauer. Entretanto, em potencial virtual, temos a possibilidade de sermos mais, outros, melhores. “O que me importa a perda dessa individualidade se trago em mim a possibilidade de um sem-número de individualidades?”, pergunta de Schopenhauer. Vaneigem, todavia, alerta para a fragilidade intrínseca ao indivíduo, pois, “não existe arma alguma da tua vontade individual que, manejada por outros, não se volte imediatamente contra ti”.

Vivendo em um mundo interconectado e interativo, não escapamos do manejamento e da remixagem a cada nova conexão e interação. A fé que temos na estabilidade individual não obstante advém de uma autocultura egoica, pois, segundo Schopenhauer, “o egoísmo consiste no fato de que o homem limita toda sua realidade à sua pessoa, pois presume existir apenas nela, não na dos outros”. A indeterminação acerca do que somos parece se dar, precisamente, porque nossa existência individual advém partir dos outros, e em função deles.

Um horizonte existencial tamanho expandido e alheio ao controle obriga-nos a autodeterminar a autonomia e a autoria das nossas próprias individualidades. Porquanto “o mundo ideal é construído sem descanso dentro de cada um”, como disse Vaneigem, e mesmo que “você não acredite nas coisas, as fará mesmo assim, se acostumará a elas e acabará gostando delas por fim”. Dessa forma nasce um avatar: um simulacro confortável e apropriado, precisamente porque que o real não o é.

“Estou em terreno inimigo e o inimigo está em mim. Por isso me abrigo dentro da carapaça dos papéis”, resumiu Vaneigem o inferno e o céu da individualidade externamente condicionada. Mas em que medida um avatar nos serve? Vaneigem afirma que buscamos nos outros a parte mais rica de nós mesmos existente neles; portanto, ao lançarmos mão de um avatar visamos não aos outros, como primeiramente acreditamos, mas a algo de “rico” de nós mesmos, neles. Essa é a primeira mentira do avatar contra quem dele se utiliza: dissimula perfeitamente o narcisismo inerente a uma individualidade.

Quem se recusa a reconhecer a presença fundamental dos outros em si mesmo está, por conseguinte, condenado ao ostracismo em relação à interdependência positiva entre indivíduo e grupo. Não entender a individualidade enquanto forma de ser para os outros, e em função dos outros, é desvesti-la de seu propósito básico, pois, se ela fosse para si própria, sequer perceberíamos os outros; pareceríamos todos autistas. A falta dessa consciência condiciona ainda mais o indivíduo ao seu avatar, e a “mudar de pele, mudar de papel: só a alienação não muda”, aponta Vaneigem.

Precisamos de avatares para atuar da vida porque somos solicitados à ação muito antes de saber satisfatoriamente quem somos. Entrementes, “na vida cotidiana, os papéis impregnam o indivíduo”, diz Vaneigem, a ponto das “únicas recordações serem as dos papéis que foram desempenhados”, conclui o filósofo. Os simulacros nos servem na mesma intensidade que eles se servem de nós, e mentir através deles é, portanto, sujeitar-se ao logro na mesma medida. No sentido inverso, revelar o que se oculta atrás de um avatar, no uso mesmo dele, é manter o equilíbrio entre verdade e mentira, entre eu e os outros, em favor do que é comum, a saber, dos sujeitos.

 

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