Contemporaneísmo

Como será chamada a nossa Idade Contemporânea quando contemporâneas forem as Idades posteriores? As Idades históricas são nomeadas posteriormente, entretanto, no imediatismo dos dias de hoje, já rotulamos a nossa. Chamá-la de contemporânea é extremamente genuíno quando a partir dessa mesma contemporaneidade; no entanto, as contemporaneidades futuras terão sérios problemas identitários caso o nome “contemporâneo” permaneça atrelado a esse nosso período determinado. Aristóteles, ao se confrontar com o pensamento dos antigos – ou dos “antiquíssimos”, segundo ele, já se diferenciava atribuindo a si, e ao pensamento de sua época, a palavra “contemporâneo”.

Ler um Aristóteles contemporâneo de há 2500 anos é experienciar a relatividade do contemporaneísmo. Não é difícil imaginar uma contemporaneidade contingente a cada momento histórico, inclusive aos mais longínquos, isso porque quadros históricos, porquanto passados, já são reduções produzidas para serem icônicas. Todavia, épocas históricas excedem a qualquer determinação; isso para dizer que não há contemporaneidade que caiba inteira noutra. Há, portanto, uma dessubstancialização das Idades históricas assim que elas perdem suas respectivas contemporaneidades.

“O que” de substancial não é carregado para além de uma mesma contemporaneidade? Seja a da cultura grega, do imperialismo romano ou a do “europeísmo” histórico; o que, precisamente, perdeu-se definitivamente neles mesmos? O que é, de fato, aquilo de que nunca se terá consciência, seja dos gregos, dos romanos ou dos modernos europeus? Somente enquanto contemporâneos podemos saber até onde uma contemporaneidade é contingente. Para tanto, a única via de investigação possível é a partir da contemporaneidade determinada de onde tal pergunta é feita; nesse caso, esta aqui!

Desse mesmo ponto de vista, temos, porventura, alguma ideia do espírito subjacente exclusivo à nossa própria época? Imaginamos algum ícone que apreenda a alma subcutânea e invisível desse presente e que seja invisível a esse mesmo presente? “O que” de nossa época é ininteligível a ela mesma que, por conta disso, o será a todas as outras? Retornemos à tomada histórica anterior no sentido de atualizar a questão: o que, especificamente, do Sino Americanismo ao molho BRIC contemporâneo, enquanto substância das relações globais dessa precisa fatia histórica, no caso, a nossa, não será substancial a nenhum outro momento histórico?

Trata-se de investigar o subjacente vivificador destes dias enquanto jacente absoluto em quaisquer outros; como quem procura o ser somente em suas ausências, em todo o seu não-ser. Refaço a pergunta em uma tomada mais universal: o que será o não-ser da nossa Idade Contemporânea? Quando “contemporâneo” somente disser respeito aos anos 2750, por exemplo? É como perguntar quem somos “nós” àqueles para quem “nos” não somos há muito. Para evitar tal indeterminação vale expandir a fronteira leste da linha histórica e saber até onde a Idade Contemporânea expandirá sua área de cobertura.

Entretanto, quando for virada a próxima esquina das Idades, visto que são tantas as contemporaneidades quantas são as “quebradas de esquina” históricas, seremos reduzidos a uma linha temporal tão carente de substância quanto de um novo nome que não “contemporânea”. Nossos deslocamentos na cidade, durante um mês, por exemplo, contêm muitas viradas de esquina, subidas e descidas, ou seja, se dá em múltiplas dimensões. O que acontece, portanto, quando esse mapa quadridimensional é esticado até virar uma rua só, uma linha – a histórica -, quando a miríade multidimensional da vida é obrigada a residir na tímida espessura de uma linha qualquer?

Contemporaneidade, em um sentido, é a certeza da multidimensionalidade plena ainda não linearizada pela História. Contemporânea é a possibilidade de desvio, sem com isso abandonar o sentido. Por conseguinte, o que seria um sentido abandonado? Do ponto de vista aristotélico que diz ser a substância aquilo que não é predicado de nada além de si mesma e, ao mesmo tempo, aquilo que recebe as predicações, condiciona-se aqui a sobrevivência substancial da histórica às suas próprias predicações. Se uma ideia, um modo de viver, um conceito, seja lá o que for não mais carregar predicado algum, aí existe sua dessubstancialização absoluta, ou seja, a incapacidade de receber qualquer predicação: o não-ser. Em perspectiva histórica, o substancial se simplifica em circunstancial e qualquer coisa de substancial se eterniza nalguma predicação remanescente.

Ampliar a idade contemporânea até não se sabe onde é obra para a consciência que não se quer fora do seu próprio tempo. Não podemos ser “os” Antigos, por certo, ainda que venhamos a ser “como” eles. E apesar das tentativas, tampouco conseguimos ser como os “Futuros”. Substancialidade, portanto, exige contemporaneidade: o substancial é! As contemporaneidades de todos os homens, individualmente, ainda que objetivamente diferenciadas pelos rótulos das Idades, todas elas, são as substâncias essenciais da Histórica; no entanto, as primeiras a serem dessubstancializadas. E quando nossa Idade Contemporânea estiver completamente dessubstancializada de sua contemporaneidade, quando “contemporâneo” for um meio ambiente outro, de onde os “futuros” se identificarão distintivamente de nós, que Idade, afinal, seremos?

Fomos extremamente precipitados e redundantes em nomear a nossa experiência enquanto contemporâneos com esse mesmo nome. É como chamar o agora de “agora” achando que com isso o nomeamos melhor. Cristalizar um período histórico passageiro através do nome “contemporâneo” é, em grande medida, adiar sua nomeação definitiva . Nosso auto-título “contemporâneo”, entre seus muitos sentidos, também pode ser visto como uma generosidade à posteridade, pois, ao dizer que somos contemporâneos não dizemos, de fato, nada acerca desse contemporâneo. Há, portanto, nesse sentido, mais liberdade aos “futuros” quando estes forem nos nomear.

Nossos antecessores, os da Idade Moderna, assim se denominaram porque aquela contemporaneidade era estruturada nas e estimuladas pelas novas modas. Eles seguiam modas, por conseguinte, modernos, e foi essa a Idade deles. Não há, por conseguinte, conflito entre aquela contemporaneidade não mais contemporânea e o nome sob o qual ela jaz. Umberto Eco, no seu livro “História da Beleza”, acredita que o futuro enxergará essa nossa Idade como a do “mass midia”, na qual somente o que é massivamente divulgado merece existência, tanto no momento imediato quanto nos futuros. Qual será, contudo, o nome do nosso contemporâneo quando ele não for mais contemporâneo? Idade da Mídia? Idade Contemporaneísta? Quem seremos nós quando já não formos mais? 

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