Mal Belo

O “Belo” tem sua própria história, e é independente das “coisas” que o recebem ocasionalmente; existindo, definitivamente “nos olhos de quem vê”. Belo é o que tem a capacidade de oferecer uma experiência de prazer ou satisfação, ou seja, algo completamente subjetivo. A beleza, portanto, pode ser encontrada em qualquer lugar, época ou circunstância onde haja um sujeito. Uma expressão intrigante do Belo apareceu recentemente nalguns jornais e nas redes sociais na figura de “um dos criminosos mais violentos na região de Stockton”, segundo a Polícia da Califórnia. Jeremy Meeks, 30 anos, preso após uma série de tiroteios e roubos, instantaneamente atraiu 30 mil “likes” apaixonados no Facebook.

Umberto Eco, no livro “A História da Beleza”, afirma que criamos o belo à nossa imagem e semelhança da forma como nos vemos e representamos a nós próprios, isto é, uma auto-homenagem. Consoante a essa teoria, cabe aqui perguntar: o que no belo criminoso de Stockton, que encheu de beleza milhares de olhos, auto-homenageia os próprios admiradores dessa beleza? Já que, para Eco, a beleza é uma projeção da forma como o homem vê a si mesmo, o que estariam os admiradores do criminoso, por conseguinte, vendo de “si mesmos” ao projetarem nele tanta beleza?

A pergunta acima deve necessariamente levar em conta as declarações públicas ao belo presidiário: “estou apaixonada por um criminoso”, “podemos ser algemados juntos?”, “ele pode me sequestrar qualquer dia”, “ele deveria estar modelando e ganhando milhões?”, etc. Versace e Dolce & Gabbana já disputam o bonitão, pois estas grifes investem em modelos masculinos de rostos fortes e marginais, menos angelicais. Tendência internacional essa que já colocou nas passarelas o filho do pedreiro desaparecido Amarildo, referência desse padrão de beleza. Mesmo destino teve o modelo mendigo de Curitiba, que foi sacado da miséria por conta de sua beleza rapidamente publicizada.

Hegel, no texto “Quem Pensa Abstratamente?” traduzido por Charles Feitosa, cita uma circunstância similar à do belo criminoso americano: “Para o povo em geral, trata-se somente de um criminoso e nada mais. Algumas damas comentam que ele é um homem forte, belo e interessante. O povo reage com repulsa: ‘o quê?’ ‘um assassino belo?’ ‘Como se pode pensar tão equivocadamente a ponto de chamar um assassino de belo?”. Para Hegel, “ver no assassino somente o fato abstrato de que ele é um assassino e, através dessa simples qualidade, anular toda a essência humana ainda remanescente nele”, é reduzi-lo abstrata e desumanamente. Pensar concretamente como Hegel, no caso do californiano, seria, por conseguinte, não condicionar as qualidades do criminoso à sua condição legal, porquanto sua beleza é! independente de ser marginal ou não. E não foi isso que fizeram todos os seduzidos por Meeks?

Para os antigos gregos o belo formava uma unidade indissociável como bom e o verdadeiro, e nada que fosse mal ou falso merecia título de beleza; Meeks, portanto, não receberia tantos “likes” na polis grega quanto os que recebeu na nossa urbe contemporânea. O divisor destas águas está, no entanto, mais próximo dos gregos que de nós, visto que foi Aristóteles quem se encarregou da ruptura entre o belo e a ideia de perfeição, condicionando a beleza à mundanidade. Portanto, é longa a história da beleza alienada do bom e do verdadeiro; o que nos permite, hoje em dia, naturalmente elevar “um dos criminosos mais violentos” a objeto de consumo da beleza. Meeks, concretamente, tem feições físicas conforme a necessidade estética do momento, e são todos os seus “likes” que atestam isso.

Porém, num outro sentido, abstraindo aqui os belos atributos físicos de Meeks, estaríamos nós, de alguma forma, enxergando beleza na exclusão social e econômica sofrida por ele? Haveria algo de belo em ser esquecido pelo sistema, vingar-se desse sistema no mesmo ato de relembrá-lo de si, e por final fracassar nessa tentativa de revolução? Se para Eco a beleza é uma projeção da forma como o homem vê a si mesmo, podemos, inadvertidamente, estar projetando sobre Meeks o esforço de sobrevivência a que todos estamos submetidos na excludente selva capitalista atual. Vencer, no mundo de hoje, é uma necessidade imperiosa e não um estado do espírito relacionado à beleza. Talvez seja o próprio fracasso de Meeks que tanto sensibilize esteticamente as pessoas. Concretamente: mesmo criminoso, pode-se ser belo!

Para concluir, vale a pena enfocar etimologicamente o “belo” que, para os gregos, é um adjetivo que vem da palavra “hora”, de tempo. Eurípedes já dizia que ter beleza é “estar em sua hora/seu momento”. O nosso criminoso de Stockton, por conta dos periódicos e das redes sociais, nunca esteve mais “em sua hora/seu momento” do que agora; e segundo Eurípedes, só isso é necessário para que a beleza seja. Da exclusão socioeconômica às capas de revistas, Meeks é um modelo “da hora”, um belo exemplo daquilo que todos somos em potencial, ou seja, pessoas cuja beleza, interior e/ou exterior, excede sim qualquer um dos nossos atos individuais, mas que, ela mesma, não pode impedir de sermos excluídos e/ou criminalizados. Todorov escreveu: “A beleza salvará o mundo”. Meeks está usando sua beleza para salvar seu próprio mundo. Todavia, invertendo Todorov: o mundo salvará a beleza?

 

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